Niko Tavernise, Twentieth Century Fox
Niko Tavernise, Twentieth Century Fox

'O Rei do Show' cumpre seu papel e levanta o astral

Diretor Michael Gracey tem toda razão: sentido da obra é a aceitação das diferenças

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2018 | 06h00

Michael Gracey, que dirige O Rei do Show, ficou conhecido como artista digital. O longa musical com Hugh Jackman é sua primeira obra maior no cinema, mas os créditos somam outros nomes conhecidos do público – o produtor James Mangold dirigiu Wolverine e Logan; e Bill Condon, da Saga Crepúsculo e da versão live action de A Bela e a Fera, está creditado como roteirista. Mangold, em especial, autoriza a suspeita – não será O Rei do Show uma espécie de X-Men sem superpoderes?

+ Hugh Jackman se mostra à vontade cantando e dançando em 'O Rei do Show'

P.T. Barnum, justamente o personagem de Jackman, é reputado como o primeiro norte-americano a ter feito fortuna com o showbiz. Talvez sua história não seja exatamente como no filme, mas ao acolher, reunir e transformar em estrelas do seu show um bando de ‘freaks’ renegados pelas próprias famílias, Barnum fez história. Para a mentalidade politicamente correta de hoje, foi precursor também de um pensamento igualitário, baseado no respeito à diferença de seus mutantes. Mas o filme, mesmo que eventualmente não seja acurado, também não o idealiza tanto assim.

Barnum veio de baixo, e seu sonho nada secreto é não apenas ficar rico como se tornar respeitável para a sociedade que discriminou e marginalizou seu pai – e a ele. A bofetada que, de cara, ainda criança, recebe do pai da mulher que será sua companheira de vida o marca para sempre. Nessa cruzada por respeitabilidade, Barnum se associa ao dândi Philip Carlyle/Zac Efron, e o efeito é um pouco inverso. Efron será rejeitado pela família rica, que não tolera vê-lo em tão má companhia. Com Carlyle, Barnum logra ser aceito, por um breve momento, pela burguesia de Nova York, ao empresariar a soprano sueca Jenny Lind. Mas pisa em falso, e bate com a porta na cara de seus freaks, impedindo-os de participar da recepção a Jenny.

Justamente, a soprano. Nesses tempos de denúncias de assédio, é curioso ver Rebecca Ferguson se atirar sobre Barnum/Jackman e vê-lo resistir a seu avanço. A paixão do empresário por ela tem muito de platônica – é admiração artística, com certeza. Essa mulher canta como um anjo. A bela entra para subverter (e desmontar) o império de diversão criado por Barnum. Seu mundo vem abaixo, mas, como bom herói (norte) americano, ele saberá se reerguer. É o sentido da fábula. Barnum se reconstrói como empresário e como ser humano. (Re)Descobre o sentido da diferença e o valor da família. E, como se trata do rei do show, tudo termina em apoteose circense, com direito a elefantes que parecem saídos de um filme de Federico Fellini.

Gracey, com a cumplicidade da dupla de compositores Justin Paul e Benji Pasek – vencedora do Oscar por La La Land, de Damien Chazelle –, logrou um espetáculo vibrante e lindamente coreografado. Talvez a Academia considere demais premiar musicais dois anos seguidos, e deixe O Rei do Show fora do Oscar. Isso não diminui em nada a euforia que o filme tende a produzir no espectador. Como ‘feel good movie’, O Rei do Show só não levantará o astral dos muito mal-humorados. E, como em Os Miseráveis, Jackman é 10, cantando e dançando.

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