Jean-Paul Pelissier/Reuters
Jean-Paul Pelissier/Reuters

'O streaming prova que a arte sempre encontra novas formas de se expressar', diz Cristopher Doyle

Lendário diretor de fotografia fala da parceria com o diretor chinês Wong Kar Wai, que é tema de mostra no Mubi

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

19 de março de 2021 | 05h00

Responsável por imagens que revolucionaram a engenharia de enquadramentos no cinema dos anos 1990 e 2000, sobretudo na maneira de depurar cores, o australiano Christopher Doyle, um dos diretores de fotografia mais admirados pela seara autoral do audiovisual, revê hoje as cenas de Amor À Flor Da Pele (2000) menos interessado nos movimentos de câmera. Alguns deles foram responsáveis por renovar gramáticas da arte de filmar. Mas o que mais interessa a ele são as pessoas ali retratadas, vivências de set. 

A partir desta sexta-feira, 19, o drama romântico ambientado na Hong Kong de 1962, onde se ouve Nat King Cole a cada virada do envolvimento entre uma secretária (Maggie Cheung) e um jornalista (Tony Leung, prêmio de melhor ator em Cannes pelo papel), vai para o serviço de streaming Mubi. É o abre-alas da mostra Apaixonante – O Cinema de Wong Kar Wai, dedicada ao realizador chinês de quem Doyle foi fotógrafo-assinatura por anos a fio. A parceria deles parou em 2004, quando fizeram A Mão, um dos segmentos do longa em episódios Eros, regado a Caetano Veloso e dirigido ainda por Michelangelo Antonioni (1912-2007) e Steven Soderbergh. No dia 12 de abril, o trecho de Kar Wai e Doyle, sobre a relação entre uma garota de programa de luxo e seu alfaiate, entra no www.mubi.com.

“Se você pegar o roteiro das coisas que a gente filmou, verá que Wong Kar Wai sempre jogava fora parte da estrutura que tínhamos no começo. Fazia isso não por uma ideia de script livre, por alguma rebeldia, mas pela tentativa de descobrir aquilo que os filmes tentavam nos dizer”, diz Doyle ao Estadão, em entrevista via Zoom de Hong Kong, onde prepara um novo projeto. “Quando há um esquema colaborativo na criação de um filme, como havia com Kar Wai e nossa equipe, os personagens vão além do que está escrito, pois o processo se torna um aprendizado coletivo.”

Aos 68 anos, Doyle deixou a Austrália ainda adolescente, para desbravar o mundo, e acabou parando na China, na década de 1970, onde fotografou cerca de 50 produções, a começar por Aquele Dia na Praia (1983), de Edward Yang (1947-2007). Ganhou 59 prêmios por seu rigor em apostar na liberdade de enquadrar sem obedecer cartilha alguma. Conquistou o troféu honorário Pierre Angénieux ExcelLens, em Cannes, em 2017, e o troféu Golden Osella, dado a ele pelo Festival de Veneza, em 1994, em tributo aos planos de Cinzas do Tempo. Esse será exibido no Mubi no próximo dia 26, em sua versão “redux”, repaginada por Kar Wai, em 2008. 

“Quando estou preparando um filme, preciso conhecer bem as locações, porque é necessário respeitar a ética da natureza. Não importa se eu filmo no Vietnã, no Brasil ou na Argentina, eu preciso conhecer o local com a compreensão de que a luz é um carinho, a luz é sensualidade, a luz é o poder. E a luz vem do espaço. Ela diz algo sobre aquele espaço e nos informa qual é a real história a ser contada. Não crio luz. Interpreto a luz que o espaço me dá”, diz Doyle, que trabalhou com realizadores cultuados como o chinês Zhang Yimou (em Herói), o indiano M. Night Shyamalan (em A Dama na Água), o chileno Alejandro Jodorowsky (em Poesia Sem Fim) e o americano Gus Van Sant, para quem fotografou Paranoid Park, ganhador do prêmio do 60.º Aniversário de Cannes, em 2007. “A gente sempre precisa se perguntar qual é a forma de dar a um personagem a luz que ele merece. Encontrando a resposta, a arte se faz.” 

Sem lançar longas desde 2013, quando exibiu O Grande Mestre na Berlinale, Kar Wai anda, há tempos, envolvido com o projeto de série chamado Blossoms, sobre um oportunista que se torna um milionário na Ásia dos anos 1990. Não se sabe se Doyle será o fotógrafo, uma vez que tudo que o realizador faz é gestado em segredo, a longuíssimos prazos. Por enquanto, o diretor se ocupa em projetar as versões restauradas de seus longas em cinemas e relançá-las em streamings. Filmes que renovaram esteticamente o melodrama, não apenas em termos plásticos, mas também no modo de retratar os desvarios do querer.

“O melodrama é uma representação do sexo por aquilo que é inaudito, interditado. Ele nasce de questões que não se resolvem. Entendo essa palavra, ‘melodrama’, como sendo a mistura de ‘drama’ e de ‘melodia’. Logo, a maneira de lidar com o gênero é encontrar ritmo. E Wong Kar Wai e eu encontramos isso com a ajuda da direção de arte, do figurino e com a percepção de que o prazer causa tensão. Filmamos essas histórias sem tese. Não se faz arte por meio de explicações, se faz arte buscando significados”, disse Doyle, que acaba de fotografar a série Ouverture of Something that Never Ended para a Gucci, em parceria com Gus Van Sant.

“Rever nossos filmes em plataformas digitais de streaming me prova que a arte dá sempre um jeito de encontrar novas formas de se expressar, sem eliminar o passado. Pollock fez coisas incríveis, mas sua arte não acabou com a pintura figurativa. O cinema não matou a literatura. Essa juventude que hoje faz conteúdo para o YouTube não nega os filmes que a gente fez e torna o audiovisual mais forte, porque eles estão tornando esta época uma era mais visual. A questão para o futuro é só saber como vamos partilhar emoções.” 

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