Paramount Pictures
Marlon Brando e Al Pacino contracenam em 'O Poderoso Chefão', de Francis Ford Coppola. Paramount Pictures

O Poderoso Chefão: descubra 12 curiosidades

Filme que ganha cópia remasterizada quase não teve Marlon Brando, mas teve cenas improvisadas

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 10h00

Se dependesse dos executivos da Paramount, O Poderoso Chefão, clássico que volta ao cinema com cópia remasterizada, teria seu personagem principal Vito Corleone interpretado por Ernest Borgnine (e não por Marlon Brando) e o jovem Al Pacino cederia o papel de Michael Corleone para Robert Redford ou Ryan O'Neal.

Felizmente, valeu a resistência do diretor Francis Ford Coppola (ele mesmo, sob suspeita dos executivos) e, em 1972, O Poderoso Chefão revitalizou Hollywood, elevou Coppola à categoria de grande cineasta, resgatou a carreira de Brando e revelou uma nova geração de estrelas: Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton.

Veja algumas curiosidades do filme

1) O temor por Marlon Brando

A Paramount não confiava no ator, que parecia em decadência, especialmente depois de fazer filmes obscuros. Assim, os executivos fizeram com que Brando pagasse uma carta de fiança de US$ 1 milhão para garantir que ele não atrasaria as filmagens e insistiram que abrisse mão de seu cachê habitual por uma pechincha de US$ 50 mil. Ele concordou de má vontade - e ganhou o Oscar de melhor ator.

2) Direitos por uma pechincha

Autor do romance que inspirou o filme, Mario Puzo escreveu o livro em 1969 e logo se tornou um best-seller. Os direitos cinematográficos, no entanto, foram negociados antes desse estouro por uma pechincha: o produtor Robert Evans pagou os direitos por meros US$ 12,5 mil, com outros US$ 50 mil se o filme fosse feito.

3) O gato que rouba a cena

Entre as inúmeras cenas clássicas do filme, há aquela em que Vito Corleone participa de uma reunião com um gato, que brinca com seus dedos. O bichinho foi encontrado por Coppola zanzando nos estúdios Filmways, no Harlem, Nova York. Ele ronronou tão alto durante a cena que o diálogo teve de ser regravado.

4) Fala improvisada

Uma das cenas mais lembradas do filme é dita por Richard Castellano, que vivia o capanga Clemenza. Depois de executar mais um desafeto dentro de um carro, ele diz para seu auxiliar: "Deixe a arma, pegue os cannoli", referindo-se à iguaria que estava no banco do carro. A fala não estava no roteiro e foi improvisada.

5) A cena mais cara

O filme teve um orçamento baixo (US$ 6 milhões), mas algumas cenas se tornaram as mais custosas. Como a do assassinato de Sonny (James Caan), no pedágio - foi necessário muito sangue falso, muitos furos na cabine de cobrança e no carro onde estava o personagem. O custo geral foi de US$ 100 mil.

6) Mortandade

As cenas de mortes ainda impressionam, apesar de hoje os efeitos especiais permitem uma assustadora realidade. Em O Poderoso Chefão, ocorrem 18 mortes, se contarmos com a do cavalo do produtor Woltz, que o encontra na sua cama.

7) Beijo surpresa

Carinhoso com seus protegidos, Vito Corleone beija o ator Johnny Fontane, que busca ajuda para conseguir sucesso no cinema. Só que o beijo foi um improviso de Marlon Brando em Al Martino que, confuso, confessou depois que não sabia se ria ou se chorava.

8) O verdadeiro mito

Embora Marlon Brando tenha rodado suas cenas em menos de um mês (já estava comprometido em filmar O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci), sua presença em cena era venerada pelos colegas. Lenny Montana, que interpreta o mafioso Luca Brasi, estava tão nervoso de contracenar com aquele mito do cinema que errou todas suas falas. Coppola gostou de seu nervosismo e incorporou como cena o ensaio que Brasi faz das palavras que vai dizer a Corleone.

9) Participação de Sofia Coppola

A duvidosa interpretação de Sofia Coppola na terceira parte de O Poderoso Chefão é motivo para discussão uma outra hora - a verdade é que ela aparece na primeira parte, como o bebê Michael Rizzi que é batizado por Michael (Al Pacino), enquanto acontece a chacina dos inimigos.

