'O Processo do Desejo' reflete sobre o feminino e seus enigmas

DVD traz parceria entre Marco Bellocchio e Massimo Fagiolli

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2014 | 16h00

O mistério que existe na beleza se desdobra no enigma que repousa no sexo; e estes, entrelaçados, formam o núcleo de O Processo do Desejo (1991), filme-ensaio de Marco Bellocchio, agora lançado em DVD no Brasil pela Lume.

Sem dúvida um dos trabalhos mais estimulantes do mestre italiano, La Condanna (A Condenação, no original) espelha tanto indagações da psicanálise como da estética, campos caros ao diretor. Aliás, tanto o argumento quanto o roteiro são parcerias entre Bellocchio e seu então guru, o psicanalista Massimo Fagiolli. Colaboraram em outros filmes, como O Diabo no Corpo e Il Sogno della Farfalla (O Sonho da Borboleta, inédito no Brasil – foi exibido apenas no Festival de Gramado).

No enredo de O Processo do Desejo, uma jovem, Sandra Celestini (Claire Nebout), visita um museu junto com um grupo de estudantes. Trata-se do Palazzo Farnese, em Caprarola, província de Viterbo. O museu está para fechar, Sandra fica para trás e, por algum motivo, fica presa em seu interior. Resignada a passar a noite entre obras de arte, passa a contemplá-las, na penumbra. Uma delas chama sua particular atenção, a Madonna Litta, de Leonardo Da Vinci, na qual o menino Jesus é amamentado. Sandra percebe que não está só. Outra pessoa permaneceu no museu depois que todos se foram – o arquiteto Lorenzo (Vittorio Mezzogiorno). Eles falam de arte, da beleza, do sublime, mas um clima de sutil erotismo se insinua. Numa cena subsequente, Sandra despe-se, deita-se numa cama e compõe outra figura conhecida do universo da pintura – a Maja Desnuda, de Goya.

A história corta para o interior de um tribunal, onde Sandra acusa Lorenzo de havê-la estuprado naquela noite. Não, ele não a violentou fisicamente, não obteve sexo usando da força ou de ameaças, mas se impôs a ela falando de arte, de beleza, de maneira tão insinuante e irresistível que é como se a houvesse forçado. Ela não pudera resistir e agora pedia ao tribunal punição para esse sutil estuprador.

O Processo do Desejo é, obviamente, aquilo que se define como filme de ideias. Claro, pode-se dizer que, no limite, todos os filmes, por modestos que sejam, também têm suas ideias a discutir. Podem ser ideias tacanhas, clichês, restos de pensamentos gastos e medíocres, mensagens de autoajuda, mas são sempre ideias. Bellocchio funciona em outro patamar. Discute algumas questões fundamentais naquele universo rarefeito que não comporta respostas simples – ou que talvez não comporte qualquer resposta definitiva, apenas especulações. No caso de La Condanna, refere-se à questão do desejo humano, ou, mais particularmente, ao desejo feminino.

Bellocchio, lembremos, é homem da psicanálise. Tanto quanto da política (houve época em que termos em aparência tão díspares podiam ser discutidos em conjunto). Sabe que o desejo feminino é um mistério.

Freud se perguntava: o que deseja uma mulher? Chamava também a mulher de “continente negro” da psicanálise. Não era afetação, ou gosto por frases de efeito. Era mesmo um impasse teórico, para não dizer clínico.

Lorenzo é, obviamente, alguém que conhece alguma coisa do desejo feminino. Pode não conseguir teorizá-lo, nem mesmo defini-lo, mas sabe lidar com uma mulher. Sabe agir numa situação em que um "não" talvez equivalha a um "sim". Ou a um "talvez". Sabe que, em determinadas situações, não adianta "discutir a relação" ou contar ao parceiro aquilo a que se aspira no ato sexual, como preconizam alguns sexólogos. Nessa comunicação não verbal entre corpos há também alguns sutis subentendidos e compreensão nas entrelinhas sobre o desejo do outro. Lorenzo é, talvez, aquele que sabe "ler" esses sinais e portanto se torna um transgressor. Daí o processo.

Há muito mais, porém, no filme. Por exemplo, a inadequação entre o discurso jurídico e aquilo de que está se tratando, que é da ordem do desejo e, portanto, do não dito. O juiz, para decidir se houve culpa, ou seu sexo foi consensual, precisa estabelecer fatos. Mas há poucos fatos conclusivos num caso como este – tudo, ou quase tudo, é interpretação, suposições, dúvidas, palavras, que não recobrem exatamente o que se passa entre dois seres humanos como Sandra e Lorenzo.

E há também a estranha figura do promotor Giovanni (Andrzej Seweryn), tão severo em sua acusação quanto inepto em entender o desejo de sua própria mulher, Monica (Grazyna Szapolowska).

Não deixa de ser uma ironia da dupla Bellocchio/Fagioli. O que acusa, garantia jurídica da ordem, é um ignorante do desejo. Aquele que do desejo sabe alguma coisa, é um transgressor, e portanto punido. O desejo, como a beleza, precisam ser confinados em museus, como matéria morta para contemplação burguesa. Quando saem à rua, tornam-se perigosos e devem ser reprimidos.

O PROCESSO DO DESEJO

Título original: La Condanna

Direção: Marco Bellocchio.

DVD Lume (Itália, 1991, 92 min, R$ 37,90).

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