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'O Silêncio do Céu' mescla thriller e suspense sem deixar nada bem claro

Longa flagra casal corroído pela dor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2016 | 06h00

Para o público que daqui a dois meses vai assistir a Elle, o impacto inicial do deslumbrante thriller do holandês Paul Verhoeven poderá ser afetado pelo simples fato de que o espectador poderá dizer - “Já vi isso.” E viu em O Silêncio do Céu, longa do brasileiro Marco Dutra que estreia nesta quinta, 22, em 20 salas de quatro capitais - São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre. Ambos os filmes começam com cenas de estupro. Isabelle Huppert, em Elle; Carolina Dieckmann, em O Silêncio do Céu. As imagens fundadoras são as mesmas, mas logo cada filme toma seu rumo, e eles são bem diferentes.

 

No longa brasileiro, filmado no Uruguai e falado em espanhol (portunhol, por Carolina), o marido chega, percebe que algo se passa dentro da casa. Espia pela janela e flagra o estupro. Em vez de reagir - partir para o grito, brigar -, Leonardo Sbaraglia fica congelado. Paralisa. Como?

Covarde - o leitor que acompanha o texto já deve ter pensado, rotulado. Mas logo vem, não exatamente de forma didática, a justificativa. O marido sofre de fobias. E assim se cria o estranhamento de O Silêncio do Céu. Os estupradores fogem, a mulher recompõe-se. Cala, como se nada tivesse ocorrido. O marido também não diz nada, cala-se. Tentam levar a vida adiante, mas o silêncio é opressivo. O não dito interpõe-se na relação. E só então o marido começa a reagir. Vai atrás dos estupradores, e irrompe na família deles. Em Gramado, onde o filme recebeu o prêmio especial do júri e da crítica, mais um Kikito de desenho de som, o diretor contou a gênese de O Silêncio do Céu. Foi abordado pelo produtor Rodrigo Teixeira, que lhe propôs o filme escrito pela cineasta argentina Lucia Puenzo com seu marido, Sergio Bizzio.

É uma adaptação de Era el Cielo, livro do próprio Bizzio. Escreveram o roteiro, mas a produção não foi adiante. Entrou a RT, e Rodrigo achou que o projeto tinha a cara de Marco Dutra, diretor de Trabalhar Cansa e Quando Eu Era Vivo. Dutra chamou um amigo, o roteirista Caetano Gotardo, para mudar algumas coisas, e adequar O Silêncio do Céu à sua visão de cinema, e de mundo. A versão de Bizzio e Lucia tinha um final redentor. Ele foi mais sombrio. Partiu para o trágico. Leonardo Sbaraglia, que faz o marido, diz que foi o que mais o atraiu. Tem toda razão - o filme é muito forte.

Aos 46 anos, o argentino Leonardo Sbaraglia já possui uma extensa trajetória como ator de cinema e TV. Tinha 16 ao estrear com La Noche de Los Lapices, de Hector Olivera. Fez depois, entre muitos filmes, Tango Feroz, Cavalos Selvagens, Plata Quemada. Há dois anos, Sbaraglia estava em Cannes mostrando Relatos Selvagens – faz o episódio dos motoristas que se disputam na estrada. Tinha um projeto de minissérie com o produtor Rodrigo Teixeira no Uruguai. Rodrigo aproveitou para lhe falar de O Silêncio do Céu. Sbaraglia interessou-se. Marco Dutra já seria o diretor. O ator pediu para conhecer seu trabalho. Gostou muito de Trabalhar Cansa, mais até de que Quando Eu Era Vivo. E embarcou no projeto.

Sbaraglia esteve em São Paulo para ajudar na divulgação de O Silêncio do Céu. Elogiou o diretor – “Marco ouve a gente, mas é muito persuasivo. Você nem percebe como ele o convence a fazer as coisas como quer” – e a coestrela Carolina Dieckmann.” Realmente, não a conhecia. Além de linda, é muito talentosa. É uma pena que exista a barreira da língua. Poderia haver uma integração muito maior de nossos mercados de cinema e Carol seria uma grande estrela em toda América Latina.” Em Gramado, o diretor já havia falado de suas influências. Reviu filmes como Sob o Domínio do Medo, de Sam Peckinpah, e Irreversível, de Gaspar Noë, que têm famosas cenas de estupro. Falou também sobre certas mudanças que fez no roteiro de Lucia Puenzo e Sérgio Bizzio, baseado no livro dele, Era el Cielo. O roteiro, explicou Dutra, tinha um fim redentor. Ao chamar Marcelo Gotardo para reescrever a personagem feminina na embocadura de Carolina – ela não era brasileira nem trabalhava com moda –, os dois se apropriaram do original e puxaram o desfecho para o trágico.

“O filme tem muita essa coisa de gênero. Thriller, suspense. As coisas não ficam muito claras. O silêncio do casal contamina tudo. Existe uma espécie de ocultamento, as pessoas nunca dizem tudo e o filme também não mostra muita coisa. Aquela cena do casal na cama é emblemática. Eu estendo a mão, mas não fica claro se a toco. Nem se Carol percebe a intenção. Trabalhar o silêncio é muito rico para um ator.” E Sbaraglia contou como O Silêncio do Céu dialoga com outro filme que fez – e vai estrear em seguida no Brasil. O Fim do Túnel, de Rodrigo Grande, foi outro megassucesso na Argentina. Sbaraglia faz um paralítico que se envolve com uma mulher e, de repente, está enrolado num plano de assalto a banco. A femme fatale está ali para explorar sua vulnerabilidade, ou não? “Os dois filmes exigiram muito de mim, fisicamente, mas o emocional é sempre o mais forte. Gosto dessas coisas dúbias, que não são exatamente o que parecem.”

Quando leu o roteiro, seu primeiro pensamento sobre o personagem que deveria interpretar foi ‘Cabrón’. Queria que ele reagisse, mas quando percebeu que o tempo seria mais lento e que a luta do personagem seria consigo mesmo – as fobias que paralisam o marido, que sugestivamente é roteirista de cinema –, aí, sim, teve vontade de fazer o filme. “Saímos do óbvio, as coisas ficam mais complexas. Não trabalhamos somente no registro do real, mas da própria ficção, operando os códigos que eu, como personagem, utilizo em meu trabalho.” Nos intervalos de filmagem, no set, Sbaraglia e Carolina descobriram afinidade – Tom Jobim. Ela lhe ensinou os versos de Corcovado, que cantavam junto. Marco Dutra incorporou o canto da dupla, mas não é uma coisa conclusiva, catártica. “É mais a despedida de uma intimidade que ficou para trás”, reflete o ator.

Ele tem emendado filme após filme. Tem uns cinco filmes para estrear, incluindo Sangue na Boca, de Hernan Belón, em que faz um pugilista de periferia. “Eram todos papéis tão bons que não consegui dizer não, mas estou precisando dar uma parada. Preciso viver mais comigo, reencontrar meu equilíbrio. É muito fácil para um ator viver só de máscaras, mas quando isso ocorre, ele perde a sinceridade interior.” Sbaraglia acha importante a parceria com o produtor Rodrigo Teixeira. “Ele já se firmou no circuito independente dos EUA com filmes importantes, tem um pé na Europa. E quem, senão Rodrigo, para fazer um filme híbrido como O Silêncio do Céu? História argentina, diretor brasileiro, filmagem no Uruguai, elenco internacional. Precisamos dessas ousadias para transpor fronteiras e criar um cinema bem continental.”

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