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O ‘Rosebud’ de Rithy Panh contra Pol Pot

‘A Imagem que Falta’ é a pérola de uma programação que lança luz sobre a brutal repressão do Khmer Vermelho

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2013 | 17h14

Rithy Panh perdeu toda a sua família para a violência do Khmer Rouge, antes de ser recolhido a um campo de refugiados da Tailândia, em 1979. Era garoto, e ao virar diretor tornou-se o historiador cinematográfico de uma era de terror como poucas ditaduras representaram. Pense nas crônicas mais sinistras sobre Josef Stalin ou Augusto Pinochet. Pol Pot foi da mesma laia, um bruto sanguinário que, por meio do partido Khmer Vermelho, submeteu o Camboja à fome, à humilhação, ao genocídio. Panh ainda estava em seus verdes anos e o cinema, em 1984, já apontava o dedo acusador em Os Gritos do Silêncio, de Roland Joffe, sobre os campos de extermínio do Khmer.

O filme adotava o ponto de vista de Sidney Schanberg, repórter do The New York Times, interpretado por John Malkovich, que permaneceu no Camboja após a retirada norte-americana. Schanberg documentou e depois narrou todo o horror da repressão. Quando ganhou um prêmio de reportagem nos EUA, o homem que havia sido seu guia estava desaparecido nos campos de extermínio - os killing fields para onde Pol Pot e seus asseclas enviavam opositores. O guia era interpretado por Haing S. Ngor, que sobrevivera ao Khmer e ganhou o Oscar de coadjuvante, mas morreria em circunstâncias misteriosas, nos EUA, anos depois.

Começa hoje uma retrospectiva de Rithy Panh no Centro Cultural Banco do Brasil. Famoso principalmente por sua obra de documentarista, ele tem ficções no currículo, incluindo o remake de Un Barrage Contre le Pacifique, de Marguerite Duras, que já havia sido filmado por René Clément em 1958 - no Brasil, chamou-se Terra Cruel. A nova versão, feita 50 anos depois, tem Isabelle Huppert. Em maio deste ano, em Cannes, Panh ganhou o prêmio da seção Un Certain Regard com seu documentário L’Image Manquant/The Missing Pinture. A imagem em questão é uma foto tomada pelo Khmer entre 1975 e 79, quando dominava o Camboja. Na impossibilidade de encontrá-la, Panh a recria, por meio de uma abordagem inusitada original.

Panh já se valera de material de arquivo e entrevistas em dois outros filmes, de 2003 e 2011, S21 - A Máquina de Morte do Khmer Vermelho e Duch – O Mestre das Forjas do Inferno. S21 investiga o centro de detenção e tortura que virou o emblema do horror da era Pol Pot. Duch é sobre o temido Kaing Guek-eav, ex-secretário do Khmer e que coordenou a máquina de morte do partido. Entre ambos, em 2005, Panh fez Os Artistas do Circo Queimado, sobre grupo que resiste nas ruínas do teatro, em Phnon Penh, que o Khmer usava para seus espetáculos de propaganda. Todos integram a programação, só que, agora, e um pouco à maneira do israelense Ari Folman, que misturou animação e live action em Valsa para Bashir - sobre os massacre nos campos palestinos de Sabra e Chatyla –, o Panh de A Imagem Que Falta se utiliza de material de arquivo (de novo) e bonecos de barro.

Em Cannes, na apresentação de seu filme, Panh disse que o público ia ver - o repórter estava lá - não tanto uma reconstituição dramática, mas algo muito mais visceral. “Para fazer os bonecos, necessitamos de terra, água, vento, sol, todos os elementos para criar o barro e formar as figuras e depois secá-las, pintá-las, dar-lhes vida. Acima de tudo é preciso a vontade de criar, e é isso que faz o homem. Sou, basicamente, um camponês. Tenho meus pés no chão, não sou um teórico, sou talvez um intuitivo (um ingênuo), mas essa é a minha história, e eu queria muito contá-la.” A própria imagem que falta é o enigma do filme - o Rosebud, por associação a Cidadão Kane, de Rithy Panh. Ele nunca esclarece que foto é essa. Da repressão em geral, de sua família, em particular. O resultado é impactante. O cinema de Rithy Panh não só merece – exige revisão.

O CINEMA DE RITHY PANH

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651.

De 6 a 17/11. R$ 4 (em DVD, grátis). www.bb.com.br/cultura

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