"O Poderoso Chefão", o cult em DVD

Pode ser mera coincidência, mas a caixa de DVDs com a série O Poderoso Chefão chega às lojas no momento em que a Mostra BR de Cinema - 25.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo exibe, entre as suas atrações, a versão ampliada de Apocalypse Now. O filme agora se chama Apocalypse Now Redux. Ficou maior e, num certo sentido, melhor, embora persistam as objeções que se podem fazer ao diretor Francis Ford Coppola. Radicalizando seu projeto operístico de cinema, ele estetiza a violência da guerra. Apocalypse Now Redux deve reestrear logo nos cinemas. É obra de culto, vai estimular muita discussão, com certeza. Amanhã chega às lojas especializadas do País a caixa do Chefão. São cinco discos digitais, num lançamento de luxo. A capa de cada disco exibe a foto de um grande astro que ligou seu nome à produção: Marlon Brando, Al Pacino, Robert De Niro e assim por diante. Há extras para ninguém botar defeito. O primeiro disco apresenta O Poderoso Chefão e comentário do diretor. O segundo e o terceiro, O Poderoso Chefão - 2.ª Parte e, de novo, o comentário do diretor. O quarto, O Poderoso Chefão 3, mais o comentário de Coppola. E o quinto, documentário, making of, tudo o que você queria saber sobre uma das séries mais notáveis da história do cinema. Talvez seja o mais impressionante em toda a série do Chefão. Os filmes não foram concebidos como uma trilogia. Quando fez Guerra nas Estrelas, em 1977, o diretor George Lucas não tinha certeza de que seu projeto poderia se concretizar, mas já sabia que se tratava da primeira parte de uma trilogia. Nos anos seguintes, fez as duas partes restantes: O Império Contra-Ataca, com direção de Irvin Kershner, e O Retorno do Jedi, de Richard Marquand. Desde o início, ele tinha um projeto grandioso, que consistia em acrescentar mais duas trilogias àquela inicial. Só bem mais tarde ele fez Star Wars - Episódio 1: A Ameaça Fantasma, o marco inicial de toda a série e da trilogia anterior à que começou com Guerra nas Estrelas. Coppola não concebeu a saga de O Poderoso Chefão como uma trilogia. Mas terminou criando um bloco de três filmes de extrema coerência. O autor do livro, Mario Puzo, foi seu cúmplice em todas as etapas. O Poderoso Chefão, o primeiro da série, foi um grande sucesso de público e crítica em 1972. Ganhou o Oscar de melhor filme (e o de melhor ator para Marlon Brando, entre outros), mas a estatueta de melhor direção foi para o Bob Fosse de Cabaret. Dois anos mais tarde, Coppola ganhou seu prêmio de direção e O Poderoso Chefão - 2.ª Parte foi a primeira, até hoje única, seqüência a ganhar o prêmio principal da Academia de Hollywood. Bem mais tarde, já nos 90, o diretor foi cooptado a fazer o número 3. Do ponto de vista da eficiência narrativa, o primeiro filme é o melhor de todos. Encerra uma prodigiosa lição de cinema narrativo ao tratar do tema da luta pelo poder numa democracia étnica. Convencido a fazer o segundo filme da série, Coppola foi mais analítico e abrangente. E, quando fez o terceiro, esculpiu um monumento de dilacerada emoção. Você talvez se lembre da abertura de O Poderoso Chefão. Não custa lembrar, porém. A tela toda escura e uma voz um tanto cansada. "Eu acredito na América." Quem fala é um emigrante italiano que veio pedir um favor ao padrinho. No original é assim: The Godfather quer dizer padrinho. No Brasil ficou sendo O Poderoso Chefão, mas o original encerra o sentido do filme não só por suas implicações religiosas nos fenômenos da Máfia e da família, mas porque toda a arquitetura dramática culmina no batismo de sangue de Michael Corleone. "Eu acredito na América." Há aí uma contradição que já prepara o espírito do espectador. Esse homem diz que acredita nos EUA. Deveria acreditar nas suas instituições, mas veio pedir um favor ao padrinho. Veio pedir a Justiça que a sociedade americana de classes lhe nega. É o tema, um dos tantos possíveis, de O Poderoso Chefão. O filme de Coppola reinventa a obra-prima de Luchino Visconti, Rocco e Seus Irmãos. Há um tema musical, de Nino Rota, que praticamente repete sua criação para Visconti. E a tragédia do idealismo de Michael, o personagem de Al Pacino, lembra a de Rocco. Como Visconti fez com Alain Delon, Coppola não deixa de usar a juventude de Pacino para esculpir uma idéia de bondade corrompida pela violência do mundo. O segundo filme se desenvolve em duas partes: faz avançar a narrativa, seguindo a saga de Michael, mas também retrocede para contar a de seu pai, Vito. O personagem de Marlon Brando é agora interpretado por Robert De Niro. Se, em O Poderoso Chefão, usou a família como metáfora da América e da Máfia, no segundo filme Coppola articula com clareza a relação estreita entre gangsterismo e negócios. O episódio de Cuba é exemplar. Aquela divisão do bolo é uma aula de cinema (e política). E se o emigrante do primeiro filme acredita na América desconfiando, Coppola não acredita. Sabe que Vito e, depois, Michael, terminam por destruir todos os valores familiares, religiosos, comunitários e étnicos numa feroz disputa pelo poder e na consolidação do individualismo competitivo e criminoso. O terceiro filme é o Rei Lear de Coppola. A família biológica se desintegra, a dos negócios persiste, mesmo que ao preço de outro banho de sangue. Os três filmes compõem uma saga grandiosa. Ajudam a entender os EUA, assim como uma frase de Marlon Brando em Apocalypse Now Redux dá um sentido tétrico à atual escalada de violência no mundo. Mas isso você vai ter de ver o filme na Mostra para entender.

Agencia Estado,

22 de outubro de 2001 | 19h09

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