10) Máfia, palavra vetada

Apesar de o filme ser um retrato fiel das famílias mafiosas de Nova York, as palavras "máfia" e "Cosa Nostra" não são ditas durante o filme. Isso porque uma entidade de direitos civis dos ítalo-americanos fez um acordo com o estúdio, pedindo para que os termos não fossem usados, pois poderiam manchar a imagem dos italianos.

11) Vito até o fim

O último trabalho realizado por Marlon Brando foi dublar Vito Corleone para um game inspirado no filme. Brando morreu em 2004 e o jogo foi lançado dois anos depois.

12) Final clássico

O cinema está repleto de espetaculares cenas finais (basta lembrar apenas de Rastros de Ódio e Quanto Mais Quente, Melhor) e O Poderoso Chefão não poderia ser diferente. Depois de ouvir do marido Michael que não se envolveria com a máfia, Kate (Diane Keaton) o vê oferecendo a mão para ser beijada, enquanto um auxiliar fecha a porta em sua cara. Nascia o novo chefão.

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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', com Marlon Brando Paramount Pictures

Clássico do Dia: 'O Poderoso Chefão', uma trilogia de notável coerência, ética e estética

O crítico do 'Estadão' Luiz Carlos Merten seleciona obras valiosas do cinema; os cultuados filmes dirigidos por Coppola contam com as marcantes atuações de Marlon Brando e Al Pacino

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Cena do filme 'O Poderoso Chefão', com Marlon Brando Paramount Pictures

É um daqueles casos em que as preças demoraram para se ncaixar no quebra-cabeças. Na série Clássico do Dia, já houve filmes como Casablanca e O Intrépido General Custer, em que mudaram diretor e elenco. Como teriam sido, se o planejamento inicial tivesse sido mantido? Jamais saberemos, mas com certeza não seriam esses clássicos. Poderiam até ser outros. Ocorreu com O Poderoso Chefão. Por volta de 1970, a Paramount era um estúdio falido. Precisava desesperadamente de um grande sucesso. Robert Evans, catapultado ao cargo de diretor geral de produção, conseguiu transformar Love Story num megassucesso.

Na origem do filme estava o livro - best seller - de Erich Segal. Se deu certo uma vez, não custa tentar de novo. A Paramount anunciou, com todas as fanfarras, a produção do maior filme de gangsteres de todos os tempos, adaptado do livro de Mario Puzo. The Godfather, literalmente O Padrinho - no Brasil, O Poderoso Chefão. Adquiridos os direitos, começou a batalha por um diretor. O primeiro cogitado foi Sergio Leone, mas ele declinou poque queria fazer o próprio filme de gângsteres - Era Uma Vez na América. Peter Bogdanovich e Costa-Gavras também foram sondados e disseram não. A cúpula da Paramount passou a buscar um diretor ítalo-americano. Francis Ford Coppola foi chamado e disse não. Temia que a Máfia e a violência fossem glorificadas. Ao fim de muitas reuniões de trabalho com Puzo e Robert Evans, Coppola convenceu-se de que seria possível abordar o tema como metáfora do capitalismo norte-americano.

Escreveu o roteiro com Puzo, e o estúdio, que monitorava o andamento do projeto, cobrava mais emoção e mais violência, sob pena de decepcionar o público. Começou outra batalha. A Paramount via Ernest Borgnine no papel de Don Vito Corleone. Coppola discordava. Da forma como via o personagem - shakespeariano, maior que a vida – queria um Laurence Olivier, ou um Marlon Brando. Olivier chegou a ser contactado, mas seu assistente respondeu que ele estava doente, praticamente morrrendo, e não poderia entrar numa filmagem desgastante. Como desculpa valeu, mas talvez não correspondesse à realidade. Olivier sobreviveu mais quase 20 anos, após o convite. Marlon Brando, não. O estúdio não se esquecera das dificuldades que teve com ele em A Face Oculta, quando Brando demitiu o diretor Stanley Kubrick e assumiu a realização, aumentando o orçamento e desrespeitando prazos. Coppola negociou e conseguiu que Brando fizesse um teste. Aprovado, ele teve de firmar um acordo pelo qual pagaria multa, caso retardasse o cronograma.

