‘O Passageiro’ levanta questões que ultrapassam sua eficiência

‘O Passageiro’ levanta questões que ultrapassam sua eficiência

Novo thriller com Liam Neeson e Vera Farmiga usa temática mais hollywoodiana de todas: a segunda chance

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Março 2018 | 03h00

Seu primeiro papel como protagonistas foi um portentoso fracasso – em Darkman, de Sam Raimi, em 1990. Hollywood iniciava uma nova trilha. No ano anterior, o sucesso de Batman, de Tim Burton, com Michael Keaton e Jack Nicholson, chamara a atenção da indústria para as HQs de super-heróis. Mas não foi o herói de Vingança sem Rosto que fez a fortuna de Liam Neeson, nem de Raimi, que continuou ligado à série Uma Noite Alucinante, até iniciar sua trilogia do Homem-Aranha, em 2002. O gigante irlandês Neeson – quase 2 metros de altura – também seguiu adiante e foi indicado para o Oscar pelo papel em A Lista de Schindler, de Steven Spielberg.

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Ator ele era, e dos bons, mas foi preciso se tornar astro de ação para atingir o Olimpo de Hollywood. Ocorreu em 2008, com ele já aos 55 anos fazendo o primeiro Busca Implacável. Desde então, Neeson virou sinônimo de adrenalina, com o acréscimo de que tem dado sorte, embora essa talvez não seja a palavra. Como muitos filmes de ação contemporâneos, os dele nem sempre primam pela verossimilhança, mas oferecem dramas sólidos que o talento do ator torna críveis. Um bom exemplo é O Passageiro, em cartaz. É seu quarto filme com o diretor espanhol Jaume Collet-Serra, que foi cooptado por Hollywood após grandes sucessos de público em seu país. 

Fizeram Desconhecido, Sem Escalas e Noite sem Fim – o melhor de todos – para chegar agora a O Passageiro. Neeson faz corretor de seguros acuado. Aos 65 anos, idade do astro, acaba de perder o emprego, e isso num momento em que precisa desesperadamente de dinheiro para pagar a faculdade do filho adolescente. O filme começa mostrando a rotina de Neeson. Trabalho, casa, trem. Nesse dia, da demissão, ele é abordado por uma mulher que lhe propõe um ‘servicinho’. Neeson só terá de identificar um passageiro para ganhar... US$ 100 mil! É muito dinheiro, que vai ajudá-lo a sair da crise, mas logo Neeson dá-se conta de que tem algo errado. Aceitar o compromisso significa condenar essa pessoa à morte.

E as mortes, por sinal, vão se sucedendo no trem, numa caçada infernal, porque a mulher misteriosa, Vera Farmiga, está monitorando Neeson pelo celular e já montou um esquema que elimina pessoas dentro e fora do trem. No limite, Neeson descobre que o/a caçado/a possui evidências de um esquema de corrupção envolvendo políticos e policiais federais. A caçada se intensifica e não dá para confiar em ninguém. O FBI entra em cena, e assim como já é monitorado por Vera, Neeson passa a ser monitorado por um ‘fed’ que se supõe pertencer ao esquema corrupto. Os estranhos que se encontram no trem remetem a um clássico de Alfred Hitchcock, justamente Strangers on the Train, de 1951, batizado como Pacto Sinistro no Brasil.

Collet-Serra, prestes a completar 44 anos – dia 23 –, já era cinéfilo em seus filmes (de gênero) na Espanha, incluindo o sinistro A Órfã. Em O Passageiro, refere-se não apenas ao mestre do suspense, mas também a um clássico de Stanley Kubrick, mesmo que o grande diretor não tivesse muito apreço por Spartacus, cuja autoria creditava ao roteirista Dalton Trumbo. Há uma cena chave de Spartacus que ele praticamente repete, mas é bom não antecipar qual é (olha o spoiler). O tema não poderia ser mais hollywoodiano, a segunda chance. Mesmo na pior, Neeson tem de agir com a nobreza dos heróis. Sua consciência, e o figurino de Hollywood, o exigem. Para o crime, ele é, hitchcockianamente, o homem errado.

Essa questão do gesto nobre merece até uma fala que desencadeia o desfecho, provocando reviravoltas na trama. Surpresa, surpresa. Mas ainda há um derradeiro aspecto a considerar nessa história toda. Polícia Federal foi um dos poucos filmes brasileiros que, no ano passado, ultrapassou 1 milhão de espectadores. Não é um filme para o mercado internacional, e no Brasil foi execrado pela maioria da crítica por motivos, digamos, ideológicos, com seu foco na Lava-Jato. Poderia ter sido igualmente pelos estéticos. Nossos ‘feds’ são menos interessantes na tela pelo simples fato de que os ‘made in U.S.A.’ são os verdadeiros. Basta comparar Polícia Federal, o filme, com O Passageiro. Collet-Serra e Liam Neeson, dois ‘estrangeiros’ que seguem uma tradição, são mega-competentes no que fazem.

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