O retrato da favela no cinema nacional

Como o cinema brasileiro retratou favelas, mocambos, palafitas e periferias urbanas nos últimos 50 anos? Para refletir sobre o tema, o Núcleo de Cinema do Centro Cultural São Paulo organizou a mostra Representações da Favela, que começa hoje, na Sala Lima Barreto, e se estende pelos próximos 12 dias.Carlos Augusto Calil, professor da USP e diretor do CCSP, selecionou, com sua equipe, 16 títulos. Treze deles são longas-metragens: Cidade de Deus, O Invasor, Rio 40 Graus, Rio Zona Norte, Orfeu do Carnaval, Orfeu, Cinco Vezes Favela, Fábula, Ônibus 174, Santo Forte, Babilônia 2000, Como Nascem os Anjos e Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas. Dois são curtas: Palace II, de Fernando Meirelles & Kátia Lund, e À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel. O décimo-sexto título é um média e só existe no suporte vídeo, Notícias de Uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund.O filme mais antigo da mostra é Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, lançado, depois de ser interditado pela censura, em 1955. A qualidade da seleção realizada pelo CCSP é notável. Pela primeira vez num evento público, brasileiros poderão ver - e comparar - as duas transcriações cinematográficas de Orfeu da Conceição, peça de Vinícius de Moraes. A primeira, de 1959 - Orfeu do Carnaval - traz na direção o francês Marcel Camus (1912-1982). A segunda - Orfeu - foi realizada 40 anos depois por Cacá Diegues.A versão de Camus aposta no exotismo, linha "macumba para turista". A favela mais parece "um céu no chão". O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de filme estrangeiro. Spike Lee mostra em Uma História de Huey P. Newton o quanto esse filme tocou seu personagem. O escritor japonês Kanizaki (no romance Diário de Um Velho Louco) também se refere carinhosamente ao Orfeu black. O filme de Cacá é bem melhor. Mas não adiantou. No Brasil, foi visto por 961 mil espectadores (resultado apenas mediano para a dimensão do lançamento).Há dois filmes do começo dos anos 60 que merecem ser vistos: Cinco Vezes Favela, de Joaquim Pedro, Leon Hirszman, Cacá Diegues, Marcos Faria e Miguel Borges, e Fábula (ou Meu Lar É Copacabana), de Arne Sucksdorff (1917-2001).O primeiro - cinco visões da favela - é ingênuo e populista. Mas exala a paixão de seus jovens realizadores que queriam mudar o mundo. Fábula é um caso à parte. Em 1962, Itamaraty e Unesco somaram forças para promover, no Rio, curso de cinema capaz de qualificar filhos da elite intelectual e diplomática brasileira, doidos para se enfronhar no charmoso ofício. Eduardo Escorel e Arnaldo Jabor (e o paulista Wladimir Herzog) freqüentaram as aulas de Sucksdorff.Ponta - "Ele era um craque, filmava bicho e natureza como ninguém, mas não entendia nada de nouvelle vague, a onda que realmente nos interessava naquele momento", relembra Jabor. Além de iniciar a moçada em tecnologias de ponta na época, Sucksdorff, um "gringo sueco apaixonado pelo Rio", resolveu realizar um filme "brasileiro". Reuniu meninos da favela (entre eles, Cosme dos Santos, que estreara em Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias) para que descessem o morro e fossem desfrutar de "um novo lar", a praia de Copacabana. O filme é ingênuo ("medíocre", avalia Jabor), mas tem momentos de grande beleza plástica. E - não se pode esquecer - teve Leila Diniz como coach. Isso mesmo, a futura atriz de Todas as Mulheres do Mundo, então uma linda professorinha, cuidou da preparação do elenco infantil.Eduardo Coutinho, o mais respeitado dos documentaristas brasileiros, tem dois de seus filmes mais recentes na mostra. Santo Forte, uma pequena obra-prima, retrata a religiosidade dos moradores de favelas - um mundo complexo, rico, envolvente. Babilônia 2000 vai na contramão dos que reduzem a favela a território povoado por traficantes e bandidos de todos os naipes. Coutinho busca no Morro da Babilônia, réveillon de 2000, depoimentos de seres comuns, gente de carne e osso, sem estereótipo.Como Nascem os Anjos, de Murilo Salles (1996), filme subestimado e que precisa de urgente revisão, tem imensos méritos. Mais uma vez, Murilo Salles aborda um dos subtemas essenciais de sua dramaturgia cinematográfica: a relação do brasileiro com a TV, veículo hiper-poderoso, que molda desejos e comportamentos.Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, constitui-se em importante registro das opções de vida para quem nasce nas favelas da Grande Recife. A partir de dois amigos de infância - o músico Garnizé e o matador de aluguel, Helinho - Caldas & Luna apresentam painel da violência numa das maiores metrópoles do Nordeste.Uma panorâmica iniciada na favela também toma conta do espectador de Ônibus 174, premiado documentário de José Padilha, que revela as entranhas do sistema criminal brasileiro ao aprofundar-se no perfil de Sandro do Nascimento, o seqüestrador do ônibus Rocinha-Gávea.Dois curtas completam a mostra: Palace II e À Margem da Imagem. O filme de Meirelles e Lund incendiou debates em festivais e universidades. Foi acusado de praticar a "cosmética da fome" (conceito criado por Ivana Bentes). Ou seja, de maquiar a realidade. De atenuá-la, embelezá-la com recursos cosméticos. O curta, um ensaio para o vigoroso Cidade de Deus, incomoda com seus personagens besuntados de óleo, mas conta uma boa história.À Margem da Imagem vai por caminho oposto. Pode-se dizer, mesmo correndo o risco da simplificação e guardadas as devidas proporções, que Palace II se aproxima de Sebastião Salgado (com suas hipnotizantes imagens dos miseráveis do mundo), enquanto À Margem da Imagem se pauta pela postura de Cartier-Bresson (ou seja, pretende interferir o mínimo possível na realidade registrada pela câmera). A intenção do diretor Mocarzel é discutir o roubo da imagem.Representações da Favela. De terça a domingo. Grátis. Centro Cultural São Paulo - Sala Lima Barreto. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 16/3.

Agencia Estado,

05 de março de 2003 | 10h00

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