O "romântico" Sokurov e sua proeza técnica em Cannes

Durante todo o tempo da entrevistacom Alexander Sokurov, numa sala reservada do Grand Hotel, ummassagista permanece a postos. O diretor de Arca Russa temsofrido muitas dores aqui em Cannes. "É por causa do estresse", explica o assessor de imprensa Richard Lormand. A dor ajuda aentender uma observação de Sokurov. Ele confirma que haverá umaretrospectiva dos seus filmes na próxima Mostra Internacional deCinema São Paulo, também diz que Leon Cakoff o convidou parafazer o cartaz do evento. Tudo isso é verdade, mas elecondiciona à saúde a ida a São Paulo, em outubro. Aproveite-se,aqui, para fazer uma correção: ao contrário do que afirmaram àreportagem alguns brasileiros, no mercado, Cakoff jura que nãocolocou nenhum dinheiro em Arca Russa. Seu interesse pelofilme é puramente artístico. Pode-se não gostar de Arca Russa, mas não há comonegar que se trata de uma proeza técnica. A data de 23 desetembro de 2001 desde já é um marco na história do cinema. Foineste dia, após sete meses de intensos preparativos, que Sokurovrodou seu filme em uma só seqüência, um plano contínuo de poucomais de 90 minutos. Na verdade, a idéia começou a surgir muitotempo antes. Há 15 anos Sokurov teve a idéia de fazer essaexperiência radical. Ele explica que não foi só o conceito quesurgiu naquela época. "Toda a idéia do filme me veiosimultaneamente; na verdade, desde a concepção inicial até oproduto acabado, pouca coisa mudou." Há mais de 50 anos, Alfred Hitchcock já havia feito umaexperiência pioneira de plano contínuo, mas como as bobinas defilme não comportavam a duração de Festim Diabólico, eleteve de recorrer a alguns artifícios, que implicavam cortes.Graças ao digital, uma câmera de alta definição que sofreualguns ajustes, Sokurov pôde fazer Arca Russa em um sóplano. Ele diz que o pioneirismo do seu filme vai além. "Éigualmente necessário destacar que foi outro desafio gravar emsom direto a inteira duração desse plano." Durante hora e meia,a câmera percorre o Museu Hermitage, em São Petersburgo. Atores,cercados por centenas de figurantes, encenam os blocosnarrativos que permitem ao autor debruçar-se sobre 300 anos dahistória da Rússia. Pedro, o Grande, Catarina, a Grande, Catarina II,Nicolau e Alexandra são os principais personagens. A última ceiados Romanovs é comparada à Santa Ceia e o baile que encerra ofilme é o equivalente russo do Baile da Ilha Fiscal, no Brasil:o último brilho do império. No fim, o narrador dá seu adeus àEuropa. Sokurov reinventa Bernardo Bertolucci. Prima dellaRivoluzione: quem não viveu antes da revolução não conheceu adelícia de viver. Mas nega que seja um reacionário. Preferedefinir-se como um romântico. E por que o adeus? À Europa? Orepórter, que faz a pergunta, arrisca a interpretação: porquevieram depois os tempos focalizados em Moloch e Taurus, dopróprio Sokurov, sobre as barbaridades de Adolf Hitler e domarxismo-leninismo que desembocaram em Stalin. "Você entendeutudo", diz o diretor. Arca Russa foi rodado num plano contínuo de 90minutos, mas não numa primeira tentativa. "Tivemos de abortar aprimeira rodagem aos 40 segundos, quando percebemos que haveriaproblemas técnicos", ele disse. Embora utilize as novastecnologias, Sokurov não desistiu do cinema tradicional. Explicaque fez o filme em alta definição, mas ele foi transferido paracelulóide. O próximo filme também terá montagem. Acha que ocinema tem de reconhecer seu lugar entre as demais artes,cedendo a primazia à pintura e, principalmente, à literatura.Não poupa elogios aos grandes mestres da literatura russa. Dizque em Dostoievski a trama não importa. O essencial é ainvestigaçãon da alma. Respeita Tarkovski, o diretor que queriaesculpir o tempo, mas identifica-se totalmente com o repórterquando ele lhe diz que Terra, de Dovjenko, é a obra-prima docinema russo. "É a obra-prima do cinema mundial", corrige."Acredito que foi com esse filme que o cinema se reconheceucomo arte."

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