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O que você diria no palco do Oscar?

Documentaristas que estão concorrendo à estatueta da maior festa de cinema do mundo podem atrair os holofotes este ano por causa do clima político que se instaurou nos Estados Unidos

Cara Buckley, The New York Times

22 de fevereiro de 2017 | 15h12

A chegada das estrelas de documentários no tapete vermelho com frequência é um choque de realidade com relação à atmosfera de conto de fadas na festa de premiação da Academia.

Os jornalistas correm para conversar com Bradley Cooper ou perguntar a Jennifer Lawrence sobre seu vestido, ou então são apresentados ao sobrevivente de um genocídio, um soldado devastado pela guerra ou um guarda florestal de um parque congolês que arrisca sua vida para proteger a última espécie em perigo. Se o tapete vermelho vem aumentando em popularidade como competição - e é o que ocorre, as celebridades também ganham, incontestavelmente.

Mas este ano o grupo de produtores de documentários e os temas explorados poderão ficar no centro dos holofotes por causa do clima político que está cada vez mais inflamado.

Cinco dos dez documentários de curta e longa duração indicados ao Oscar têm a ver, direta ou indiretamente, com refugiados. Três mostram os perigosos caminhos empreendidos pelos migrantes desesperados; um quarto é sobre socorristas sírios cujo trabalho é procurar e salvar pessoas enterradas ainda com vida sob os escombros de prédios bombardeados; e um quinto é sobre um sobrevivente do holocausto que chegou às costas americanas há sete décadas.

Diversos documentaristas queriam trazer seus personagens para a cerimônia do Oscar, mas os planos mudaram drasticamente com a ordem expedida pelo presidente Trump proibindo a entrada no país de viajantes e refugiados de sete países de maioria muçulmana. Com o destino dessa ordem nas mãos dos tribunais, a participação deles é incerta. Assim o Carpetbagger resolveu perguntar aos cineastas e algumas outras pessoas o seguinte: diante do tumulto envolvendo a questão dos refugiados provocado pela controvertida proibição, qual seria sua mensagem que estivesse no palco do Oscar?

“Perguntei às pessoas que viajaram da Nigéria, atravessando o deserto, para chegarem à Líbia; ‘o que o fez atravessar o mar? Sabe que poderia ter morrido ali?’”, disse Gianfranco Rosi, diretor do documentário Fire at Sea (Fogo no Mar) que acompanha membros da guarda costeira na sua luta para salvar milhares de migrantes em risco de morrer nas costas da minúscula ilha italiana de Lampedusa.

“Eles respondiam: ‘Gianfranco, a palavra ‘poderia’ é que tem importância’”, disse Rosi. “Sabíamos que poderíamos morrer na travessia do mar. Mas na Líbia vamos morrer. Para nós a palavra “poderia” significa tudo. A esperança. Não traímos nossa esperança”.

No filme, Rosi também procura fazer um relato da vida quotidiana da população da ilha não afetada pela crise, um microcosmo desconcertante da épica indiferença manifestada pelo mundo em geral.

“Deparei com a morte à margem da Europa - isto é aceitável?, indaga Rosi. “Esta é uma das maiores crises e tragédias na Europa desde a 2a. Guerra Mundial. Naquela época, podíamos dizer que não sabíamos. Hoje não podemos afirmar isto”.

O curta do The New York Times 4.1 Miles, realizado por Daphne Matziaraki, também examina o impacto da crise migratória a partir da perspectiva de um capitão da guarda costeira. Trata-se de um grego da ilha de Lesbos, que fica a 65 quilômetros da costa turca. Como seus colegas italianos, o capitão passa seus dias tirando homens, mulheres e crianças em perigo, se não mortos, do mar.