Resolvido o problema do chefão, restava o do filho, Michael, que manobra para assumir o controle do império do pai, quando Don Vito quase morre. A Paramount sugeriu Robert Redford, ou Ryan O'Neal, dois protótipos de galãs wasps, de pele e olhos claros. Coppola queria um ítalo-americano. Al Pacino saiu melhor que a encomenda e teve a extraordinária carreira que todo cinéfilo sabe. A filmagem durou de março a agosto de 1971 - foram 77 dias, uma semana menos que os 83 previstos no planejamento. Começa com a festa de casamento de Connie e a cerimônia do beija-mão, quando os convidados vão apresentar seus respeitos a Don Vito ou pleitear sua interferência em assuntos que os afligem. Johnny Fontane/Al Martino, o cantor que anima a festa, pede ajuda ao padrinho para dobrar o produtor que está empatando sua carreira.

Johnny é inspirado em Frank Sinatra, e o recado que Don Vito manda ao produtor não poderia ser mais brutal - ele acorda com a cabeça decepada de seu alazão de US$ 500 mil na cama. Coppola exigia uma cabeça de verdade. Associações de proteção a animais mobilizaram-se contra, mas ele teve sua cabeça, garantida por uma companhia que preparava ração para cães. Partindo da comemoração, o filme logo estabelece seu plano - a luta pelo poder numa democracia étnica. Don Vito sofre um ataque do coração e, no hospital, Michael consegue frustrar um atentado contra a vida do pai.

São três filhos - Sonny, esquentado demais para conduzir os negócios da família; Fredo, débil demais, um filhinho de mamãe; e Michael, que se revela um estrategista frio. Herói de guerra, realiza ele próprio a execução do policial corrupto McCluskey. Com a cabeça a prêmio, foge para a Itália. Casa-se, mas a mulher morre num atentado e Michael regressa à América para acertar contas e consolidar o poder da família Corleone. Para isso é preciso um massacre - a morte dos inimigos fornece o gran finale, uma sucessão de assassinatos enquanto Michael, na igreja, torna-se padrinho da filha da irmã. A essa altura ele já reatou com a namorada americana, e Kay (Diane Keaton) torna-se sua mulher, mas ela não se sujeita ao modelo de dominação masculina da organização. O final, do ponto de vista de Kay, mostra a repetição do beija-mão do princípio, mas agora o chefão, o padrinho, é Michael. Com quase três horas de duração - 175min -, O Poderoso Chefão oferece uma das mais completas (perfeitas?) lições de cinema narrativo da história. Coppola e Puzo em nenhum momento perdem o controle das situações, e dos numerosos personagens.

Entre o casamento, no começo, e o massacre, no fecho, o filme é pródigo em grandes cenas. Algumas - Sonny batendo no marido abusivo da irmã e sendo atraído à cilada para ser fuzilado; a morte de Don Vito; a mortandade. O Poderoso Chefão venceu os Oscars de melhor filme, roteiro adaptado e ator, Marlon Brando. Como raras vezes ocorreu ao longo da história, a Academia não honrou a escolha do Director's Guild - Coppola - e atribuiu a estatueta da categoria a Bob Fosse, por Cabaret. A fotografia de Gordon Willis e a trilha de Nino Rota mereciam prêmios, mas não levaram. O compositor alimentou-se da sua trilha para o clássico Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti. Coincidência ou não, o repórter sempre identificou em Michael Corleone o idealismo de Rocco no Visconti, e ambos são arrastados pela violência do mundo (o crime, para um, o boxe, para outro). O próprio Coppola disse que nunca pensou dessa maneira, mas considerava lisonjeira a comparação do repórter - Rocco, concorda ele, é um dos grandes filmes do cinema. É sobre família, lealdade - como o primeiro Chefão.

