O senhor das bilheterias

Maior, melhor, mais bonito e empolgante que o primeiro filme da trilogia de O Senhor dos Anéis, As Duas Torres consegue o que se esperava. E permite prever que a parte final do filme baseado no romance de J.R.R.Tolkien, O Retorno do Rei será sensacional. Único defeito é ter de esperar um ano.O filme estréia no Brasil na próxima sexta-feira, dia 27, mas, por enquanto, há bastante com que se divertir, emocionar e vibrar. Desde que estreou nos Estados Unidos e no Canadá, o filme arrecadou US$ 26 milhões no primeiro dia de exibição, quebrando o recorde anterior - que até então pertencia a O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, com US$ 18 milhões.No novo episódio, as duas torres, Orthanc e Baradur, moradas de magos poderosos, começam unidas e sua sombra está começando a escurecer o mundo dos homens. A Sociedade do Anel está dividida, mas cada um dos sobreviventes tem uma tarefa e um destino para cumprir e alcançar o objetivo final, a destruição do Anel.O diretor Peter Jackson encarou brilhantemente o que tinha de fazer. Como os três filmes foram feitos conjuntamente, não há grandes novidades entre um e outro. Também não há mudanças radicais, mas não há razões para temer quedas bruscas. Muitos consideram As Duas Torres a melhor parte do livro, mas também a que potencialmente seria a mais difícil de adapatar para o cinema.Previsivelmente, o filme toma mais liberdade com o texto original que A Sociedade do Anel. A adaptação, contudo, quase sempre dá certo e nunca chega a ser absolutamente infiel ao espírito do livro. Isso é feito como bom cinema: uma porção de batalhas grandiosas, mas mantendo os personagens interessantes e definidos. O filme é dividido em duas partes: a primeira segue as histórias de cada um dos membros da Sociedade rompida, e a segunda trata sobretudo de Fundelmo e do ataque dos ents contra Isengard. No meio desse épico grandioso, seria fácil os personagens desaparecerem, abafados por tanto que surge. mas não é o caso.No filme, Jackson mescla três narrativas separadas de Tolkien. Na primeira, as façanhas de Aragorn, o arqueiro elfo Legolas, o anão Gimli e os hobbits Merry e Pippin; na segunda, a viagem de Frodo e Sam com Gollum, aquele monstrinho que chama o Anel de meu precioso. Enquanto isso, na outra parte desse universo fantástico, o cavaleiro Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e o anão Gimli (John Rhys-Davies) vão ajudar o povo de Rohan, lutando contra o maléfico Saruman (Christopher Lee). Também são ajudados nisso por Gandalf (Ian McKellen), que volta dos mortos. A novidade nele é que também tem aquelas trancinhas longas de cabelo branco, como Saruman.Pode-se criticar talvez a brevidade das cenas individuais, já que Jackson é tomado o tempo todo pelo impulso das cenas grandiosas, mas é um detalhe. Criticável sem dúvida é a pobreza dos Ents, uns seres semelhantes a árvores ambulantes, mas cuja realização contrasta com os bons momentos de computação gráfica.As Duas Torres é baseado em oposições, dualidades, relações entre grande e pequeno. Os fatos ultrapassam todo mundo, o mundo inteiro se desequilibra e o Destino é que manda. Seguimos Grima com Theoden, daí com Saruman; vemos Gimli e Legolas se tornarem amigos; acima de tudo, Frodo e Gollum, este uma dualidade em si. Ele é constantemente torturado por suas necessidades, desejos e pela esquizofrenia. É um dos trunfos de As Duas Torres, o que Jackson conseguiu ao mostrar a divisão entre as personalidades de Gollum/Smeagol, uma boa e outra malvada. Gollum é o personagem mais poderoso, humano e emocionante do filme. O trabalho de Andy Serkis (na voz de Gollum) e da empresa neo-zelandesa de efeitos especiais Weta é ótimo.O filme tem tudo a ver com o que Tolkien descreve. A ruína de um povo, batalhas que marcam uma era, o caos ameaçador, tudo tem seu lugar no filme. Há cenas de guerra e elas são o ponto alto. A batalha de Fundelmo, com ecos de Kurosawa, mostra como raramente aconteceu no cinema, o sofrimento, o medo e a confusão de um combate. E dá para incluir aí os filmes mais realistas do gênero.A sequência inicial é surpreendente e o resto do filme é levado com talento e eficiência. Com uma ênfase no Mal, a exemplo do livro, a história fica sombria, o que levará as pessoas que viram o primeiro filme como uma história meio infanto-juvenil, torcerem o nariz. Vale o confronto com Harry Potter, uma adaptação servil de um livro sem muita razão de ser tão fiel assim. As Duas Torres é um ponto de vista lúcido e capaz de um diretor sobre o livro de Tolkien. Como no primeiro filme, a montagem é uma arma para a realização, indo de uma história a outra, de um personagem a outro, sem quebras e sem perda de interesse. Cada ator parece estar mais vivendo do que representando seu papel.Claro, Viggo Mortensen é inexpressivo, Liv Tyler está abaixo do que já mostrou e Elijah Wood, o Frodo continua um especialista em mostrar seus olhos arregalados e espantados. A qualidade de interpretação atinge seus melhores níveis com os dois magos, o Gandalf de Ian McKellen e o Saruman de Christopher Lee. Este, embora apareça pouco, tem uma presença majestosa e maligna. McKellen é um prazer. Tem carisma e dá a seu personagem uma mescla de diversão e maldade que é uma criação genuína de ator competente.O mais evidente dos acertos de Jackson - além da direção de atores e de ser especialista em planos gerais e tomadas aéreas, a linguagem ideal para a grandiosidade do tema - é o fato dele nunca perder tempo querendo embasbacar o público, nem pretender ser um Tolkien em imagens.

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