“Ele representa a responsabilidade que, acho, todos nós, cidadãos do mundo ocidental, temos”, disse Matziaraki. “Ele carrega este peso há um ano e meio. Ele e seus colegas de tripulação enfrentam toda aquela situação em primeira mão. E ele se sente extremamente só nesta crise que o mundo tem ignorado. E gostaria que o mundo compartilhasse da sua responsabilidade e o ônus”.

Matziaraki espera que os que assistirem ao filme se reconheçam naquelas pessoas que estão fugindo das atrocidades, muitas delas com curso superior, de classe média com filhos pequenos. “São humanos como nós; sofrem da mesma maneira que nós sofremos. Todas pessoas com quem conversei disseram: ‘não temos outra alternativa senão deixar nossa casa”.

Dois curtas farão o público mergulhar no quotidiano dos sírios acossados. The White Helmets (Os Capacetes Brancos) acompanha os membros do grupo de busca e socorro da Síria que tem o mesmo nome. E Watani: My Homeland acompanha uma mãe síria, Hala Kamil, que foge para a Alemanha com os quatro filhos depois de o seu marido ser raptado pelo Estado Islâmico. Cada filme oferece vislumbres da realidade vivida pelos personagens, tornando-os profundamente verossímeis, com um efeito devastador.

Um capacete branco, um jovem que facilmente se integraria num Brooklyn hipster, brinca com a filha bebê antes de correr para um prédio derrubado por um ataque aéreo e começar a busca frenética por sobreviventes. Em Watani, quando as bombas tornam sua filha, antes despreocupada, uma pessoa se retorcer por causa de fortes dores, ela lhe dá xarope para tosse como paliativo.

Os cineastas responsáveis pelos documentários esperavam trazer os seus personagens para a cerimônia do Oscar, até chegar a notícia da proibição de Trump. Independente do que ocorrerá nos tribunais, a proibição já enviou sua mensagem dura.

Para Joanna Natasegara, produtora de The White Helmets, em vez de serem proibidos de entrar no país, os socorristas sírios deveriam ser felicitados pelo trabalho, como agentes s humanitários que lutam para manter uma sociedade unida e para conter a propagação do Estado Islâmico e do jihadismo. “Eles tinham de ser bem recebidos e receber um prêmio”, disse ela.

A coluna conversou também com Khaled Khatib, membro dos White Helmets e cameraman do filme.

Khaled disse que, independente de ir ou não à festa do Oscar, a indicação deve passar a mensagem do filme. E observou que a avalanche de refugiados fugindo do país não ocorre por causa de uma proibição de viagem.

“A traição contra a população síria não é essa ordem executiva específica. Ela foi cometida pela comunidade internacional que não conseguiu acabar com a guerra e especialmente os ataques aéreos dos governos sírio e russo contra a população”.

Mas segundo Marcel Mettelsiefen, que dirigiu Watani, a ordem executiva de Trump se insere num esforço preocupante da direita para dividir e conquistar, usando entre outras coisas a demonização dos muçulmanos.

“Temos de ter um discurso contrário; temos de contar a história da maioria dos membros dessa religião. Para Hala a proibição de viagem é prova de que, infelizmente, pessoas como ela, famílias de mulheres e crianças, pagam um preço pelo fracasso político internacional com relação ao que vem sucedendo em seu país”.

E a coluna conversou também com Joseph Feingold, 93 anos, um sobrevivente do Holocausto que sobreviveu ao pogrom de Kielce na Polônia em 1946. Dois anos mais tarde ele foi recebido pelos Estados Unidos e acabou se tornando um arquiteto bem sucedido em Nova York. O curta Joe’s Violin relata sua amizade com uma adolescente do Bronx, filha de imigrantes, depois que ele doou seu amado violino para um programa por meio do qual a adolescente acabou recebendo o instrumento.

“Sei como os imigrantes contribuíram para o bem-estar dos Estados Unidos - para a economia, a ciência, a cultura. Naturalmente restringir a imigração me atinge de uma maneira muito direta”, disse Joseph.

Tradução de Terezinha Martino

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