"O Poder Vai Dançar" aproxima Welles e Rivera

Em O Poder Vai Dançar, que estréia nesta sexta-feira, Tim Robbins aproxima dois acontecimentos reais dos anos 30 nos Estados Unidos. Um: o mexicano Diego Rivera pinta um controverso mural no Rockfeller Center, em Nova York. Dois: Orson Wellestenta montar o musical The Cradle Will Rock num teatro daBroadway. Os dois fatos são verídicos e ocorreram, mas não aomesmo tempo.A simultaneidade é uma liberdade poética de Robbins,bastante apropriada, aliás, porque se os fatos realmente nãoocorreram na mesma época, mereciam ter ocorrido. São metáforasperfeitas do mesmo clima social, das mesmas contradições, domesmo choque de mentalidades no interior de um mesmo país. Nocaso dos EUA dos anos 30, durante a depressão, o conflito entrea esquerda e a direita do país.Rivera (Ruben Blades) já tinha deixado o PartidoComunista mexicano, mas nem por isso renunciara às suas idéias.Pelo contrário, em sua temporada nos Estados Unidos queriamostrar que continuava sendo um revolucionário funcional.Contratado pelo "inimigo" Nelson Rockfeller (John Cusak),resolve afrontá-lo em seu próprio território e, entre as figurasdo mural, pinta um vistoso retrato de Lenin. A teimosia doartista é paga com a destruição da obra.A trama paralela é mais complexa. Orson Welles (AngusMacfadyen) tenta montar o musical com a ajuda de fundosfederais. Mas o auxílio é cortado quando o conteúdo esquerdistada peça é percebido. Pior ainda, os atores ficam impedidos deprosseguir a representação, sob pena de serem suspensos dosindicato, o que os incapacitaria de exercer a profissão.Tim Robbins e sua mulher Susan Sarandon (que no filmefaz o papel de Marguerita Sarfatti, ex-amante de Mussolini)formam o casal engajado de Hollywood. Estão sempre juntos nasboas causas. E esta não poderia ser melhor, nem mais atual,porque O Poder Vai Dançar fala, no fundo, da intolerânciacom minorias, do clima belicoso que se instaura na sociedade nasépocas de crise, do sofrimento da arraia-miúda com as decisõestomadas pela turma da primeira classe.O problema do filme não está nem na escolha do tema enem do elenco, milionário, que empregou seus melhores esforçospara dar-lhe vida. Está, justamente, na excessiva abrangência dahistória, e no excesso de tipos que percorrem a tela num temporestrito. O Poder Vai Dançar tem mais personagens que umromance russo e Robbins, aparentemente, lutou com idéias demais.No caso, profusão deixou de rimar com concisão. Assim, ficadifícil seguir tantas tramas paralelas que confluem para ashistórias principais que estão sendo contadas. Além de Welles,entram em cena William Randolph Hearst (John Carpenter) e suaamante Marion Davies (Gretchen Mol), a mulher de Rivera, FridaKhalo (Cornia Katt), e Olive Stanton (Emily Watson), umacandidata a atriz que sai direto da fila da sopa para o palco daBroadway.Disciplina - Tanta gente em cena, e com tantasmotivações contrárias, exigiriam uma disciplina férrea e umaconcentração de monge budista, que superaram de muito as boasintenções de Robbins. O resultado é um filme confuso, emespecial no início, mas que se ajusta pouco a pouco e conseguecorrer sobre o trilho na parte final.E, de fato, os equívocos do início são esquecidos quandotudo se encaminha para a grande seqüência do filme. The CradleWill Rock é uma peça ferina, que fala de uma fictícia Cidadedo Aço, onde os operários são explorados pelos barões daindústria. No entorno, uma sociedade carcomida pela corrupção emtodos os níveis. Não era tema dos mais propícios em um país quecomeçava a se recuperar de uma depressão econômica, masostentava ainda níveis alarmantes de desemprego.Assim, boicotada pela retirada do patrocínio, ameaçadapelos sindicatos e pela mudança súbita do teatro onde estrearia,a peça parecia condenada à morte. No entanto, criou-se umaexpectativa contrária e uma multidão afluiu para o Venice, ummodesto teatro alternativo. Welles fez uma preleção inicial,explicou a situação e disse que a peça seria encenada unicamentepelo próprio autor, Marc Bliztstein (Hank Azaria), pois osatores estavam impedidos. Quando Bliztstein começa a tocar nopiano a primeira canção, Olive não resiste e, afrontando osindicato, sobe ao palco e assume seu papel, como a prostitutaMoll. É seguida por Aldo Silvano (John Turturro), que lhe dá aréplica e sucessivamente pelos outros atores. Um ato dedesobediência civil, bonito, pungente, talvez inútil, massignificativo e necessário, como são muitas vezes as ações doshomens.Só essa seqüência já vale o filme. Mas ele éinteressante também por outro motivo. Não é sempre que um talnúmero de astros e estrelas de Hollywood decide se envolver emum projeto que nada tem de comercial. Isso acontece em algunsfilmes de Robert Altman, por exemplo, ou de Woody Allen. Équando atores e atrizes, já milionários, e cansados do ramerrãocomercial, decidem fazer algum tipo de cinema que preste, mesmonão rendendo dinheiro imediato. Essa atitude tem a verexatamente com o tema central do filme, a necessidade deresistência, mesmo quando sem esperança.

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