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'O Terceiro Assassinato' dá novo fôlego ao gênero drama de tribunal

Longa que estreia nesta quinta é dirigido por Hirokazu Koreeda

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2018 | 21h19

Diretor, roteirista e, com frequência, também o montador dos próprios filmes, Hirokazu Kore-eda tornou-se o mais conhecido cineasta de sua geração no Ocidente. Desde Maborosi - A Luz da Ilusão, de 1995, seus filmes integram regularmente a seleção do Festival de Cannes. Já foi premiado por Depois da Vida, Ninguém Pode Saber, Seguindo em Frente, Pais e Filhos, todos grandes filmes. Mês que vem, estará de novo em Cannes com Shoplifters/Ladrões de Lojas, que integra a seleção do 71.º Festival. No ano passado, como O Terceiro Assassinato não ficou pronto a tempo, Kore-eda substituiu Cannes por Veneza. Agora estreia no Brasil.

Um filme de tribunal, mas não exatamente no formato a que o público está acostumado a ver nas séries americanas. O protagonista é um advogado de sucesso, interpretado por Fukuyama Masaharu, que fazia o pai rico de Pais e Filhos. De cara, ele aceita um novo caso, mas não é porque esteja convencido da inocência do homem que deve defender. Esse homem esteve preso por muitos anos, condenado pelo pai de Masaharu. Solto, confessou novo assassinato, mas sumiu com o cadáver.

É um réu confesso, mas a toda hora ele muda a versão do crime, o que leva alguém, no tribunal, a observar que o julgamento está virando uma farsa. Sem sustentação para a defesa do seu cliente, o advogado vale-se de todo tipo de artimanha legal para evitar a condenação à morte. Não é a verdade que está em discussão, mas a estratégia legal. Masaharu chega a dizer que ela é a verdade possível no caso.

O Terceiro Assassinato é mais um ótimo Kore-eda, mas no Brasil da Lava Jato o filme pode ser visto de uma forma muito intrigante. Das certezas do começo às improbabilidades do desfecho, Kore-eda fez um filme provocativo que questiona procedimentos legais e relativiza o conceito de julgar outro ser humano. Em bom português, não se mostra nem um pouco convencido de que a Justiça possa estar sempre certa. E, sim, não seria um filme de Kore-eda se, no limite, não abordasse questões de família.

Como filho de juiz, Masaharu chega a cobrar, do próprio pai, em seu imaginário, por que o criminoso não recebeu uma condenação mais dura no passado, o que teria eliminado toda essa confusão do presente. Masaharu tem uma filha, que se sente negligenciada, e esse tema, o comprometimento dos pais, já estava em Pais e Filhos. Mestre da luz, Kore-eda recorre à iluminação para criar áreas de sombras no rosto dos personagens, de forma a fazer da penumbra outra evidência de que as coisas raramente são o que parecem. A beleza transparece nas cenas da cadeia, quando o prisioneiro é separado do advogado e sua equipe por uma parede de vidro na qual os rostos não apenas se refletem, mas superpõem. Kore-eda filma bem demais, mas, isso, todos sabemos, não é de agora. 

 

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