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'O Sacrifício' de Tarkovski, chega como alegoria de Natal

Último filme do cineasta russo, que fala de holocausto nuclear,esperança e ressurreição, é lançado em DVD

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2015 | 05h00

Último filme do cineasta russo Andrei Tarkovski (1932-1986), O Sacrifício é lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo justamente na semana de Natal, uma feliz convergência entre o nascimento do Messias e o escopo temático de sua obra, o da esperança na ressurreição pelo sacrifício. Tarkovski fez, enfim, um filme espiritualizado para uma sociedade materialista. Logo no prólogo, um monólogo do intelectual Alexander (o sueco Erland Josephson) reflete sobre a bestialidade da era contemporânea: “Vivemos como selvagens”, diz, acrescentando que a humanidade enveredou por um caminho sem volta, cujo ponto final pode ser a catástrofe.

Dito assim, é possível concluir, de forma apressada, que Tarkovski foi um pessimista. Não foi. Cristão, duas palavras de seu filme cercam o espectador durante as duas horas e meia de duração: a fé e a esperança. O sacrifício do título é justificado pela intervenção de um carteiro místico que, no dia do aniversário de Alexander, oferece de presente ao amigo um mapa do século 17. Surpreso, ele agradece, mas diz que não pode aceitar um objeto tão raro e caro. “Todo presente é um sacrifício”, argumenta o carteiro, ajudando a construir essa poética parábola sobre o holocausto nuclear.

Ciente de que a tragédia atômica só pode ser evitada mediante um acordo entre a humanidade e o Criador, Alexander faz um pacto com o Todo Poderoso: abre mão de tudo, inclusive da própria vida, para salvar a da sua família. Na iminência de uma guerra nuclear, anunciada pela televisão, o intelectual ajoelha-se diante da empregada, que julga iluminada, pede perdão e incendeia a casa. Internado como insano, resta ao filho, mudo, manter a esperança vital, regando uma árvore supostamente morta, como lhe ensinara o pai.

Naturalmente, uma sinopse tão breve não traduz toda a beleza e densidade do testamento cinematográfico de Tarkovski, cineasta que viveu seus últimos anos no exílio, perseguido pela ditadura soviética. Boicotado em seu país, ele foi autor, entre outros, de clássicos como Andrei Rublev (sobre o pintor de ícones da Idade Média) e Solaris (sobre uma estação interplanetária que registra fenômenos telepáticos), ambos considerados herméticos e rejeitados pelo regime soviético.

O Sacrifício nem mesmo seria considerado um projeto para produção na extinta URSS. Foi na Suécia que Tarkovski conseguiu apoio do Instituto Sueco para filmar na ilha de Faro, a mesma onde o diretor Ingmar Bergman (1918-2007) passou boa parte de sua vida. Dois de seus habituais colaboradores, o diretor de fotografia Sven Nykvist (1922-2006) e o ator Erland Josephson (1923-2012), trabalham em O Sacrifício, concluído no ano da morte de seu realizador, cuja obra completa está sendo colocada no mercado pela Versátil – já foi lançado um DVD duplo com A Infância de Ivan, O Espelho, Nostalgia e Tempo de Viagem e o Blu-ray de Solaris.

Todos eles, de alguma forma, estão interligados. A Infância de Ivan narra a trajetória de um menino de 10 anos, órfão, que luta contra os nazistas. O Espelho, autobiográfico, conta a infância de Tarkovski durante a guerra. Nostalgia fala do exílio de um poeta russo em jornada mística pela Itália, onde o cineasta, acompanhado pelo roteirista Tonino Guerra, rodou o documentário Tempo de Viagem. Finalmente, em Solaris, um psiquiatra é enviado a uma estação espacial para investigar estranhos fenômenos, entre os quais contatos imediatos entre pessoas vivas e mortas. No fundo, todas essas histórias se resumem a uma só: a do confronto entre ordem (o interior da casa, da família) e o caos (o mundo exterior, uma ameaça). Entre tropeços, sempre resta um pacto metafísico como o de Alexander com o Criador, em O Sacrifício. Não custa tentar.


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