Universal Pictures
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O terror assustador ‘Nós’, de Jordan Peele, retrata a face sombria dos EUA

Diretor de 'Corra!', Jordan Peele provoca medo e faz pensar com a história de duas famílias que encontram seus clones, só que eles são cruéis e diabólicos; veja trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2019 | 03h00

Jordan Peele pode não ter desencadeado a nova consciência negra de Hollywood, mas rapidamente se converteu em uma de suas figuras mais representativas e icônicas. Recebeu o Oscar de roteiro original por Corra!, produziu o Spike Lee – e somente agora, com 33 anos de carreira, ele também recebeu seu Oscar de roteiro, por Infiltrado na Klan. O Oscar deste ano teria sido uma bela celebração da participação dos negros na indústria – Pantera Negra foi multipremiado –, se a Academia, no limite, não tivesse arreglado, escolhendo o ponto de vista branco da questão racial como melhor filme do ano. Green Book – O Guia? Por mais qualidades que tenha, o longa do irmão Farrelly não é melhor de coisa nenhuma.

Já o Us/Nós, que estreia nesta quinta, 21, em salas de todo o Brasil, entrega o que promete. Um terror assustador, e – de quebra – outro olhar crítico sobre as maiorias silenciosas que regem a ‘América’. Havia a expectativa pelo novo Jordan Peele. Com Corra!, ele impregnou seu terror de conotações ideológicas e, misturando elementos de uma obra cultuada sobre racismo (Adivinhe Quem Vem para Jantar?, de Stanley Kramer) com outros de um filme não tão famoso, mas que levantava questões interessantes sobre consumismo e massificação nas sociedades modernas – Esposas em Conflito, de Bryan Forbes –, fez o terror racial e social que a crítica considerou perfeito para o momento inaugurado pela eleição do presidente Donald Trump. Peele insiste agora no terror para continuar colocando na tela a era Trump. Não, não há nenhum vampiro na Casa Branca. Pior – Peele debruça-se sobre o lado mais sombrio da sociedade dos EUA.

Nós, Us em inglês. US é a sigla de United States. Ao contar a história de uma família que parte em viagem de férias e encontra outra família aterradora – e exatamente igual –, Peele coloca a América no espelho. E não se trata só de uma família de negros, embora o casal principal seja formado por Lupita Nyong’o, num trabalho de voz impressionante, e Winston Duke, que fazia o rei Baku de Pantera Negra. Os melhores amigos do casal são brancos, e encontram uma família exatamente igual, mas diabólica. São os Reds/Vermelhos, e a retórica anticomunista, para fins de consumo, voltou à moda nos EUA de Trump. Peele reflete sobre o medo irracional. Conclui que o medo do outro, dos outros, só estimula a paranoia.

É a pergunta que o cinéfilo deve se fazer – o que representa exatamente se ver projetado, encontrar seu igual e identificar nele seu lado mais sombrio? Jordan Peele está encarando, com seu novo terror – Us/Nós –, um fenômeno contemporâneo. Em sucessivas entrevistas, o diretor e roteirista diz que criou uma alegoria sobre o medo que os EUA, e não apenas, têm do outro. “Somos nosso pior inimigo”, reflete.

Como diretor, trabalhando com clichês de terror, conta que liberta seu lado sombrio para provocar o público – e na sequência estreia, em abril, seu revival, como produtor, apresentador e narrador, da série clássica Além da Imaginação, na TV norte-americana. Ao propor histórias com o pé no fantástico, Peele tem como norma mostrar como as pessoas, em grupos, viram seus piores monstros.

Nova-iorquino, 40 anos – que completou em 21 de fevereiro –, Jordan Peele tornou-se conhecido como ator, integrando o elenco fixo da série Mad TV por cinco temporadas, entre 2003 e 8. Também coproduziu e coestrelou a série Key & Peele com Keegan-Michael Key. Em 2014, participou da série do Canal FX Fargo. Também ajudou a criar a série de comédia da TBS The Last OG no ano passado e a série de comédia do YouTube Premium Weird City, que estreou este ano. E não para por aí. Em abril, estreia seu revival da série mítica Twillight Zone, criada por Rod Serling no fim dos anos 1950. Lançada no Brasil como Além da Imaginação, conta histórias de ficção científica embaladas com suspense e terror. Trata-se do material perfeito para Peele, embora ele não esteja dirigindo. É produtor, apresentador e narrador.

Após algumas participações como ator em filmes, Peele estreou na direção com Corra!, em 2017. No ano passado, fez história como primeiro negro a receber o Oscar de roteiro da Academia de Hollywood. Roteiro original, mesmo que a originalidade não seja o foco da trama do filme, que mistura um longa famoso de Stanley Kramer com outro não tão famoso de Bryan Forbes. Adivinhe Quem Vem para Jantar? – o casal liberal formado por Spencer Tracy e Katharine Hepburn recebe o namorado da filha e toma um choque quando entra em cena Sidney Poitier. Um negro! O roteiro de William Rose – que venceu o Oscar, um dos dois atribuídos ao filme, sendo o outro o de melhor atriz, para a veterana Hepburn –, adota o ângulo do casal, cujas convicções liberais são colocadas à prova.

No script de Peele, o olhar é o do namorado negro, que começa a suspeitar de que algo muito sinistro se passa naquela casa de gente aparentemente respeitável. É o outro combustível a alimentar a explosão criativa do roteirista e diretor, que se baseou – livremente? – na trama de Esposas em Conflito, que Bryan Forbes adaptou, com roteiro de William Goldman, do livro de Ira Levin, autor de O Bebê de Rosemary. No mundo das esposas de Stepford, como no da casa de Catherine Keener e Bradley Whitford, pais da namoradinha de Daniel Kaluuya, as pessoas passaram por uma lavagem cerebral e desistiram de pensar. O jovem negro vira cobaia. A solução é – Corra!

Jordan Peele cria agora outro pesadelo. Ele inicia Nós/Us em 1986 – há 33 anos. Mostra uma garota, Adelaide, com os pais, num parque de diversões. Papai e mamãe estão ocupados – brigando? –, a pequena Adelaide separa-se deles e vai parar nessa casa de espelhos em que vive uma experiência traumática.

Corte para a atualidade. Adelaide, transformada em mãe de família – e interpretada por Lupita Nyong’o, que venceu o Oscar de coadjuvante por 12 Anos de Escravidão –, está no carro com o marido e o casal de férias. Vão para a casa de praia, mas se esperavam uma temporada de lazer a esperança logo se dissipa. Entra em cena uma família exatamente igual, como se Lupita e os seus se vissem num espelho deformado. Porque esses duplos, que se vestem de vermelho, são o lado mais escuro, cruel, da família. Outro terror racial, social de Peele? Não exatamente. Pois se a família protagonista é de negros, a dos amigos, que também encontram seus clones, mais brutais ainda, é de brancos.

Para além da etnia, o cineasta está colocando os EUA no espelho. Seu tema é o medo do outro, o estrangeiro, que se alastrou com tudo nos EUA de Donald Trump. Quem são essas pessoas? Us, nós, mas a palavra também é a sigla de US, United States. Fascinante como é – olha o spoiler –, o filme tem um twist final que meio que desmonta o castelo de cartas sobre o qual erige sua arquitetura dramática. Quem são essas pessoas? Nós? E quem somos – nós?

 

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