Depois que o filme arrebentou na bilheteria e foi prestigiado no Oscar, Coppola e Puzo foram cooptados a fazer uma sequência. Surgiu O Poderoso Chefão Parte II, que venceu os principais Oscars de 1974 - melhor filme, direção, roteiro adaptado, ator coadjuvante (Robert De Niro), etc. A originalidade do conceito desse segundo filme está no fato de que Coppola e Puzo contam duas histórias paralelas - a do jovem Vito, no passado, mostrando como ele se tornou chefão, e a de Michael, no presente, consolidando seu poder na organização, e isso significa enfrentar uma investigação do Congresso e eliminar integrantes da própria família (Fredo). Na parte 2 está o diálogo do advogado da família, o conseglieri Tom Hagen (Robert Duvall), em que ele detalha a organização militar da Máfia/Cosa Nostra com base no Império Romano. Também mostra as famílias de mafiosos estendendo seu império em Cuba. Numa cena emblemática, fatiam um bolo que tem a forma da ilha, cada um reivindicando seu pedaço, mas ocorre a revolução de Fidel Castro, que coloca os gringos a correr.

Michael, mais uma vez, impõe-se a seus inimigos, mas o filme termina com a imagem dele como um velho solitário. Vitorioso, ou derrotado? O dilema retorna no 3, que Coppola e Puzo realizaram em 1990, colocando no centro da história o escândalo do Banco Ambrosiano, do Vaticano. Michael, cada vez mais legitimado, lava o dinheiro do crime no banco da Igreja. Ele volta às origens, à Sicília, preparando seu sucessor, o sobrinho Vicenzo/Vinny, filho ilegítimo do irmão, Sonny. O Poderodso Chefão Parte III termina com um novo massacre, mas em vez do batizado, na Igreja, como no primeiro filme, a matança ocorre durante a encenação da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni.

Há controvérsia em relação a esse terceiro filme, que não repetiu o sucesso de público e crítica dos anteriores, mas, de certa forma, é o mais pungente de todos. A trama inclui (elucida?) até o que teria sido o assassinato do papa João Paulo I e, no plano mais íntimo, Michael e Kay reaproximam-se porque o filho deles é o diretor da ópera dentro do filme. Coppola manteve sempre o núcleo central de elenco (Al Pacino, Diane Keaton, Robert Duvall, Talia Shire), agregando novos nomes segundo a exigência de cada novo filme. Ele pretendia fazer Parte III com Winona Ryder, mas no último momento ela foi substituída pela filha do diretor, Sofia Coppola, no papel da filha de Michael (e Sofia já havia sido o bebê no batizado do primeiro Chefão). No tiroteio na escadaria da Ópera - ecos de O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein -, a garota é atingida, e morre. Filmar a morte da filha, mesmo que fictícia - e simbólica -, confere uma dimensão particular à tragédia de Parte III. Michael, o velho Pacino, urra feito bicho ferido. Destituído de seu poder, como Vito no primeiro filme, é apenas um velho patético naquele jardim que cheira a morte. Nem todo o poder do mundo preenche o vazio que corrói o coração de um homem. Há algo de fordiano nessa confissão final de derrota.

Na tentativa de atingir o pai, a crítica demoliu a filha. Sofia recebeu as piores críticas jamais atribuídas a uma jovem atriz. Desistiu da carreira frente às câmeras e virou a diretora - autora - que os cinéfilos sabem. A cada um o direito de escolher seu melhor Chefão. O que não cabe dúvida é que os três filmes compõem um bloco de notável coerência, ética e estética. Uma saga como a da família Corleone nunca houve, e nunca haverá. O Poderoso Chefão Parte 2 fez história como única continuação a vencer o Oscar de melhor filme. Pensados conjuntamente, os três filmes se tornam progressivamente mais sombrios, enquanto a corrupção gerada pelo poder resulta em completa degradação moral. Coppola, que iniciara a década de 1970 como um cineasta promissor, fechou-a com a ópera antimilitarista de Apocalypse Now, ou como a 'América' enterrou-se na guerra bilionária do Vietnã - e terminou perdendo para as táticas de guerrilha dos vietcongues. Hoje, sabe-se que Coppola quase foi demitido do primeiro Chefão e, falido, escrevia febrilmente o roteiro de O Grande Gatsaby - que virou filme de Jack Clayton -, enquanto The Godfather não estreava.

