"O Tigre e o Dragão": fiasco na China

Segundo reportagem de Mark Landler no New York Times, O Tigre e o Dragão, filme do chinês Ang Lee, faz sucesso no mundo todo - menos na China. O longa, uma fantasia visual aplicada sobre uma história de artes marciais, já é o maior sucesso de bilheteria de um filme estrangeiro nos EUA, tendo chegado a US$ 81 milhões até a semana passada. Deve ultrapassar com facilidade a barreira mítica dos US$ 100 milhões. Além disso, foi indicado para o Oscar em dez categorias, o que costuma ser mais que um cartão de visitas convincente para o mundo todo. No entanto, Ang Lee, chinês de Taiwan, confirma a tese de que ninguém é profeta em sua própria casa. Em Hong Kong, pátria dos filmes de artes marciais, o afluxo aos cinemas em que passa O Tigre e o Dragão tem sido decepcionante. Fez até agora menos de US$ 2 milhões no box office local, o que o coloca à frente de um típico "filme de arte" como Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai, mas bem atrás de produtos importados dos EUA, como Missão Impossível 2. Pessoas entrevistadas na saída do cinema explicam ao autor do artigo sua decepção: "Não tem ação suficiente", diz um espectador, que se confessa fã dos filmes-pancadaria de outro natural de Hong Kong, Jack Chan. Na vasta China continental, a sorte de O Tigre e o Dragão não parece melhor. Até agora fez apenas US$ 1,3 milhão, e as salas em Xangai e Pequim o exibem com lotação pela metade. Os produtores se defendem dizendo que o filme vai bem no mundo todo com exceção da China porque lá circulam livremente CDs pirateados do filme. Pode ser. Mas a explicação parece estar em outra parte. Para observadores, o que fica é a sensação de tédio das platéias chinesas com o ritmo, digamos, contemplativo proposto por Ang Lee. Um historiador do Hong Kong Film Archive, Law Kar, nota, com espanto, que em O Tigre e o Dragão passam-se quinze intermináveis minutos entre o começo da história e a primeira luta. E, acrescenta, quando finalmente acontece, a luta se assemelha mais a um balé noturno que a um real combate entre dois adversários dispostos a se entredevorar. Em suma, faltaria realismo. Esse excesso de fantasia se exprime à perfeição em uma das mais comentadas cenas do filme, quando dois antagonistas parecem flutuar sobre uma floresta de bambus. Platéias ocidentais ficam encantadas. No Oriente, essas seqüências são apenas risíveis. "Para nós, essas cenas são exageradas", garante Stephen Sze, presidente da Associação dos Críticos de Hong Kong. "Tudo torna-se quase ridículo", diz. "Gente jovem quer ver filmes de ação que sejam mais realistas." No entanto, todos reconhecem que O Tigre e o Dragão deverá converter-se num marco do cinema local como o primeiro filme falado em chinês a se tornar sucesso mundial. Um dos produtores locais do filme, William Kong, diz que encorajou Lee a agradar ao público oriental incluindo mais cenas de sangue, mas o diretor recusou-se. Ao mesmo tempo, Lee negou-se a adotar diálogos em inglês o que, em tese, teria facilitado seu ingresso no Ocidente, e nos Estados Unidos em particular, onde o público é hostil a legendas. "Poderíamos ter feito mais dinheiro", diz Kong, "mas Lee tinha medo de o acusarem de ter feito um filme para Ocidentais". Segundo o produtor, o filme está reestreando em vários países asiáticos depois das indicações para o Oscar. Além disso, ele tem esperança de que O Tigre e o Dragão compense, no mercado de vídeo e DVD, tudo aquilo que não está conseguindo nas salas do cinema. De qualquer forma, para Kong, o filme já cumpriu um importante papel. "Depois de anos de preferência pelos produtos norte-americanos, o sucesso mundial de bilheteria e crítica de O Tigre e o Dragão pode reconquistar a confiança do espectador local". Enfim, pelo menos esta é a sua esperança.

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