"O Tigre e O Dragão" chega às locadoras

Paredes, telhados, rios e árvores. Os heróis de O Tigre e o Dragão desafiam a gravidade e testam os limites do realismo em lutas espetaculares coreografadas por Yuen Wo-ping. Foi o técnico de Hong Kong que coreografou as cenas de lutas de Matrix. Naquela fantasia futurista, os irmãos Wachowskis incorporaram ao cinemão de Hollywood as artes marciais do Oriente. O resultado foi acachapante na bilheteria. Matrix virou cult para espectadores que torceriam a cara para Bruce Lee. Ang Lee devolve agora as artes marciais ao Oriente por meio de uma bela aventura. Havia a expectativa de que O Tigre e o Dragão recebesse o Oscar de melhor filme do ano, em março. Não tinha muito fundamento, é verdade, mas foi bom sonhar com a consagração do épico que Ang Lee realizou na China, com dinheiro de Hollywood e diálogos falados em cantonês. O filme terminou coroado pela academia, mas na categoria, muito mais confortável, de filme estrangeiro, que não ameaça a hegemonia do produto americano. O Oscar, afinal, é a festa de Hollywood, para Hollywood. Com ou sem Oscar de melhor filme, O Tigre e o Dragão foi um dos eventos do ano passado. Já está nas locadoras e lojas especializadas em DVD e vídeo da Columbia. No disco digital, há extras para fã nenhum botar defeito - making of com entrevista da atriz Michelle Yeoh, comentários do diretor Ang Lee e do roteirista e produtor James Schamus, trailer, storyboard, fichas do cineasta e do ator Chow Yun-fat. Mas o melhor é o próprio filme. Ang Lee renova uma tradição que tem marcado os wu xia pian (filmes de espada) nos últimos 30 ou 40 anos. Essa vertente do cinema de Hong Kong passou a ser influenciada cada vez mais pelos códigos de Hollywood. Foi incorporada por Hollywood em Matrix e agora devolvida às origens por Ang Lee. Seu filme é pop (alguma dúvida?), mas dialoga com a tradição oriental por meio de uma história profundamente enraizada nas lendas da China. No ano passado, em Cannes, os melhores filmes podem ter sido As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang, Eureka, de Shinji Aoyama, ou Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai, mas os maiores sucessos de público do festival foram Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, que ganhou a Palma de Ouro, e o filme de Ang Lee. O Tigre e o Dragão foi aplaudido de pé, na sessão de gala, durante dez minutos ininterruptos. Nasceu lá, na Croisette, o culto ao épico mais eletrizante do novo milênio. Ang Lee sabe que fez o Razão e Sensibilidade das artes marciais. Não é só uma frase de efeito do próprio diretor, que já adaptou o romance de Jane Austen. Todo o cinema de Ang Lee estrutura-se no conflito entre razão e sensibilidade, especialmente O Tigre e o Dragão. Seus personagens são dilacerados por esse conflito básico. A razão, o dever, o código de honra. E contra tudo isso a sensibilidade, o instinto, o amor que entra em choque com todos os códigos, contra tudo que não seja ele mesmo. O filme de ação de Ang Lee, com suas lutas maravilhosamente coreografadas e encenadas, é também um filme de amor. A lutadora Yu Shin-lien (Michelle Yeoh) ama o mestre Li Mu-bai, interpretado por Chow Yun-fat, mas ele secreta sua emoção. Há um motivo para isso. No passado, seu irmão de armas, prometido da bela Yu, morreu para salvar a vida dele. Paralelamente, é narrada a outra história de amor, da garota aliada da pérfida Raposa Prateada com o bandido do deserto. Pode-se vencer o espaço, desafiar a gravidade em O Tigre e o Dragão, mas o grande desafio é mesmo o amor. Ele se inscreve no tempo, só a proximidade da morte libera o guerreiro para verbalizar seus sentimentos. O filme termina em suspenso, com o salto no abismo que tem um significado profundamente poético. O filme de lutas de Ang Lee é, essencialmente, um filme romântico. Gostar ou não gostar de O Tigre e o Dragão, eis a questão. Para isso, é possível que o espectador tenha de ter algum tipo de formação no cinema de ação. Que tenha visto westerns, filmes de samurais, de dragões invencíveis. Quem alguma vez vibrou com Bruce Lee dificilmente ficará insensível à habilidade de Chow Yun-fat com o sabre. E como duvidar da ação como possibilidade de reflexão? É só pensar numa tradição que vai de Homero a Camões, na densidade trágica dos pistoleiros de Budd Boetticher e Anthony Mann, nos samurais que expressam o pensamento filosófico de um dos maiores artistas do cinema, Akira Kurosawa. E existem as pérolas da sabedoria oriental, distribuídas como gotas, ao longo da narrativa de O Tigre e o Dragão. Seriam falsas se a dinâmica do filme não se estruturasse no embate permanente entre a palavra e o gesto. O gesto impulsivo e a palavra consciente. Razão e sensibilidade. Depois de mapear o choque cultural e a dificuldade de ser do oriental no Ocidente (em Banquete de Casamento e Comer, Beber, Viver), Ang Lee não apenas retoma a via do Oriente como recria, cinematograficamente, os mitos dessa cultura. É maravilhoso.

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