'O Sal da Terra' acompanha a trajetória de Sebastião Salgado

Longa sobre o fotógrafo foi longamente aplaudido no Cine Ceará

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2014 | 03h00

FORTALEZA  - Apenas um filme dedicado a Sebastião Salgado poderia realizar a proeza de segurar o público no cinema após uma maratona que começou às 20h e foi terminar às 2h da madrugada. Foi o que aconteceu no Theatro José de Alencar, com a exibição, fora de concurso, de O Sal da Terra, de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado. O longa, com estreia prevista para dezembro, esmiúça, com emoção e inspiração, a carreira do nosso maior fotógrafo. No final da sessão, um público cansado, porém agradecido pelo que tinha visto, aplaudiu longamente. 

O filme, descrito por espectadores com palavras como “duro, porém de uma beleza incrível”, refaz a vida de Salgado, mineiro de Aimorés, através do seu trabalho. Mas a contempla em várias etapas. Da infância na fazenda aos estudos em São Paulo. Da saída do País durante a ditadura à formação em Economia no exterior. Do cargo no Banco Mundial à descoberta da sua grande vocação, o que mudaria a sua vida, a de sua família e as de tantas outras pessoas. 

Já instalado no campo da fotografia, o filme debruça-se sobre as diversas fases do percurso de Salgado, fazendo um arco que vai do fotógrafo social, preocupado com a miséria do mundo, ao apaixonado pelo trabalho humano e, por fim, pela natureza e pelo planeta Terra, esta nossa casa tão maltratada e ainda tão bela. Mas, no fundo, é o ser humano o centro do universo de Salgado. “As pessoas são o sal da Terra”, ele afirma, e daí vem o título do filme. 

Trabalhando em parceria com o filho de Sebastião Salgado, Wenders retoma seu melhor pulso de documentarista. Rigor, uso inteligente e moderado de uma trilha sonora estupenda, discernimento para sacar o que existe de essencial em trajetória tão brilhante quanto diversificada. O filme talvez levante algumas questões já com certa rodagem, porém ainda não resolvidas, como: o que significa a estetização da fome e quais as possibilidades de representação (no caso fotográfica) da miséria humana extrema. São temas éticos, que ficam à margem do documentário, mas podem muito bem serem debatidas pelo público inteligente que o vê. 

Crise na Espanha. Com Os Fenômenos, o espanhol Alfonso Zarauza cria, explicitamente, uma metáfora da crise econômica do seu país. Neneta (Lola Dueñas) é a mulher com filho pequeno obrigada a se empregar como trabalhadora braçal em uma obra para sobreviver, apesar de ter a escolaridade que, em tempos melhores, poderia empregá-la em outras funções. “Minha ideia com este filme é dar uma bofetada de realidade para mostrar quem são os verdadeiros responsáveis pela crise econômica”, diz o diretor.

O filme reflete sobre os efeitos deletérios da crise econômica. Por exemplo, em meio a essa dura história de sobrevivência, Neneta deverá optar entre dois amores, um libertário, que a convida a jogar tudo para o alto, e outro, mais “burguês”, que a chama para a estabilidade. “Mas, no fundo, o que decide por ela é a crise econômica e não seus desejos mais íntimos.” A crise, no fundo, funciona como os deuses da tragédia grega, tecendo e desfazendo destinos humanos. 

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