"O Senhor dos Anéis" leva a magia do livro às telas

Fãs de John Ronald Reuen Tolkien, alegrem-se: A Sociedade do Anel, filme com estréia prevista para 1.º de janeiro de 2002 e o primeiro da trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis, adaptada a partir da ficção do escritor e filólogo britânico, é um espetáculo para os olhos, uma eventura épica e uma adaptação fiel que, durante três horas, leva à tela o espírito de O Senhor dos Anéis, o livro, por obra e graça do diretor neo-zelandês Peter Jackson. O filme foi exibido em São Paulo, nesta sexta-feira, em sessão especial para a imprensa.Em uma entrevista concedida à rádio BBC em 1971, dois anos antes de sua morte, Tolkien havia negado que a Terra-Média, o mundo mágico em que se passam suas histórias, fosse um outro planeta, ou uma outra dimensão. A Terra-Média é a nossa Terra, disse, mas apenas em uma ?dimensão ampliada da imaginação?. E é exatamente a essa ?dimensão ampliada? que o filme transporta a audiência.A história de O Senhor dos Anéis, tanto nos livros quanto nos filmes, acompanha a peregrinação de Frodo, um hobbit - uma raça de criaturas de aparência humana, mas de baixa estatura, pés enormes e comportamento um tanto quanto infantil - encarregado de levar o Um Anel, uma arma de poder incalculável e que tem o dom de corromper quem a usa, até a Montanha da Perdição, um vulcão localizado em Mordor, capital do Império do Mal e o único lugar onde o metal do Anel pode ser destruído. Este primeiro filme, A Sociedade do Anel, toma para si tanto o título quanto os eventos narrados no primeiro volume da trilogia de Tolkien, que leva Frodo do Condado dos Hobbits às fronteiras de Mordor. Em sua jornada, o protagonista é acompanhado por, ou se encontra com, cavaleiros galantes, feiticeiros, princesas virginais, demônios - um elenco completo de conto de fadas.Os riscos apresentados pelo projeto são óbvios: transformar os hobbits em algo como os Smurfs ou outros ?duendes fofinhos? de desenho animado, reduzir o enredo à sua dimensão infantil (no mau sentido), ou cair no extremo oposto - fazer do filme uma ?releitura? cínica, como Paul Verhoeven fez com Tropas Estelares, baseado no romance de Robert Heinlein. Mas, felizmente, não há edulcorantes baratos, nem tampouco cinismo, nesta película de O Senhor dos Anéis. Há momentos para rir, chorar ou maravilhar-se, todos construídos com competência e honestidade. Há quanto tempo não se vê um personagem de filme de aventura manifestar tristeza - não fúria assassina ou fria indiferença, mas simples tristeza - ante a morte de um amigo?Efeitos e atores - A Terra-Média criada para o filme praticamente só existe, é claro, dentro de um cenário contínuo de computação gráfica, mas Jackson (do subestimado Os Espíritos, com Michael J. Fox) consegue fazer com que seus efeitos especiais não sufoquem a narrativa ou os atores; George Lucas deveria tê-lo convidado para dirgir seus episódios I, II e III. E, falando em atores, é preciso dar um especial destaque a Ian McKellen, que no papel do feiticeiro Gandalf, o Cinzento, rouba praticamente dois terços do filme. McKellen faz do personagem, que tem toda a aparência de um estereótipo de conto de fadas - um senhor idoso, de longas barbas brancas e chapéu pontudo - uma figura carismática, tridimensional; se algum ator já teve grandes chances de ganhar um Oscar por um filme de fantasia, este é McKellen e esta, a oportunidade. Mas também são carismáticos e tridimensionais os hobbits levados à tela por Elijah Wood (Frodo), Sean Astin (Samwise), Billy Boyd (Pippin), Dominic Monaghan (Merry) e, claro, Ian Holm (Bilbo). Esses hobbits não são caricaturas, alienígenas ou duendes; são pessoas - diferentes, mas pessoas. Fãs de filmes e seriados de aventura podem se divertir tentando encontrar o veterano John Rhys-Davies, do seriado Sliders e dos filmes de Indiana Jones, soterrado pela maquiagem do anão Gimli. E o último Grande Cavalheiro do terror, Christopher Lee, não faz feio em seu duelo com McKellen: Lee está, aterrorizante como sempre, dando vida ao feiticeirro corrupto Saruman.A Sociedade do Anel é um filme que soube evitar todas as armadilhas da empreitada a que se propôs, e tirar força das principais qualidades do livro em que se baseia. É um belo conto de fantasia sobre lealdade, amizade, corrupção e redenção, os mesmos temas caros ao livro de Tolkien. Talvez os fãs que conhecem a trilogia de cor possam encontrar discrepâncias de nomes ou eventos, mas não importa. O espírito de O Senhor dos Anéis brilha na tela.

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