O sucesso, que superou toda expectativa, levou a Paramount a fazer-lhe uma oferta irrecusável - Parte 2 -, com direito a participação nos lucros. Ofertas irrecusáveis é o que Don Vito e Don Michael fazem a seus inimigos ao longo dos 547 (175 + 202 + 170) minutos dos três filmes. Coppola ganhou rios de dinheiro com Parte 2 e empatou tudo no seu épico sobre o Vietnã. Iniciou os 80 falido, de novo, mas nunca desistiu de recomeçar - com o vídeo de O Fundo do Coração, de 1982. O gosto pela experimentação levou-o, seis anos mais tarde, a Tucker - Um Homem e Seu Sonho, sobre o inventor que criou o carro do futuro e não conseguiu furar o bloqueio das grandes montadoras. Logo veio Parte III. Como 'autor' foi sempre assombrado pelos espectros do sucesso e do fracasso. Michael, num certo sentido, sempre foi ele.

Os três filmes estão disponíveis no streaming do Telecine e no YouTube.

 

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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', de Coppola, com Marlon Brando no papel principal. Paramount Pictures

Aos 50 anos, um novo ‘O Poderoso Chefão’ na tela

Longa de Francis Ford Coppola volta aos cinemas na quinta-feira com cópia remasterizada

Luiz Zanin Oricchio , Especial para o Estado

Atualizado

Cena do filme 'O Poderoso Chefão', de Coppola, com Marlon Brando no papel principal. Paramount Pictures

O Poderoso Chefão começa no escuro. Ouve-se apenas uma linha melódica, tocada num único instrumento – o tema de Nino Rota escrito para o filme. Em seguida, entra uma voz: “Eu acredito na América”. Um rosto surge na penumbra e começa a contar sua história. A filha sofreu uma tentativa de estupro e foi barbaramente surrada por dois homens. O caso foi ao tribunal, mas os agressores saíram livres. O homem está ali para “pedir justiça”. Durante essa fala, a câmera vai recuando e o interlocutor aparece, de costas.

Ninguém esquece essa abertura de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, que volta aos cinemas na quinta-feira, dia 24, em cópia restaurada, 50 anos após sua estreia. Em 22 de março, estará disponível em plataformas digitais. 

O desenho visual da abertura é magnífico – a fotografia é de um mestre, Gordon Willis. Joga toda a cena na penumbra e revela aos poucos a figura principal do quadro, o capo, Don Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando. É a festa de casamento da filha do “Padrino”. Nesse dia, segundo a tradição siciliana, ele atende a pedidos. 

 

 

O sentido do diálogo entre Corleone e o homem é muito claro. “Por que você não me procurou antes, por que buscou a polícia e a justiça? Porque tinha fé na América. Pois é, nada foi feito, sua filha está no hospital, com o rosto deformado e os malfeitores continuam à solta e assim permanecerão a depender das instituições do país”. Já o Padrinho (lembre que o título original é The Godfather) se encarrega de tudo. Sob as asas do Padrinho, ninguém se sente desguarnecido. Desde que lhe beije a mão e seja leal. E que, eventualmente, no futuro, possa retribuir o favor que agora recebe. 

Ao estrear, em 1972, O Poderoso Chefão foi um choque. A própria frase inicial de Bonasera (Salvatore Corsitto) parece uma ironia, uma vez que, na época do lançamento do filme, pouca gente se atreveria a acreditar de fato na América, um país ainda enterrado na Guerra do Vietnã e em meio a uma fabulosa revolução de costumes que assustava as partes mais conservadoras da população. 

Encantada, a exigente crítica da New Yorker, Pauline Kael, escreve na época da estreia: “É um melodrama popular com raízes nos filmes de gângster da década de 30, mas expressa um novo realismo trágico e é totalmente extraordinário”. 

 

 

O chamado “filme de gângster” floresce nos Estados Unidos durante a década de 1930. Provavelmente, o boom de gênero está associado com a proibição de venda de bebidas alcoólicas, que induziu um espetacular comércio clandestino e fez a criminalidade subir às alturas. Filmes como Inimigo Público (1931), de William Wellman, Alma do Lodo (1931), de Mervyn LeRoy, Scarface, a Vergonha de uma Nação (1932), de Howard Hawks são considerados arquétipos do gênero.

Essas aventuras na época da Proibição repercutem até mais tarde. Foi famosa a série de TV Os Intocáveis (1959-1963), com o justiceiro Elliot Ness interpretado por Robert Stack. Em 1987, Brian De Palma fez o filme de mesmo título, com Kevin Costner no papel de Ness. A obra inclui até mesmo um pastiche da famosa cena da Escadaria de Odessa do clássico soviético O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein.

