FOTOS MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SP
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'O Pássaro Pintado' faz um retrato cruel da Segunda Guerra

Polêmico, o filme tem cenas fortes de tortura e estupro; no Festival de Veneza, muita gente não conseguiu ver até o fim

Mariane Morisawa   ESPECIAL PARA O ESTADO / VENEZA, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 07h03

O público que frequenta festivais de cinemas está acostumado a ver filmes de temáticas e formatos difíceis, em preto e branco e com quase três horas de duração. Mesmo assim, O Pássaro Pintado, que passou na competição do último Festival de Veneza, foi demais para certos espectadores, que não conseguiram ficar até o final. A audiência da Mostra vai ter a chance de testar seus limites a partir deste domingo, 20, quando o longa dirigido pelo checo Václav Marhoul tem sua primeira exibição.

O Pássaro Pintado é inspirado no controverso livro de 1965 do polonês Jerzy Kosinski, que vendeu a história como sendo uma autobiografia, mas depois foi desmascarado. “Me perguntam muito se eu sabia sobre Kosinski, e eu respondo: E daí?”, disse o diretor em entrevista ao Estado, em Veneza. “Não me interessa. Kosinski é Kosinski, e o livro é o livro. É ficção.” 

Na história, um menino de pele morena é chamado por vezes de “cigano”, por vezes de “judeu”, e tenta sobreviver em meio ao caos da Segunda Guerra num país não especificado na Europa Central. Ele foi deixado pelos pais com uma tia, que morre. A partir daí, vai de casa em casa, sofrendo e sendo testemunha de diferentes tipos de maus-tratos, de espancamentos a estupros, passando por deportação de judeus para campos de concentração. 

Marhoul leu o livro aos 44 anos de idade e ficou impactado. “Entendo quem não consegue chegar ao fim, mas, para mim, é uma tocante história de um menininho que simboliza toda a humanidade e que propõe questões importantes, mas dolorosas”, disse. “Por exemplo: Por que as pessoas fazem essas coisas? Por que Deus criou a humanidade? Por que alguém que vai à Igreja todo domingo comete atos horríveis? Por que as pessoas têm tanto medo de quem é diferente? Eu fiz o filme para procurar respostas, porque vou ser sincero: faço filmes para mim mesmo.”

O cineasta admitiu que pensou muito no que seus antepassados enfrentaram durante aquele período. “Sou um checo típico, o que significa que sou parcialmente eslavo, parcialmente alemão e parcialmente judeu”, disse. “Parte da minha família era judia. Digo era porque 18 deles foram mortos em poucas horas no campo de extermínio de Treblinka”, contou, sem esconder as lágrimas. Várias das cenas foram difíceis de filmar. A mais terrível foi quando ele colocou 120 figurantes num vagão de trem. “Como gado. Comecei a chorar e não consegui filmar por uma hora e meia. Eu vi a minha família ali.”

Para ele, o trauma ficou entranhado no tecido social da região. “Li muito antes de fazer este filme, principalmente os livros do historiador Timothy Snyder. E percebi que O Pássaro Pintado é um passeio no parque em comparação com a realidade. Porque tivemos os nazistas, mas tivemos Stalin também. O regime comunista foi puro mal.” Ele também citou o controverso Experimento de Aprisionamento de Stanford, em que o professor Philip Zimbardo pediu para alunos imaginarem estar numa prisão e os dividiu entre detentos e carcereiros. Segundo a pesquisa, os “carcereiros” logo assumiram o papel de abusadores. Hoje há sérias dúvidas sobre a validade da pesquisa. 

Marhoul negou categoricamente que seu filme seja violento. “Rodei com muita decência. Não sou Quentin Tarantino, não mostrei os detalhes”, disse. “Você vê o estupro de uma personagem com a câmera nas costas dela. As pessoas estão saindo do cinema não porque eu tenha mostrado violência explícita, mas porque elas têm a violência em seus cérebros.” 

Para ele, quase nenhum personagem de O Pássaro Pintado é violento ou maltrata o menino, a não ser um. Mas o filme, muitas vezes, parece um Amazing Race de tortura. Como isso afeta ou não o espectador vai da sensibilidade de cada um, lógico. Václav Marhoul, que disse ter visitado países como Ruanda, Síria e Afeganistão e visto de perto o sofrimento de crianças, volta à realidade para defender seu ponto de vista cinematográfico. “Num dos livros de Timothy Snyder, quando ele fala da fome imposta aos ucranianos por Stalin, descreve feiras em que as pessoas vendiam pedaços de crianças. Isso é fato. É a verdade. E aconteceu.” 

 

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