'O Sol', um retrato de Hiroito no final da Segunda Guerra

Depois de Hitler (em 'Moloch') e Lenin (em 'Taurus'), Hiroito é o 3º 'retrato do poder' de Aleksandr Sokúrov

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

08 de abril de 2004 | 17h13

O Sol é o terceiro dos "retratos do poder" de Aleksandr Sokúrov. Depois de Hitler (em Moloch) e Lenin (em Taurus), chega a vez de Hiroito, flagrado no momento-chave de sua vida, a rendição para os americanos no final da Segunda Guerra. O que acontece quando uma divindade se deixa vencer por vulgares mortais? É mais ou menos essa idéia que impulsiona o filme como retrato psicológico. Dizemos aqui "retrato ou perfil psicológico", mas convém não confundir com a psicologia vulgar do cinema comercial - aquela que coloca o personagem em um estreito determinismo, como se o ser humano, que deseja mimetizar, fosse uma soma simples das relações de causa e efeito. A psicologia de Sokúrov, com a qual busca desvendar essas figuras de poder, pode até ser contestada; mas nada tem de ingênua ou mecânica.  Assista ao trailer de 'O Sol'  O que se coloca como mistério no caso de Hiroito é encontrar a figura humana por trás do comportamento hierático de alguém cujo corpo é considerado encarnação do sol; uma divindade, em suma. Em nome da qual, milhões de pessoas se dispuseram a morrer. E tamanho era o fascínio exercido por essa figura de poder que muitos foram os súditos que simplesmente não acreditaram que o Japão havia sido derrotado na guerra. Simplesmente porque isso seria impossível. O imperador era esse corpo místico que representava a nação inviolável. E, no entanto... no entanto, lá estava o general MacArthur, em território japonês, para impor uma rendição incondicional ao eleito dos deuses. Trata-se, portanto, de uma desconstrução do "corpo místico" que se mostra frágil até mesmo diante dos áulicos e camareiros. Há um diálogo interessante entre o imperador e seu ajudante. Hiroito lhe diz que seu corpo é humano, que seu organismo é como o deles, como de qualquer pessoa. O súdito responde que não sabe nada disso. Não pode admitir que o corpo do soberano seja humano, frágil, mortal, sujeito a doenças e falhas, porque, nesse caso, o seu sistema de valores desmoronaria. E, de qualquer forma, do que se trata mesmo é de uma demolição de valores, uma subversão de crenças e, talvez, a abertura para outras possibilidades.  As relações sinuosas dos outros com Hiroito e do imperador consigo mesmo são pintadas na linguagem típica de Sokúrov - luz crepuscular e dessaturada, minúcia de gestos, e um inquietante ruído de fundo, uma música que quase não se discerne, até que, aos poucos, vai entrando em primeiro plano. Se há uma psicologia interior àquilo que é narrado, há também a disposição de mexer com o psiquismo do espectador. Levá-lo a partilhar do ritual de bunker, onde Hiroito vive protegido, com suas tarefas minuciosamente descritas, das reuniões com ministros, ao tempo que deve dedicar ao seu hobby, a biologia marinha. "Tempo para meditar e escrever", prescreve um desses assessores. Uma rotina preservada, como se lá fora bombas não caíssem, a miséria não tivesse atingido boa parte do povo, como se Hiroshima e Nagasaki não tivessem sido alvos nucleares; como se a guerra não tivesse sido perdida há muito tempo. Esse é um traço comum que Sokúrov observa em suas figuras do totalitarismo. De Hitler a Lenin, e agora em Hiroito, ele percebe esse isolamento, esse distanciamento do real, talvez um traço comum de qualquer poder, mesmo democrático, mas que se exacerba nas figuras da autoridade incontrastável. Por isso, Hitler é mostrado em veraneio nas montanhas, em doce familiaridade com seus íntimos, e Lenin é visto em seu declínio físico, nessa espécie particular do isolamento que é causada pela doença.  Hiroito talvez fosse o caso mais exemplar, porque nenhum dos outros - Hitler ou Lenin - nascera com a distinção (que pode também ser estigma) da divindade. Apenas Hiroito. E, no entanto, ele parece, sempre no retrato de Sokúrov, o mais frágil dos três. Mas o diretor russo é inteligente demais para compor retrato simplista de uma figura como Hiroito. Se por um lado ele é ingênuo e até tolo em seus hobbies e escritos, por outro é implacável quando se trata de questões de Estado. Por exemplo, quando lhe dizem que o sofrimento do povo é intolerável, considera que rendições não fazem parte da tradição japonesa. O povo que resista. E que se dane.  Essa "crueldade" dos poderosos, essa inconsciência com o sofrimento alheio é uma nota sempre presente nesses perfis. Hiroito não é uma exceção. Outro tipo de diretor talvez insistisse mais nessa esquizofrenia do poder. Sokúrov busca a linha mais sutil. É com certo espanto, numa das suas raras saídas do bunker, que Hiroito observa, da janela do carro, pessoas famintas, andrajosas, disputando restos de comida. De um lado há o palácio imperial, e o bunker que preserva a segurança do imperador; de outro, o país em cacos. Dessa percepção rápida nasce o caminho para a rendição. Que, para Hiroito, é também redenção. A aura divina pode se transformar em fardo. E um corpo humano, mesmo falível e mortal, às vezes parece melhor que um rígido corpo místico.  O Sol (The Sun, Rússia/2005, 110 min.) - Drama. Direção. Aleksandr Sokúrov. Livre. Cotação: Bom.

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