Marcos de Paula/ Estadão
Marcos de Paula/ Estadão

O pai coragem

Sucesso dos anos 1990, 'Confissões de Adolescente' estreia nos cinemas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2014 | 02h06

Em 2014, completam-se 20 anos da série Confissões de Adolescente. Tudo começou com o diário de adolescente de Maria Mariana, filha de Domingos de Oliveira, que seu pai a incentivou a escrever. O diário virou best-seller, série de TV (na Cultura). Chega agora ao cinema, com direção de Daniel Filho e apoio da Globo Filmes. Dá para ouvir alguém aí do fundo pensando em voz alta, que deve ser um Malhação na tela grande. Não é - ou melhor, Confissões de Adolescente, que estreia na sexta-feira em cerca de 400 salas, é o que Malhação poderia ser, se a censura do horário não limitasse a abordagem e permitisse um olhar mais franco e aberto sobre o comportamento, sexual inclusive (e principalmente), dos jovens.

Matheus Souza costuma ser chamado de Woody Allen teen. Exageros à parte, ele tem uma mirada certeira para a juventude, à qual não deixa de pertencer (um pouco como irmão mais velho; tem 25 anos). Matheus já havia atualizado a peça de Maria Mariana em sua remontagem recente. Foi chamado por Daniel Filho para escrever o roteiro. O diretor de Se Eu Fosse Você 1 e 2 e outros grandes sucessos do cinema brasileiro admite que precisava de uma voz jovem com ele, para captar a embocadura da garotada. Matheus Brinca: "Escrevi um roteiro com centenas de páginas. Era O Senhor dos Anéis teen".

Embora considere decisivo o aporte de Matheus Souza, Daniel Filho sempre soube que não poderia filmar aquele roteiro, tal qual era. Homem de cinema e TV, do audiovisual, se há uma coisa de que ele se gaba é de ter a noção de timing. Não poderia ser de outra maneira. Só com seus filmes da Retomada ele já chegou aos 25 milhões de espectadores. Somando os anteriores, "passei dos 40". Milhões, naturalmente. O Sr. Bilheteria tem de ter um feeling para o gosto e a sensibilidade do público. Imagine - seu fracasso de público, A Partilha, com um milhão de espectadores, já seria o número de sonho de muito produtor e diretor. Mas enfim...

Daniel Filho tem estado ligado a Confissões de Adolescente desde o início. A transformação do diário em seriado, nos moldes americanos, foi dele. Hoje, conta: "Perdi dinheiro com o Confissões, ninguém acredita. Aí surgiu a possibilidade de fazer o filme numa parceria com os franceses, mas em 1994 era inviável. Vendi os direitos, o produtor não conseguiu desenvolver o projeto e o Confissões terminou voltando para mim". Ele conta que precisou se reciclar. "Fizemos um trabalho muito bacana de seleção de elenco. Essa série é mítica, todo mundo queria fazer Confissões de Adolescente, até as veteranas que passaram pelo papel no teatro. Mas tinha um problema. A minha primeira vez foi há décadas, muito diferente dessa garotada. Eu nunca tive o menor pudor de perguntar a meus atores jovens como e quando foi a primeira vez deles. O filme não podia transmitir o olhar de um velho sobre os jovens."

Na sua fase da Retomada, Daniel Filho tem trabalhado muito com Chris D'Amato, mas é a primeira vez que ele lhe dá codireção. Seria pedante para um diretor comercial falar em coautoria, embora Daniel, nesta quadra da vida, só faz as coisas de que gosta, e no seu ritmo. Sua explicação para a codireção é prosaica: "Sou muito preguiçoso. Não consigo funcionar de manhã cedo, e o filme tinha muitas (cenas) matinais. Dizia pra Chris: "Assume! Funciono melhor à tarde e à noite", ele diz. Apesar da divisão de funções, não tem nada no filme que tenha escapado ao seu crivo e o elenco jovem é unânime ao dizer que Daniel é 'incrível'. "Ele sabe tirar da gente coisas que a gente nem sabe que tem para dar", explica Sophia Abrahão.

É a intérprete de Tina. O filme segue contando a história de quatro irmãs que moram com o pai viúvo - uma, na verdade, já se mandou, mas continua se abastecendo nas prateleiras paternas. O conceito de família sempre foi importante na série, mas ficou mais importante ainda. O pai, Tato Gabus Mendes - Luis Gustavo, que fez o papel na TV, hoje seria o avô -, está sentindo a crise e não tem como manter o padrão da vida familiar. A primeira crise não envolve namorados nem escola. Papai anuncia que não tem mais como pagar apartamento, condomínio. Vai ser preciso se mudar. As garotas fazem oferecimentos, prometem economizar e, assim, antes que o espectador se dê conta o Brasil real já entrou na história.

O (co)diretor explica: "Me perguntam muito se o filme é uma comédia. Mas eu vou dizer - é um drama? O filme reflete a vida como ela é na classe média. E, como tal, tem de abordar a família. É como o melodrama. A matriz do melodrama é o velho Mãe Redentora, dos anos 1930. Confissões é sobre a família. Tem humor, tem drama, tem melodrama". A história tem sexo, tem bullying, tem amor verdadeiro. Há uma mudança sutil no método de Daniel, mas pouca gente vai notar. Ele abriu mão na maioria das cenas do take one, embora, tanto quanto possível, voltasse a ele, depois de filmar três ou quatro vezes os planos.

"Com um elenco jovem e muita trama, as chances de erro são grandes, mas pergunta pra Chris - ela é mãezona, vai dizer que a turma toda foi maravilhosa." E o que Daniel vai fazer agora? "Tenho um monte de projetos, como produtor e diretor. E é certo - em 2014 faço Se Eu Fosse Você 3. Arranjei o click para deflagrar a história e estamos trabalhando numa parceria externa."

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