"O Príncipe" faz crônica da deterioração

Alguns poucos privilegiados já viram onovo filme de Ugo Giorgetti. Esse número será ampliado um poucomais nesta quinta-feira à noite. O Príncipe terá sua pré-estréia noCentro Cultural Banco do Brasil, no projeto mensal coordenadopor Marco Altberg, que propõe a discussão de um filme nacionalcom seu diretor. Em edições anteriores, esse evento chamadoEncontro com o Cinema Brasileiro já mostrou O Invasor e adiscussão com Beto Brant foi aprovada pelo diretor e pelosespectadores. Quinta é a vez de Giorgetti, com sua preocupação peladeterioração do centro de São Paulo. O debate será coordenadopor Ismail Xavier, crítico e professor da USP que impõe respeitopor seu trabalho como pensador do cinema. Quem acompanha o trabalho de Giorgetti sabe de suapreocupação com a deterioração urbana de São Paulo. OPríncipe não trata só disso, mas também é sobre isso. Na cenaque talvez mais tenha impressionado as pessoas que já viram ofilme, Eduardo Tornaghi, que faz o personagem-título, Gustavo,acompanha o jornalista interpretado por Otávio Augusto. Ambosacabaram de sair do Paddock - um restaurante que fechou, após afilmagem -, atravessam a Galeria Metrópole e o jornalista bêbado, amargurado e preso a uma cadeira de rodas, pois sofreu umacidente, faz um comentário cáustico sobre uma São Paulo que nãoexiste mais. Os dois terminam no centro da Praça Dom José Gaspar, em meio a mendigos que espelham a deterioração que tanto agrideo sentimento humanista de Giorgetti. Ela decorre da exclusão social que marginaliza camadasda população brasileira, aqueles que estão fora do mercado,avatar para a solução dos problemas criados pela globalização.Essa é a parte de baixo da pirâmide. No topo, Giorgettihorroriza-se com o cafajestismo e a vulgarização que parecemestar tomando conta do Brasil - e de São Paulo, especificamente,palco de seu cinema. O Príncipe é sobre esse personagem,Gustavo, que esteve fora do Brasil, retorna à sua cidade e suasensação é de estranhamento. Ele não encontra mais a "sua" SãoPaulo. Não encontra mais os antigos amigos e amigas. Como a cidade, as pessoas também mudaram. Antigoscompanheiros de luta, que acreditavam num ideário de esquerda,viraram marqueteiros. E há um personagem, Marino Esteves,interpretado por Éwerton de Castro, que virou a própria negaçãodo jovem que foi. "Era alguém que possuía idéias interessantese agora vende projetos culturais sem nenhuma preocupação social;só pensa em números e em dinheiro." Giorgetti põe o dedo naferida. Nas discussões sobre marketing cultural de OPríncipe, os personagens "integrados" sacam números: 350 milpessoas visitaram a Bienal, 400 mil viram a exposição de AugusteRodin. Números impressionantes, sem dúvida, mas que revelam bemmenos do que podem sugerir. A massa dos que não viram e nuncaverão e, se vissem, não entenderiam, é muito maior. "É umproblema de educação", resume Giorgetti. "Não basta mostrarRodin, é preciso educar, dar informação, alimentar, fazer todoum trabalho para que se chegue a uma fruição embasada,consciente, do produto cultural." Colunismo cultural - O que Giorgetti realmente lamentaele expressa numa frase, verdadeira sentença: "A cultura viroucolunismo social no Brasil de hoje." Conselheiro do CentroCultural São Paulo, ele lamenta que nenhum promoter se lembre defazer um projeto lá, essas inaugurações festivas que trazemgente de fora e viram acontecimentos na mídia. "Só querem saberdos Jardins, ignoram um espaço democrático freqüentado pelosjovens. Como acreditar na honestidade intelectual de quem fazisso?" É um filme que chega para promover discussões. O própriotítulo presta-se a isso. O Príncipe refere-se ao pensadorflorentino Niccolò Maquiavel, claro, e há até uma referênciaexplícita ao maquiavelismo, sistema amoralista que acredita queos fins justificam os meios. O próprio presidente FernandoHenrique Cardoso, sociólogo, intelectual, é chamado de Príncipe."Juro que não fiz o filme pensando nessa provocação", diz odiretor. Ele conta que Ismail Xavier, que coordenará o debate,fez uma leitura muito interessante do filme. Para ele, e issopoderá fornecer o mote da discussão no CCBB, o Príncipe deGiorgetti é menos maquiavélico do que hamletiano, consumido pordúvidas que não têm muito a ver com a praticidade da políticadesprovida de boa-fé que está na essência da obra famosa deMaquiavel. Talvez até por essa discussão incômoda sobre o Brasilreal, O Príncipe foi um projeto difícil de montar. Nenhumfilme de Giorgetti é caro. O Príncipe ficou em R$ 1,6milhão. Foi difícil levantar a verba, por meio das leis depatrocínio. Nossa Caixa, BNDS e WBrasil foram os maioresinvestidores, mas Unibanco, Eletrobrás, Banespa e IndianaSeguros também deram contribuições valiosas. Será a primeira sessão pública de O Príncipe, queinaugura a nova fase da Mais Filmes. A distribuidora de LeonCakoff e Adhemar Oliveira também passa a distribuir filmesbrasileiros. Os primeiros são justamente o filme de Giorgetti eRádio Pirata, de Helvécio Ratton. A estréia, inicialmenteprevista para o começo de julho, foi adiada para o começo deagosto. Na tela, o público vai encontrar o ator que já foiconsiderado um dos homens mais bonitos do Brasil. EduardoTornaghi está de volta e na companhia de Bruna Lombardi, quenunca deixará de ser uma das mulheres mais bonitas do mundo.Giorgetti tem o maior prazer em trabalhar com atores. Não poupaelogios aos dois nem a Otávio Augusto, Adriano Stuart e Éwertonde Castro. "É preciso acertar na escolha do ator", ele diz."Quando a escolha é acertada, o prazer é enorme." Um elogioparticular vai para Otávio Augusto, um dos atores-fetiches dodiretor (com o amigo Adriano Stuart). Otávio Augusto é a exceção que confirma uma regra naqual Giorgetti acredita: "Os atores costumam ser condicionadospelo tipo físico, que os predispõem a criar determinadospersonagens. Isso não ocorre com o Otávio Augusto. Ele muda e ésempre ótimo." Com Otávio Augusto, portanto, o prazer éredobrado.Serviço - Encontro com o Cinema Brasileiro. Quinta-feira, apartir das 18h30, exibição do filme O Príncipe e debate com odiretor Ugo Giorgetti. Grátis. Centro Cultural Banco do Brasil.Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. Centro. São Paulo

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