O Tarantino do Ceará faz filme de artes marciais

Na terra do sol, um filme do crioulo doido. Na programação do 14º Cine Ceará, em Fortaleza, em meio à mostra com obras de Buñuel e Walter Salles, foi exibido o filme de artes marciais Sunland Heat - No Calor da Terra do Sol. É o primeiro trabalho do cearense Halder Gomes, professor de tae-kwon-do e dublê em filmes de ação em Hollywood. "Antes deste filme eu não havia dirigido sequer um vídeo de casamento", afirma. Mas isso não impediu que a sala de exibição ficasse lotada. Tanta gente ficou para fora que foi preciso realizar uma nova sessão, em plena tarde da última segunda-feira. O que atraiu todo este povo? Em primeiro lugar, Sunland Heat, como o nome indica, é um filme falado em inglês. "Isso facilita a distribuição no exterior", admite Gomes, cobiçando os dólares do imenso mercado de DVD e vídeo. Sunland também é um dos primeiros filmes de artes marciais feito no Brasil. Mesmo tendo custado muito pouco (R$ 127 mil, além de um Ford Ka) para um filme com locações em Los Angeles e repleto de atores americanos, o filme não padece do amadorismo das produções semelhantes. Graças à criatividade e aos contatos de Halder. Uma das saída foi filmar algumas cenas externas em Los Angeles e as cenas de estúdio no Ceará. Em uma delas, Halder usou o Hospital Monte Clínico, que pertence a um aluno de sua escola de tae-kwon-do. As Ferraris e Porsches do filme vieram da revendedora de automóveis do seu cunhado. Nem para conseguir os atores houve muita dificuldade. Pediu ajuda a amigos, também dublês, que o ajudaram a convencer atores com alguma fama. Chegou a conversar com Jennifer Love Hewitt, atriz do primeiro escalão de Hollywood. "Ela estava procurando um roteiro com artes marciais para um papel feminino. Chegamos a conversar, mas como eu poderia tê-la no filme com meu orçamento?" Em seguida ela fez O Terno de Dois Bilhões de Dólares, com o astro chinês Jackie Chan. O papel principal acabou ficando com a sarada Alex Van Hagen, especialista em lutas. Em Sunland, ela faz o papel de uma campeã de artes marciais que tenta recomeçar a vida em Fortaleza após um casamento mal-sucedido com Daniel (Jay Richardson). Sua inimiga é Laura Putney, atriz que já participou de vários episódios da série JAG. O argumento lembra Kill Bill, o que tem rendido ao diretor o apelido de ´Tarantino do Ceará´. A seguir, o diretor fala sobre Sunland. Como surgiu a idéia de fazer o filme? Quis fazer um filme que juntasse Hollywood e Fortaleza. Você tem ambições de lançá-lo no exterior? Sim. Em fevereiro fui ao American Film Market, em Los Angeles, e deixei o filme para apreciação de algumas empresas interessadas. Em quem você se inspira? Gosto da sensibilidade do Walter Salles, da agilidade do Tsui Hark, do refinamento e dos enquadramentos do Michael Haussman, da ousadia do Quentin Tarantino. Conhece o diretor Ed Wood? Apenas já ouvi falar. Você se considera um diretor de filmes ´trash´? O currículo da equipe técnica e do elenco deixa claro que essas pessoas não associariam seus nomes a algo sem qualidade. Meu primeiro filme teve baixo orçamento, mas qualidade técnica para o exigente mercado internacional. O que as artes marciais têm a ver com o Ceará? As artes marciais têm a ver com o Brasil. Nós temos uma reputação no exterior de exímios lutadores. Nossos lutadores levam 100 mil pessoas aos estádios no Japão. Que nota você daria para o próprio filme? Se levar em consideração as limitações de tempo para ensaio, uma câmera só, pouco dinheiro e a complexidade do roteiro e suas mais de 40 locações, eu daria 10. Mas o espectador não está interessado nisso. Por isso dou nota 8.

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