Mas, nesses casos, o ponto de vista é o da polícia, ou seja, do Estado. Já no típico filme de gângster, o foco é sobre o bandido. Mesmo que ele seja retratado como uma espécie de aberração, um desajustado em contraste com a sociedade sadia, esse protagonismo chegou a incomodar. Era preciso reservar a esses anti-heróis desfechos bem negativos para acomodar a ficção à moral vigente: a morte em combate com os homens da lei, a prisão ou a pena de morte. O crime é um desvio, que altera a órbita normal da sociedade. Uma vez eliminado o criminoso, o mundo volta ao seu eixo. 

Esse gênero preparou a entrada em cena do “film noir”, com a tradução para a tela dos romances de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O protagonista agora é o detetive particular, cujo tipo ideal foi encarnado por Humphrey Bogart. Alguns se tornaram clássicos, como Relíquia Macabra (1941), de John Huston, Até a Vista, Querida (1944), de Edward Dmytryk, À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks. O noir é um gênero ambíguo. O detetive flutua no limite entre a legalidade e a ilegalidade, o certo e o errado. É cético. Pode ter um fundo moral, mas não acredita nas pessoas, e menos ainda nas instituições. 

Num filme de passagem, O Segredo das Joias (1950), de John Huston, a atenção principal se detém sobre o grupo que vai assaltar uma joalheria. Trata-se de uma história de assalto fracassado, que humaniza os criminosos. Suas vidas particulares são retratadas e o desfecho trágico de um deles (Sterling Hayden) desperta a simpatia do público. Sentindo-se perdido, um advogado corrupto, Alonzo Emmerich (Louis Calhern), murmura a frase significativa: “Ora, o crime é apenas uma forma marginal do esforço humano”. 

De modo que, em parte, o caminho para O Poderoso Chefão já fora aberto por seus antecessores. Coppola dá um passo a mais. Partindo do best-seller de Mario Puzo, mescla o realismo a certo tom operístico e melodramático ao retratar o mundo da máfia. Finca seu ponto de observação no interior de uma família. Não de uma “famiglia” mafiosa caricata, mas de uma família qualquer, com seus problemas, grandezas e a soma de alegrias e desgraças que vão compondo uma dinastia, geração após geração. 

Certamente Don Vito é um homem de poder. A relação com os filhos, Michael (Al Pacino), Sonny (James Caan), Fredo (John Cazale) e Connie (Talia Shire), é a de um patriarca à moda siciliana, devotado aos seus, exigente e terno. Como construiu um império, mesmo que do crime, também tem responsabilidades com a sua comunidade. Dá proteção e apoio, exige lealdade total – como se viu naquela primeira cena, com o dono da funerária, Bonasera, que vai pedir vingança pela agressão à filha. 

 

 

Depois da cena inicial, segue-se a festa de casamento de Connie e Carlo (Gianni Russo), sequência que dura bom tempo, com cantos, danças, brindes, comes e bebes. Estamos num ambiente ítalo-americano. Não poderiam faltar a polícia e os paparazzi à porta da mansão. Nem o ator e cantor das multidões Johnny Fontane (Al Martino), figura decalcada em Frank Sinatra, que, em baixa na carreira, também tem um pedido a fazer ao pai da noiva. 

Na parte que segue à festa, veremos uma amostra do lado violento do Don, que, por intermédio do seu consigliere, Tom Hagen (Robert Duvall), precisa convencer um produtor recalcitrante a dar a Fontane o papel num filme que poderá trazê-lo à tona de novo. A frase ficou famosa, “Don Corleone faz uma oferta que o senhor não pode recusar”. Não pode mesmo. O desfecho da “oferta” é brutal.

Isso para dizer que Coppola não pode ser acusado de romantizar o ambiente e os malfeitos da máfia. Algumas cenas de violência, como o assassinato de um dos filhos, são levadas a níveis operísticos. Bem como o primeiro crime de sangue em que Michael se envolve, liquidando a sangue frio, numa cantina, dois inimigos do pai, um gângster rival e um tira corrupto. 

