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'O Senhor do Labirinto' segue objeto de pendência na Justiça

Filme foi remontado e com a maquiagem corrigida digitalmente

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 18h54

Nada relativo a Arthur Bispo do Rosário consegue ser fácil. Sua arte e sua vida, sua loucura estimulam a criatividade, mas há que ingressar num universo labiríntico e perturbador. Um filme sobre ele não poderia ser fácil. Terminou saindo bem complicado. Passaram-se quatro anos desde que O Senhor do Labirinto ganhou o prêmio do público no Festival do Rio de 2010. Logo depois do festival, Gisella de Mello entrou com uma ação na 51.ª Vara Cível do Rio contra a Tibet Filmes e o diretor Geraldo Motta. Ao Estado, na época, explicou que resolveu brigar na Justiça pelo crédito de codireção - e por uma indenização por danos materiais e morais - “porque fui humilhada demais”. Passado todo esse tempo, a Justiça ainda não decidiu, mas O Senhor do Labirinto saiu do limbo e estreou anteontem na cidade. O crédito continua o mesmo do Festival do Rio. Direção de Geraldo Motta, codireção de Gisella de Mello.

Ele diz que, desde o início, o contrato de Gisella foi para codirigir. No set, todas as decisões de autoria foram dele. Ela contesta. Mas a última coisa que Motta quer nesse momento é que a questão jurídica se superponha ao filme que fez - que fizeram, porque não minimiza o aporte de Gisella - com tanto empenho. Em 2010, falava-se em Flávio Bauraqui e Irandhyr Santos, protagonistas do filme, como prováveis vencedores do prêmio de interpretação no Rio. Nos bastidores, o comentário era de que as falhas na maquiagem não apenas tiraram o prêmio dos atores como derrubaram o próprio filme. Nos últimos quatro anos, Geraldo Motta não ficou parado. Remontou O Senhor do Labirinto - cortando cenas longas e eliminando figuras cujos desempenhos lhe pareciam insatisfatório - e ainda conseguiu amenizar os problemas de maquiagem.

 

Como? Graças a um processo chamado de rotoscopia, que permite retrabalhar digitalmente a imagem do filme, frame a frame. Pode não ter ficado 100%, mas melhorou muito. E Motta defende seu ator - “Não há maquiagem que derrube o Flávio (Bauraqui).” Trata-se de um personagem bem pouco convencional. O sergipano Arthur Bispo do Rosário passou boa parte da vida internado na colônia Juliano Moreira, no Rio. Seus mantos e bordados são consideradas grandes obras de arte e já representaram o Brasil em eventos internacionais. Dentro de seu mundo místico e imaginário, o Bispo acreditava ser Jesus. E era restritivo ao selecionar os que podiam adentrar em suas ‘terras’. O eleito é o enfermeiro/carcereiro interpretado por Irandhyr Santos, que há quatro anos iniciava a trajetória que faz dele, hoje, o maior ator de sua geração.

Os críticos reclamam da narrativa em off que introduz o Bispo. Acusam o filme de didatismo. É meia-verdade. Não é preciso evocar a doutora Nize da Silveira e seu Museu do Inconsciente para tocar na essência de O Senhor do Labirinto. O filme discute os limites entre (in)sanidade e arte, a partir do caso exemplar do Bispo. Era gênio ou era louco? Era gênio e era louco? Bispo do Rosário, como Van Gogh, foi outro suicidado da sociedade. Irandhyr, o carcereiro, percebe a genialidade e o sublime da arte que o Bispo produz na colônia, que é a sua prisão, o seu labirinto. Numa cena deslumbrante, a Pietà, ele acolhe em seus braços o agonizante Bispo (Bauraqui). O envelhecimento dos dois, por meio de uma maquiagem falsa, prejudicava o impacto. Talvez ainda prejudique, mas não a ponto de invalidar o filme. Essa viagem na mente torturada do artista possui densidades e sutilezas pelas quais o cinéfilo só terá a agradecer.

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