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'O Que Está por Vir', um filme simples, sutil e com uma grande atriz

Isabelle Huppert é uma luz na obra dirigida por Mia Hansen-Love

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2017 | 05h00

Toda a família – pai, mãe e filhos – reúne-se diante do túmulo de Chateaubriand, em Saint Malo, na Bretanha, norte da França. Há na tumba uma inscrição. A placa pede silêncio, para que se ouça apenas o mar e o vento, como queria o escritor ao desejar ser enterrado na ponta daquela ilha batida pelas ondas, em sua terra natal.

Como se vê, não se trata de uma família banal, embora as crianças brinquem e logo peçam para ir embora dali, “para não dormirem” com Chateaubriand. Pai e mãe são professores de Filosofia. Intelectuais, muito bem sucedidos, como se verá adiante. Ambos na meia-idade. Ela é Nathalie, vivida por Isabelle Huppert, em mais um grande desempenho no ano após seu incrível papel em Elle, de Paul Verhoeven. Aqui, atua sob a direção sensível de Mia Hansen-Love em O Que Está por Vir (L’Avenir). Não sabemos do futuro e, quando tudo tem aparência tranquila, vem a tempestade. Ou quando tudo parece um inferno, encontra-se a paz. Dessa incerteza, e nela, vivemos, constatação que chega a ser uma acaciana. É o tema do filme. Tema eterno, ninguém há de negar, e sempre atual, por mais que a incerteza da vida tenha sido tratada em filmes, livros e conversas de bar por gerações seguidas.


Uma sinopse não faz justiça ao encanto desse filme que, se também é uma história de superação, em nada se parece com esses piedosos contos de fadas de Hollywood, que adora o tema, mas não gosta de expor suas arestas. Nathalie irá enfrentar mesmo muitas dificuldades mas, ao encará-las, se comporta como um ser humano normal, bem equipado culturalmente, porém tão frágil e tão forte como qualquer um de nós pode ser nas mesmas circunstâncias.

A vida pode ser dura para as pessoas e, como estudiosa da Filosofia, Nathalie sabe melhor que ninguém que importam menos as cartas distribuídas pelo destino que a maneira de jogar de quem as recebe. De qualquer forma, ela não poderia prever a sucessão de encrencas por vir, em plena maturidade. Elas dizem respeito ao marido, Heinz (André Marcon), sua mãe depressiva Yvette (Edith Scob), os filhos, e um aluno tanto rebelde como sedutor, Fabien (Roman Kolinka).

Na verdade, não interessa tanto o que se conta, mas como se conta, e o que fica ao lado, nas margens, como a paisagem que se vê na viagem, da janela de um carro ou de um trem. Detalhes soltos, às vezes muito significativos. Com uma câmera de movimentos refinados, a diretora enquadra uma Isabelle Huppert sempre luminosa e capaz de reações surpreendentes. Há um solo fantástico, entre outros: apenas um instante quando, no interior de um ônibus, ela vê pelo vidro o marido acompanhado na rua, e passa do choro à gargalhada, sem transição. Sim, pois uma cena pode ser dramática e ridícula ao mesmo tempo, e tanto diretora como atriz exploram esses contrastes, contradições e suas nuances. Isso significa saber entender a vida.

No final, o que se vê é uma história terna e realista, relato de uma vida que de repente parece sem saída e sem sentido, e, quando menos se espera, encontra um jeito de se ressignificar, como dizem os filósofos. Ou seja, de descobrir novos sentidos e motivações, apenas mudando a forma de olhar e a perspectiva sobre as coisas. Sem qualquer pieguice ou concessão romântica, o filme nos conduz por esse terno e, para os homens, sempre misterioso mundo feminino - aqui tão bem interpretado por essa grande atriz.

O que Está por Vir é um filme simples, e muito bem pensado. Um trabalho de detalhes, diálogos sutis e bem estruturados, sob direção de alguém que parece pouco preocupada em impressionar e se exibir. É uma história de libertação, porém sem as mistificações de hábito. A narrativa flui. E Isabelle Huppert, bem, ela é uma luz.

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