O balanço entre violência e ternura familiar parece tão perfeito que nos deixamos levar por esta obra nada maniqueísta. Se o lado humano figura em primeiro plano, seu caráter criminal não fica para trás. O estilo da filmagem, a mise-en-scène perfeita trabalhando no quadro do cinema narrativo, a música, a intensidade do conjunto, a força operística dos momentos mais agudos, a densidade dos personagens – tudo isso nos conquista.

Nos seduz, mas também deixa espaço para reflexão sobre o que está sendo exposto na tela. Aquele limite tão estreito entre o legal e o ilegal, já presente em filmes de gângsteres mais antigos, e em todo o cinema noir, aqui parece abolido. Por outros meios, Don Corleone conduz os negócios da família como um empresário realista ou um político pragmático. 

É metódico, planejador, arrojado, sabe negociar e conhece seus objetivos. Pode ser cruel ou conciliador. Implacável, porém generoso. É um grande dirigente, o que faz de O Poderoso Chefão uma parábola pouco disfarçada sobre o funcionamento mais geral da sociedade e, em particular, do mundo dos grandes negócios. 

Esse desmascaramento de um mecanismo torna essa obra-prima um filme político como poucos. Esse aspecto, diga-se, irá se acentuar nos Chefões 2 e 3.  

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Marlon Brando, Al Pacino e James Caan. Paramount Pictures

'O Poderoso Chefão' não é só um filme, é um monumento de cinema, diz James Caan

Ator relembra a realização do clássico que completa 50 anos e volta com cópia remasterizada

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , Especial para o Estadão

Atualizado

Marlon Brando, Al Pacino e James Caan. Paramount Pictures

Em 1972, James Caan já tinha quase dez anos de carreira – iniciada com um papel sem crédito em Irma la Douce, de Billy Wilder – e personagens importantes em filmes de grandes diretores como Howard Hawks (El Dorado) e o jovem Francis Ford Coppola. Justamente ele. Com Coppola havia feito Caminhos Mal Traçados/Rain People, um road movie em que dividia a cena com Shirley Knight e Robert Duvall. Fazia Jimmy, um personagem instável. O filme sombrio, e muito bom, é considerado o vestibular do diretor para o seu épico de gângsteres, O Poderoso Chefão, com roteiro dele e de Mario Puzo, autor do romance original, The Godfather

Na composição do elenco, Coppola chamou James Caan para outro personagem instável, mas de recorte diferente – Santino, também chamado de Sonny. Robert Duvall também foi convocado para o papel do conselheiro, Tom Hagen. Eram todos jovens e talentosos. Quando o filme estreou, arrebatando os Oscars de melhor filme, roteiro adaptado e ator (Marlon Brando), o impacto foi grande. “Brando estava numa fase de baixa, era considerado decadente, mas sua criação como Don Vito foi tão espetacular que, imediatamente, ele se tornou de novo o nome mais quente da indústria. Um ator do Método. Foi a inspiração para todos nós. Leo(nardo DiCaprio), Johnny (Depp), que até dirigiu um filme com ele, eu e muitos outros.” 

Seu nome completo é James Langston Edmund Caan, natural de Nova York, onde nasceu em 1940 – há 82 anos. Tornou-se conhecido somente como James Caan. Conversa pelo Zoom com o Estadão, mas, para desapontamento do repórter, a entrevista é só por áudio, sem imagem. Seria bom rever Sonny, 50 anos depois. Para comemorar o cinquentenário, O Poderoso Chefão está voltando às salas de cinema brasileiras nesta quinta, 24. A cópia está estalando de nova e permitirá que toda uma geração que só conhece O Poderoso Chefão do home video e da televisão possa ver o clássico na tela grande.

Não é só um filme, é um monumento de cinema. Como é? “A monument.” “Ah sim, mas há 50 anos ninguém sabia disso. O que sabíamos é que estávamos fazendo um bom filme, reunindo grandes talentos da época.” Música, fotografia, direção de arte, interpretação. Tudo e todos a serviço de uma prodigiosa lição de cinema narrativo. Cinéfilo de carteirinha sabe, mas não custa lembrar um pouco da história. Começa na festa de casamento da filha do Don/Brando. Rapidamente, as cenas mostram a estrutura familiar e a da organização criminosa que Don Vito Corleone controla. Mas ele está velho, quer impor limites à difusão das drogas. Sofre um atentado. No interior da família, digladiam-se duas formas de enfrentar a situação. A impulsividade de Sonny e a visão mais distanciada, fria, de Michael – Al Pacino. 

