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'O Sétimo Selo', de Ingmar Bergman, chega aos cinemas em cópia restaurada

Comemoram-se em julho os 89 anos de nascimento do diretor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2015 | 09h15

Em 1956, o jovem Ingmar Bergman - na época, com 38 anos - já possuía uma sólida reputação (e admiradores) por filmes como Mônica e o Desejo, Noites de Circo e Sorrisos de Uma Noite de Verão. Mas o melhor ainda estava por vir, e começou justamente naquele ano, com O Sétimo Selo. Seguiram-se Morangos Silvestres e todas as obras-primas dos anos 1960, 70, 80... Bergman morreu em 2007, com quase 90 anos, consagrado como um dos grandes do cinema. Comemoram-se neste mês de julho os 89 anos de nascimento do diretor (dia 14) e oito anos de sua morte (dia 30). Por conta disso, a Zeta Filmes e a FJ Cines escolheram Bergman, e O Sétimo Selo, para lançar um projeto que vaio fazer a alegria dos cinéfilos pelos próximos meses.

As duas empresas estão lançando cópias restauradas e digitalizadas de sete filmes que fazem parte do imaginário do cinéfilo. E, depois de O Sétimo Selo, que reestreia no Cinesesc, virão - A Doce Vida, de Federico Fellini, em agosto; o Nosferatu de Werner Herzog, em setembro; Mamma Roma, de Pier-Paolo Pasolini, em outubro; Morangos Silvestres, outro de Ingmar Bergman, em novembro; Fitzcarraldo, mais um de Werner Herzog, em dezembro; e em janeiro, fechando a série, Oito e Meio, a obra-prima de Federico Fellini. Todos em cópias novíssimas, com imagens e som restaurados e impecáveis. Você já pode avaliar a qualidade da restauração assistindo a O Sétimo Selo. Há quase 60 anos, quando o filme surgiu, desconcertou muita gente e até provocou polêmica. Para quem toma o cinema, ao pé da letra, como uma arte realista a alegoria medieval de Bergman, em que um cavaleiro enfrenta a Morte num jogo de xadrez, só pode ser motivo de espanto. Mas, se você entra no clima, e é difícil não entrar - tal a beleza e intensidade da obra -, será fisgado por seu triplo significado. Estético, humano e metafísico.

Bergman voltaria ao universo medieval, três anos mais tarde, com A Fonte da Donzela, mas O Sétimo Selo é melhor. Algo se passa desde as primeiras cenas. O cavaleiro e seu escudeiro frente ao mar, as ondas plácidas, o tabuleiro armado para o jogo de xadrez e a presença hierática da morte. O cavaleiro é interpretado por Max Von Sydow, o escudeiro é Gunnar Bjornstrand e a morte é Bengt Ekerot. O cavaleiro volta depois de dez anos nas Cruzadas. Está cheio de dúvidas e desafia a morte para jogar em busca, quem sabe, de alguma revelação. No caminho - o formato é de road movie existencial, como será, mais tarde, Morangos Silvestres -, encontram, o escudeiro e ele, uma procissão de penitentes, uma taberna em que a humanidade sem rumo tenta satisfazer sua fome de comida e de sexo, e uma família de artistas mambembes. De novo como em Morangos, Bibi Andersson ilumina o filme com seu sorriso luminoso. No limite, o cavaleiro vai trapacear para salvar a família da morte.

O mais importante em O Sétimo Selo, o que faz a aura do filme, é que Bergman se vale do auto medieval para abordar questões contemporâneas. O cavaleiro é um homem moderno e suas indagações sobre a existência de Deus e questões eróticas e psicológicas não diferem em nada da tensão de outros filmes que Bergman inscreveu na atualidade, embora no caso dele talvez se deva dizer 'intemporalidade'. Não há um tempo preciso na maioria dos filmes de Bergman, mas as questões são sempre pertinentes e universais. O curioso é que O Sétimo Selo teve uma cria, anos depois, e foi Macário, do mexicano Roberto Gavaldón, com Ignazio Lopes Tarso como o homem que fala com a morte e, assim, descobre quem vai viver ou morrer. Ele adquire fama numa sociedade como a mexicana, que celebra o culto dos mortos, mas quando mais precisa da clemência da morte, no leito de um moribundo, ela lhe volta as costas. Não tendo envelhecido, esses filmes pertencem a um tempo marcado por indagações profundas.

 

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