'O Retorno' revisita região do nordeste 50 anos depois

Documentário, que marca a volta à direção do veterano Rodolfo Nanni, se espelha em 'O Drama das Secas'

Neusa Barbosa, da Reuters,

08 de agosto de 2028 | 11h16

O documentário O Retorno marca a volta à direção do veterano cineasta Rodolfo Nanni, que retoma o tema de um filme anterior, feito há 50 anos, seguindo o mesmo itinerário, no agreste e sertão nordestinos, entre os estados de Pernambuco e Alagoas. A produção recebeu os prêmios de melhor direção e fotografia (para Roberto Santos Filho) no Cine PE, em abril. O filme estréia em São Paulo nesta sexta-feira, 29.    Veja também:Trailer de 'O Retorno' Ouça trecho do tema de 'O Retorno'   Anna Maria Kieffer assina trilha sonora do filme Este é o primeiro filme do diretor paulista de 83 anos desde Cordélia, Cordélia, de 1971. O trabalho se espelha no documentário O Drama das Secas (1958), feito com uma pequena verba obtida por Josué de Castro, então presidente da Associação Mundial da Luta contra a Fome. O diretor centra seu foco na situação dos pequenos lavradores nordestinos e encontra um Brasil modificado pela introdução do Bolsa Família - programa assistencial que é mencionado em diversos depoimentos ao longo do filme. Pelo interior e nas imediações de cidades como Garanhuns, Águas Belas, Itaíba, Manari, Tanacaru, Serra Talhada e Pesqueira, mostra-se que, muitas vezes, existem açudes, às vezes imensos. A água, porém, continua, como há 50 anos, não chegando às pequenas propriedades. Falta ainda, como faltava há cinco décadas, um projeto amplo de irrigação. Para muitos dos personagens do documentário, continua a necessidade imperiosa de buscar longe a água de cada dia, numa cacimba ou lata, carregada à cabeça. Se é visível que o Bolsa Família moderou significativamente os efeitos da fome e da desnutrição, nem este programa nem nenhuma outra medida governamental serviu ainda para elevar os níveis educacionais e profissionais dessas populações. A falta de acesso à escola é uma das queixas mais freqüentes entre os moradores entrevistados, particularmente os mais jovens. Um ponto alto está na trilha sonora, cuidadosamente pesquisada pela cantora e pesquisadora Anna Maria Kieffer, mulher do diretor, com a parceria do também pesquisador Gilmar de Carvalho. Partindo da inspiração de cantigas que identificam a água como metáfora da vida, a trilha constrói uma sofisticada moldura sonora. Recorre também a sons de instrumentos locais, tais como pífanos, violas de arame, vozes e percussão. Tudo isso confere uma identidade regional e mesmo poética ao filme.

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