 

Michael fora destinado pelo pai para ser o orgulho da família. É herói de guerra, não participa dos negócios. Não participava, porque agora ele é que vai comandar a reação. O filme que começa com um casamento encerra-se com um batizado. O cerimonial na igreja é mostrado em paralelo com o banho de sangue que os sicários de Michael Corleone promovem para consolidar o poder dos Corleone. “O filme é sobre crime, mas Mario (Puzo) e Francis (Coppola) preferiam ver a história como sendo de família, e foi assim que o filme foi construído.” Caan lembra-se do clima nas filmagens. “Francis havia estudado o cinema de gângsteres. Mario e ele escreveram o roteiro pensando nos códigos de gênero e nas cenas que pretendiam emular. A Nova Hollywood estava nascendo, mas não tínhamos consciência disso. Do ponto de vista do estúdio – a Paramount –, o filme foi planejado para ser um grande sucesso. Superou toda expectativa. Para nós, os jovens, era como um sonho. Estar ali, contracenando com Brando.” 

“Desde o começo, os diretores e roteiristas criavam para mim papéis de durões e heróis. Francis me levava por outro caminho. Santino aprofunda a linha mais escura do Jimmy de Caminhos Mal Traçados. Jimmy é mais puro, especial. É atingido pela violência do mundo. Santino é o agente dessa violência. Vive e morre por ela. É impulsivo, ardente. Num filme sobre família, ele é o cara mulherengo que se satisfaz fora do casamento. O pai vive perguntando pela mulher e os filhos. Ele diz que tudo bem, mas é tudo bem ao jeito dele.” Dois anos depois, O Poderoso Chefão – Segunda Parte prosseguiu com a saga dos Corleone em dois tempos, contando como o jovem Don Vito, interpretado por Robert De Niro, chegou ao topo da Máfia e, em paralelo, o outro banho de sangue que Michael vai promover, para consolidar seu poder. 

Sangue e violência são ingredientes da trama, mas o tema do primeiro filme é político – a luta pelo poder numa democracia étnica. “Como Santino voltei numa participação sem crédito no segundo filme. Ainda fiz Jardins de Pedra com Francis, sobre a Guerra do Vietnã. Sonny abriu um mundo de possibilidades para mim. Sem ele, não sei se teria feito O Jogador/The Gambler (de Karel Reisz, 1974), que foi um de meus melhores papéis. Intenso, sombrio.” Francis? “Oh, ele foi crescendo. Virou uma lenda nesse negócio. Mas ainda me lembro de nós, naquela estrada – Caminhos Mal Traçados –, que foi o começo de tudo.” Haveria muito para conversar com James Caan. O escritor de Misery, à mercê da Louca Obsessão – título brasileiro – da enfermeira Kathy Bates no suspense de Rob Reiner, o patriarca de Dogville, de Lars Von TrierDepois da anunciada última pergunta, o repórter arrisca. Mais uma? “Shoot”, diz. 

É sobre Cinderella Liberty/Licença para Amar Até Meia-Noite, que fez em 1973, logo após o primeiro Chefão. O filme é sobre um marinheiro em terra firme. Baggs Jr. envolve-se com a prostituta vivida por Marsha Mason, que ganhou no jogo, numa noite de bebedeira. A licença de Baggs lhe permite ficar com ela só até a meia-noite. É a liberdade de Cinderela, do título. Mark Rydell é o diretor. “Marsha era e continua sendo uma lady.” Naquele mesmo ano, ela se casou com o dramaturgo Neil Simon, que escreveu belos papéis para ela. Os críticos, em geral, colocam o romântico Cinderella Liberty entre os seus melhores filmes. Ele concorda. “Interpretei aquele marinheiro como se fosse o meu Billy Budd, entende?” Com certeza – Herman Melville, o marinheiro belo e puro acusado de incitar um motim. A inocência corrompida pelo poder das palavras. Há um pouco disso no Michael de O Poderoso Chefão

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