'O Que os Homens Falam' cria panorama quase patético do macho contemporâneo

Com texto refinado e ótimos atores, longa faz rir de forma inteligente

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2014 | 19h02

O Que os Homens Falam é raro exemplo de comédia contemporânea inspirada. Do ponto de vista masculino, e por meio de oito personagens principais, discute temas como a crise do casal, a posição ameaçada do macho, a infidelidade conjugal, o sexo no trabalho, etc. Raramente cai em clichês. O texto é refinado e os intérpretes, ótimos. Mire e veja o time: Javier Câmara, Ricardo Darín, Jordi Mollá, Eduardo Noriega e Leonardo Sbaraglia, entre outros.

O trunfo maior desse filme do catalão Cesc Gay está na inteligência dos diálogos e na maneira sutil como são interpretados pelos atores. Nas primeiras cenas, vemos um personagem, vivido por Leonardo Sbaraglia, sair do psiquiatra e se encontrar com um antigo amigo (Eduard Fernándes) no pátio. Os dois se põem a conversar um pouco. O primeiro tem tudo, mas só vive à base de antidepressivos. O segundo, em troca, é um jornalista desempregado e, de seu, só possui um gato. Já próximo da meia-idade, voltou a morar com a mãe, mas parece mais tranquilo que o outro. O que há ou houve entre os dois? Não se sabe, porque as frases são sibilinas e ambivalentes.

Há certa graça na tensão contemporânea. Por exemplo, o tipo vivido pelo argentino Ricardo Darín também só se mantém à tona à custa de aditivos tarja preta. Também vive sob tensão, pois sabe que a mulher está tendo caso com outro homem. Ele a segue e vê quando entra num apartamento. Senta-se num banco da praça em frente sem saber direito o que fazer. Por acaso, encontra-se com um conhecido, que lá está passeando o cachorrinho. Conversam. Falam de banalidades até que o assunto da traição vem à tona. E o desfecho é surpreendente.

Sempre os relacionamentos. O personagem de Javier Câmara vai devolver o filho buscado na escola à ex-mulher (Clara Segura), com a qual deseja reatar. Mas ela tem uma revelação a lhe fazer. Cesc Gay coloca sua lupa também sobre o ambiente de trabalho. Eduardo Noriega faz um conquistador de escritório que tenta cantar uma colega no fim de uma festinha da firma, quando ambos já estão um tanto altos. Há um inesperado.

Entra em cena na história um toque cult pela referência ao mix de mago e cineasta chileno Alejandro Jodorowski. Ele se dá quando Maria (Leonor Watling) e o personagem de Alberto San Juan conversam no interior de um carro. A mulher conta ao homem como coloca em prática com seu marido uma das recomendações de Jodorowski constante do seu Manual de Psicomagia. O espectador poderá ficar intrigado com a recomendação de Jodorowski, mas a personagem de Watling (de Fale com Ela, de Almodóvar) garante sua eficácia.

As histórias são mostradas em separado, mas depois convergem para um encontro entre os diferentes personagens. O ritmo não cai e a originalidade das situações é mantida. Apesar de falarmos em episódios, O que os Homens Falam não é exatamente um desses filmes de relatos independentes, ou unidos por um tema comum. Aqui, os pequenos "contos" dialogam entre si e formam um tecido comum sobre a insegurança dos dias que correm e de como ela se abate sobre os relacionamentos amorosos.

No caso, adota-se o ponto de vista masculino. Filme machão? Pelo contrário. De modo geral, as mulheres parecem muito mais bem resolvidas que os homens. Estes formam um panorama quase patético do macho contemporâneo, inseguro quanto ao emprego, ao sexo, à fidelidade conjugal, à potência, etc.

As mulheres, depois de superada a época da opressão, parecem mais à vontade no mundo. Não são idealizadas, nem perfeitas, nem mesmo invulneráveis, mas surgem como mais assertivas que seus eventuais parceiros. Vivem as mesmas contradições de todos, mas parecem ter desenvolvido melhores defesas para enfrentá-las. Como ninguém, homem ou mulher, encontra-se à salvo das angústias contemporâneas, um remédio eficaz, e sem as contraindicações dos ansiolíticos, é rir-se delas. Alivia.

A questão da crítica em relação à comédia não é uma briga com o gênero, mas contra a sua decadência. Raros prazeres se comparam ao de assistir a uma comédia bem escrita, encenada e interpretada. Fazer o público rir de maneira inteligente é uma das missões saneadoras da arte.

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