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O Santo Graal de Orson Welles

Chegou a vez de Soberba ser encontrado, recuperado e submetido ao julgamento

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 03h00

Nas duas vezes em que conversei com Robert Wise (a primeira no palco 21 da 20th Century Fox, durante as filmagens de A Estrela, a segunda quando ele esteve no Brasil, na década de 1980), falamos relativamente pouco sobre West Side Story e não tocamos uma só palavra sobre A Noviça Rebelde, que só entre a geração posterior à minha virou objeto de culto.

Do cineasta, eu queria mesmo era saber o que ainda não sabia a respeito dos envolventes filmes de horror produzidos a dois tostões por Val Lewton, em que ele e outros se iniciaram no metiê, nos estúdios da RKO, da experiência que lhe abriu as portas para a notoriedade, Punhos de Campeão (The Set Up) e, por fim, de sua complicada relação com Orson Welles, por conta da desfiguração de Soberba (The Magnificent Ambersons), que Wise, principal montador do filme mas empregado da RKO, não teve como evitar, em 1942. 

Semana passada ressurgiu no noticiário de show biz internacional aquela velha quimera de que estaria no Brasil a única cópia de Soberba na versão original do autor, dada como desaparecida há 79 anos. “A cópia que enviei a Orson para ele assistir, comentar e fazer sugestões de cortes nunca foi devolvida ao estúdio”, disse-me Wise, a quem Welles delegara a guarda do filme ao vir para o Brasil filmar o malfadado É Tudo Verdade (It’s All True)

Segundo consta, Welles deixou a cópia na Cinédia, aos cuidados de Adhemar Gonzaga que, instado pela RKO, destruiu-a incontinente. Sua filha e herdeira, Alice Gonzaga, chegou a crer que ela pudesse estar na Cinédia, arquivada com outro título ou negligência similar, conforme li no segundo volume da biografia de Welles (Hello Americans), escrita por Simon Callow em 2005.

Cinco anos antes, David Kamp publicara na revista Vanity Fair o relato mais detalhado do que até hoje se conhece sobre o destino da versão canônica de Soberba. Em 11 de março de 1942, Wise despachou para o Rio, onde Welles se encontrava havia um mês, uma cópia sincronizada, com 132 minutos de duração. Antes mesmo de recebê-la, Welles, “impulsivamente”, nas palavras de Callow, ordenou ao montador que extraísse 22 minutos das cenas com os esforços de George Minafer (Tim Holt) para melar o relacionamento de Eugene Morgan (Joseph Cotten) e sua mãe, Isabel Amberson (Dolores Costello).

Cinco dias depois, essa mesma cópia foi exibida em preview na cidade de Pomona, no Condado de Los Angeles, para uma plateia basicamente formada de estudantes secundários, mais interessada em assistir ao outro filme da sessão dupla, Tudo Por um Beijo (The Fleet is In), musicalzinho de guerra com Dorothy Lamour e William Holden.

A moçada não se amarrou na tragédia dos Ambersons, se é que a entendeu direito, e descascou o filme nas cartelas distribuídas para colher a opinião dos espectadores. A cúpula da RKO entrou em parafuso e não só meteu a tesoura em várias cenas, como acrescentou ao filme um apócrifo final feliz, afinal derretendo a versão original para reutilização do nitrato de celulose, base das películas na época e bastante valorizado durante a guerra.

Na segunda preview, com menos 20 minutos de duração e acrescida do novo desfecho, Soberba tampouco tocou a plateia. A versão que chegou às salas exibidoras, em julho, com cenas adicionais dirigidas por Wise e Fred Fleck, tinha os 88 minutos até hoje vistos na TV e em DVD. 

Que fim levou o restante do material filmado? Foi jogado na baía de Santa Mônica, em Los Angeles, depois que a produtora Desilu, do casal Desi Arnaz e Lucille Ball, comprou a RKO, em 1957. 

Perder a sua versão de Soberba foi, para Welles, um revés tão traumático quanto o sumiço do trenó para Charles Foster Kane, o seu Rosebud cinematográfico. Nem as desditas de É Tudo Verdade o fizeram sofrer tanto. Duas décadas depois do ocorrido, ele ainda sonhava com a possibilidade de reconstituir o final do filme, com os elenco original. 

Surpreendi-me ao descobrir que, já na Revue du Cinéma, precursora dos Cahiers du Cinéma, a crítica francesa preferia Soberba a Cidadão Kane, ambos só exibidos em Paris depois da guerra. Welles era da mesma opinião, talvez porque só projetasse em sua mente o Soberba que roteirizou, produziu e dirigiu – e aqui parodio e homenageio os créditos do filme, singularmente narrados pelo próprio autor, com aquele vozeirão de estremecer catedral. 

Diversos grandes cineastas que fizeram a transição do silencioso para o sonoro tiveram filmes mutilados e perdidos. Murnau, Ford, Sternberg, Lubitsch, Stroheim (Ouro e Maldição) – nenhum destes escapou. Huston jamais reconheceu a versão de Glória de um Covarde picotada pela Metro; a adaptação que Kurosawa fez de O Idiota, de Dostoievski, chegou aos cinemas com a metade da metragem original. 

Entre perdidos, achados e, dentro do possível, restaurados, mais dois, além de É Tudo Verdade, também fizeram espuma: Napoleão (de Abel Gance) e Limite (de Mário Peixoto). Chegou a vez de Soberba ser encontrado, recuperado e submetido ao julgamento dos cinéfilos. 

Para este fim, o produtor Joshua Grossberg juntou-se ao TCM (Turner Classic Movies) para vir ainda este ano até nós para catar a cópia enviada ao Brasil em 1942 e transformar a aventura num documentário em torno desse autêntico Santo Graal cinematográfico, que há um quarto de século Grossberg procura obsessivamente. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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