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O thriller reflexivo de Paul Greengrass

Confronto marítimo de ‘Capitão Phillips’ reflete as forças que dominam o mundo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2013 | 17h50

Seu pai era da Marinha mercante e o irmão, Mark Greengrass, tornou-se um historiador destacado. Paul Greengrass virou roteirista e diretor. Foi documentarista antes de abordar a ficção. Greengrass tem somado elogios a indicações ao Oscar. Você pode apostar que ele e seus colaboradores – atores e técnicos – estarão entre os indicados para o próximo prêmio da Academia por Capitão Phillips. O filme que estreia hoje baseia-se numa história real – o sequestro de um cargueiro norte-americano por piratas somalis em 2009. Phillips era o capitão da embarcação, Muse, o líder dos piratas. O confronto dos dois poderia ter originado uma aventura maniqueísta entre o herói anglo-saxão e o vilão terceiro-mundista. Isso nunca esteve nos planos de Greengrass.

“Tom Hanks já estava a bordo quando fui contatado”, ele contou a um grupo de jornalistas em Londres, logo depois que seu filme abriu o festival da capital inglesa numa sessão triunfal. “Desde a era dos descobrimentos, a navegação tem feito circular a riqueza, mas creio que nunca, como hoje, a economia mundial dependa tanto das rotas dos grandes cargueiros. A riqueza pode ser virtual, mas o que ela representa está nesses navios. Devo a meu pai a minha formação, e ele me abriu os olhos para o mundo em que vivemos.”

E Greengrass prosseguiu – “Nos últimos dez anos, assistimos a um número grande de filmes que abordavam temas como terrorismo e segurança nacional, mas, desta vez, quis falar sobre o conflito entre os que têm muito e os que não têm nada. Pode parecer simplificação, mas, na verdade, é disso que trata a ocupação do Alabama e o conflito entre Phillips e Muse. E, nesse sentido, a história de sequestro marítimo é algo maior. Phillips faz parte da economia global planetária, Muse é parte dos que não têm nada e o filme é sobre as forças que dominam o mundo.”

O diretor conta que a questão da pirataria na Somália é como a ponta de um iceberg. “O país foi dizimado na guerra que se seguiu ao colapso da ditadura militar, em 1991. Os EUA estabeleceram regulamentações que inviabilizaram até a pesca na costa. A pirataria virou sobrevivência, mas foi encampada e tem conexão com grupos criminosos da África, da Europa e da América. São eles que lucram.” Ao ser sitiado pelos piratas, Phillips pede socorro e a Marinha aciona os Seals para o resgate. O que começa como ataque à economia global vira operação militar.

“Às vezes, é preciso usar a ficção para realmente dar a certas histórias o peso emocional  de que precisam”, comenta o diretor. Em filmes como Domingo Sangrento e em suas incursões pela série Bourne, Greengrass mostrou que um thriller, por mais intenso, não inibe a reflexão. “O cinema que me interessa é o do espetáculo, mas não para alienar. A tradição de thriller político na Europa foi decisiva para mim.”

O caso de Capitão Phillips foi interessante. “Em geral, a gente filma fora de ordem, mas, como estávamos em alto-mar e numa embarcação pesada, pudemos seguir quase toda a cronologia da história. Isso deu ao elenco uma rara chance para construir a estrutura da curva dramática. E tive o privilégio de ter atores excepcionais. Tom (Hanks) todos conhecem, mas espero que Barkhad Abdi seja uma descoberta.” Ele nasceu na Somália e chegou aos EUA através do Iêmen. Quer ser diretor e realiza um filme sobre a migração somali em Minnesota. “Tom e ele não se conheceram antes da invasão do navio. Achei que seria bom para ambos. Foi emocionante quando Abdi explodiu de alegria, dizendo que não acreditava estar contracenando com Forrest Gump.”

CAPITÃO PHILLIPS

Direção: Paul Greengrass.

Gênero:  Drama (EUA/2013, 134 minutos).

Classificação: 14 anos.

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