Divulgação
Divulgação

'O Periscópio' cria vertiginosa teia de provocações estéticas

Filme de Kiko Goifman assinala mais uma parceria do diretor com o roteirista e agora ator Jean-Claude Bernardet

Luiz Carlos Merten / Rio, O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2013 | 19h51

Logo na saída da sala de cinema montada no Pavilhão do Festival, no Píer Mauá – naquilo que será o Porto Maravilha –, um painel chama a atenção. O que é o cinema? Muita gente opina. “O cinema não é para entender; é para fazer e sonhar.” A frase de Wim Wenders ajusta-se com perfeição a O Periscópio. O novo longa de Kiko Goifman assinala mais uma parceria do diretor com o roteirista e agora ator Jean-Claude Bernardet. Crítico influente, Bernardet está em três filmes na seleção deste ano. Explicou que a idade e a cegueira acirraram seu desejo de mudar.

Os amigos o chamaram e ele começou a aparecer frente às câmeras. Já o fazia, mas agora mais. Depois de todos esses anos, ele ainda carrega o sotaque francês. Sorri quando o repórter diz que O Periscópio é seu ‘bac’ (vestibular), e que ele passou. O Bernardet que contracena com João Miguel diante da câmera de Kiko Goifman é um ator de verdade, e intenso. O filme nasceu como uma provocação – de Bernardet para Goifman, de ambos para o público. Bernardet armou 60 situações que entregou a Kiko. O diretor trabalhou em cima desse material. Criou um roteiro pouco convencional. Ao contrário de Alfred Hitchcock, que dizia que filmar era passar o roteiro pela câmera, Goifman minimiza esse deus-roteiro. É um ponto de partida, mas não para improvisação. O Periscópio não poderia ser mais elaborado.

Dois homens num apartamento. Uma relação de poder e tensão. Surge o periscópio. Bernardet o chama de ‘a coisa’, no feminino. Para João Miguel, é ‘o troço’, masculino. A coisa – o troço – é um ser vivo. Tem um olho. Baba – e abriga lá dentro uma cabra. O que significa? O cinema não é para entender, é para sonhar. Há algo de Samuel Beckett nessa ‘história’ que não é bem história. Os homens, no limite, chegam a um entendimento. Aceitam suas alteridades.

Houve outro exercício de provocação na segunda à noite, não mais na Première Brasil. O festival mostrou o novo Kim Ki-duk, Moebius, que passou fora de concurso em Veneza. Os primeiros 15 ou 20 minutos são vertiginosos. Um casal briga diante do filho, e é uma briga violenta. O pai parte para um encontro com a amante, o filho o segue e vê o pai fazer sexo no carro. A mãe também vê e, de volta à casa, ela, armada de faca, tenta castrar o pai. Não consegue, mas se vinga amputando o pênis do filho, que anteriormente se masturbara. E isso é só o começo. OK, o cinema não é para entender, mas como se conta uma história dessas e, no limite, tem de haver um significado para tanto coito interrompido – o orgasmo, sem pênis, se faz por meio da flagelação. Pietà, Senhor. Como em seu longa anterior, Ki-duk filma uma via-crúcis em busca da remissão. Não é para todos os gostos, mas é corajoso. E poderoso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.