O Spielberg de Minas Gerais

Em Ribeirão das Neves, no interior de Minas Gerais, nunca se ouviu falar de ´Matrix Reloaded´. Por lá, um tal de ´Matriz, a Revolução´ faz muito mais sucesso que o blockbuster norte-americano. Não é à toa: como não há salas de cinemas na cidade, os grandes lançamentos de Hollywood quase não ultrapassam as fronteiras de Belo Horizonte, a capital do Estado, localizada há quase 100 Km do município. Alheia às estréias do cinema mundial, a população (cerca de 250 mil habitantes) se diverte com histórias marginais criadas pela produtora Parasan Filmes, uma espécie de Hollywood trash. Seu dono, Gemerson Sander da Silva, de 33 anos, é praticamente a personificação da produtora: dirige, atua, escreve o roteiro, edita e ainda constrói cenários com sucata. A mãe de Sander, Dona Eni, costura o figurino. A mulher dele, Márcia, trabalha como atriz quando consegue encontrar alguém para tomar conta de Patrick, o filho do casal, de quatro anos. Ela nasceu Márcia da Silva, mas os fãs a chamam de Márcia Maria, seu nome artístico. Pelas ruas de Ribeirão das Neves, ela e o marido são estrelas: os filmes da dupla são disputadíssimos nas locadoras da cidade. "Tem gente que me pergunta se eu quero vender, se posso emprestar... Por enquanto, não ganho um tostão. Dei as fitas para as locadoras e elas ficam com o lucro." Entre os campeões de locação está ´Macuã´, filme inspirado numa lenda da cidade. "Trata-se de um caso que meu pai contava quando eu era criança. Hoje, todo mundo tem medo do Macuã na rua", diverte-se Sander. O xodó do cineasta, no entanto, é ´Portentos´, uma versão B de ´Senhor dos Anéis´. "É o filme mais longo da produtora (1h20) e também o mais caro. Gastamos cerca de R$ 2 mil, diluídos ao longo de dois anos", diz Sander. Para quem ganha R$ 1.200 por mês como empregado de um laboratório de análises clínicas, o custo é bastante elevado. Mas Sander compensa o gasto de sua obra-prima com produções mais baratas. "Em outro filme, gastei apenas dois Gatorades", brinca. Há um mês, a Parasan fez outra economia, já que o ator Tiago Kennedy abandonou a produtora. Sander pagava dois vales-refeição por dia ao rapaz. "Ele era talentoso, poderia chegar até a três vales", avalia o cineasta. Se vale a pena investir tanto para obter retorno tão pequeno? Sander reponde com outra pergunta: "E sonho tem preço? Estou realizado. Em setembro a Secretaria de Cultura da cidade vai ceder um auditório para exibir minhas fitas."

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