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‘O Som ao Redor’ é lançado em DVD

Diálogo entre passado e presente para entender o Brasil atual

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2014 | 10h48

Um grande filme às vezes demora a fazer seu caminho. O Som ao Redor começou recusado por um festival (Brasília) e perdeu o prêmio principal para um concorrente apenas simpático em Gramado, até vencer a Première Brasil no Festival do Rio de 2012. Teve ótima carreira internacional em festivais alternativos e caiu na graça da imprensa cinematográfica. Foi incluído pelo New York Times entre os dez melhores filmes de 2012. Não sem motivos, críticos (incluindo este que aqui escreve) o consideram o mais importante filme nacional dos últimos anos. Para quem não o viu, ou deseja revê-lo, O Som ao Redor sai agora em edição bastante completa, com dois DVDs. A coleção de extras inclui a versão comentada do filme pelo próprio diretor, Kléber Mendonça Filho, além de making of e cenas não utilizadas na montagem final. Traz algumas entrevistas concedidas pelo cineasta e gravações de debates dos quais participou. Por fim, inclui curtas-metragens do cineasta, como Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio, entre outros. Vendo-se os curtas, acompanha-se o processo de depuração estética do diretor e seu caminho rumo ao longa de estreia na ficção.

O filme abre com uma exposição de fotos em preto e branco que evocam um Pernambuco rural e arcaico. Corta, de maneira abrupta, para o Recife contemporâneo, no qual algumas crianças brincam na área de lazer do condomínio. Esse corte anuncia algo que estará presente ao longo de toda a história – o confronto entre passado e presente. Ou melhor, de que maneira o passado não desaparece, como se pensa ingenuamente, mas se recicla em presente. O Som ao Redor é, em todas as medidas, um filme que toma o pulso da História e, portanto, da política.

Nesse quarteirão do Recife (filmado no bairro Setúbal), quase todos os imóveis pertencem ao patriarca, Francisco (W.J. Solha), senhor de engenho que requenta o capital rural no mercado imobiliário. Seu neto, João (Gustavo Jahn), ajuda a vender e a alugar os apartamentos, embora deteste o trabalho. Ele começa a namorar Sofia (Irma Brown) e o romance dos dois engata como linha afetiva a costurar a trama. Outros personagens se apresentam: Bia (Maeve Jinkings) é a dona de casa estressada que obriga os filhos a aprender mandarim e fuma maconha para conseguir dormir à noite. Anco é filho de Francisco e mora numa das últimas casas da região, como outras no Recife (e em todas as metrópoles do País), devastada pela especulação imobiliária.

Em poucas palavras: O Som ao Redor cria, nesses primeiros movimentos, um microcosmo da sociedade brasileira, no qual a elite econômica (seu Francisco e parentes) convive com a classe média (Bia e outros) e, ambas, com os “serviçais” – empregadas domésticas, porteiros, vigias noturnos, lavadores de carros, entregadores de água, etc. As relações de classe insinuam-se e mesclam-se, num tom de clara sutileza. A elite trata seus empregados de maneira bonachona, paternal, mas, apenas com uma entonação de voz, ou um olhar, repõe a distância intransponível que existe entre eles. Menos segura de si, a classe média mostra-se mais brutal e estabelece as diferenças no grito, como faz Bia com sua empregada. Nesse delicado mecanismo de relojoaria cinematográfica, vemos em funcionamento o tempestuoso relacionamento de classes à brasileira. O filme é dividido em capítulos. Este primeiro, apresentação dos personagens, tem por título Cães de Guarda.

No segundo, Guardas Noturnos, vemos a ascensão de outras figuras que chegam ao pedaço. São chefiadas por um certo Clodoaldo (Irandhir Santos), melífluo agente de segurança que oferece seus serviços para garantir a tranquilidade do bairro. A composição de Irandhir é brilhante. Clodoaldo é gentil e mesmo servil; na contraluz de suas palavras, sente-se a ameaça, como um ruído de fundo. Melhor comprar a “segurança” e não ter dores de cabeça. Seu encontro com o patriarca é de antologia. Francisco fala direto, como convém a um senhor de engenho acostumado a mandar. O outro responde nas entrelinhas.

De qualquer forma, o quarteirão passa a conviver com Clodoaldo e sua equipe, instalados sob uma tenda em uma das esquinas do bairro. Eles tudo veem e tudo controlam. A passagem para o terceiro capítulo, chamado Guarda Costas, será mera decorrência da lógica da história, com uma surpresa embutida no enredo e que só se desvenda nos últimos minutos.

O fato de a trama se fechar como um mecanismo de precisão não esconde sua vocação fragmentária. As linhas de ação se desenvolvem em paralelo e algumas têm perfis notadamente anticlimáticos, como a da dona de casa Bia, às voltas com o marido nulo, seus filhos, a carência sexual, os latidos de cão que não a deixam dormir. Assim também é o romance intermitente entre João e Sofia, e o cotidiano dos seguranças. Há pequenas pérolas, aparentemente descosidas, como a reunião de condomínio convocada para despedir o porteiro, e que traça, em pinceladas rápidas, a mentalidade de classe média expondo sua relação utilitária com os empregados.

O Som ao Redor possui um andamento tranquilo, dando-se tempo necessário para que todas essas tramas sejam desenvolvidas. Necessita desse ritmo alongado para incorporar elementos em seu projeto ambicioso. Por exemplo, para mostrar como a estrutura senhorial permanece no presente, leva os namorados João e Sofia para um passeio ao engenho do avô, em Bonito. Há um momento em que o casal visita a senzala, situada abaixo da casa grande, e ouve os passos de Francisco, caminhando acima. Tudo está nessa cena. Inclusive a referência ao grande clássico da sociologia brasileira, Casa Grande & Senzala, do pernambucano Gilberto Freyre. Também na fazenda, quando Sofia, João e Francisco tomam banho de cachoeira, por um instante as águas se toldam de vermelho. Há um passado de sangue na estrutura de classes da sociedade brasileira.

Em meio à cinematografia atual de ficção, composta em boa parte de comédias descartáveis ou obras narcisistas que interessam ao diretor e talvez a seus amigos, O Som ao Redor realiza essa tarefa única e indispensável ao cinema brasileiro: traz de volta à cena temas como o peso da História, as contradições sociais e a luta de classes. Não é pouca coisa. 

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