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'O Outro Lado do Paraíso' mostra o golpe de 1964 visto pelo olhar infantil

Escritor Luiz Fernando Emediato e o diretor André Ristum contam como foi fazer o longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2016 | 03h00

Não, não e não. Quando foi abordado para vender os direitos de O Outro Lado do Paraíso, a primeira reação do jornalista e escritor Luiz Fernando Emediato foi negar. “A novela é muito autobiográfica, não colocava fé no cinema nacional nem que um diretor, não importa quem fosse, pudesse dar conta de algo tão íntimo.” Emediato escreveu seu texto de um jato, em 1981. Totalmente entregue ao jornalismo, em São Paulo – no Estado –, distanciara-se da família, sem brigar. E aí, num único fim de semana, começando no sábado pela manhã e terminando no domingo à noite, escreveu o texto – “Um visceral acerto de contas com o passado.”

Como entregar a outro o que era tão pessoal? O produtor Nilson Rodrigues insistiu, Emediato impôs condições. Queria ter controle do roteiro, escolher o diretor, participar do set, exigiu até o final cut. “Ele me deu tudo, mas deveria ter desconfiado”, diz Emediato, rindo. Certas coisas ele até fez – opinar na escolha do diretor André Ristum, ir ao set –, mas o filme foi tomando outra forma. Uma coisa permaneceu, e foi sempre o desacordo entre o produtor e o diretor. “Em Gramado, no ano passado, surgiu o tema da narração em off e eu até brinquei, dizendo que, se surgisse um abaixo-assinado para suprimir o off de O Outro Lado do Paraíso, seria o primeiro o assinar.” Depois de muita briga, a um mês e pouco da estreia, Ristum finalmente convenceu Emediato e cortou cinco offs. Manteve a narração da abertura e do fim, mas o filme que chega aos cinemas está um pouco diferente daquele que passou no Festival de Gramado e na Mostra.

Em filmes como o curta De Glauber para Jirges e o longa Meu País, André Ristum tratou de relações familiares. Ninguém vive impunemente a experiência de ter tido dois pais. O biológico, Jirges Ristum, amigo de Glauber Rocha, morreu cedo. André foi criado por Ivan Isola, com quem desenvolveu uma relação muito forte. O Outro Lado do Paraíso é autobiográfico do escritor, não do diretor. O pai de Emediato, atraído pelo novo Brasil que se desenhava a partir da inauguração de Brasília, mudou-se com a família para o Planalto Central. A eclosão do golpe cívico-militar frustrou seus planos. O filme cobre esse período. “Tem gente que reclama que o fundo político é muito tênue. Acham superficial, mas também é assim no livro”, esclarece o escritor.

O pai, a família, o golpe – tudo é visto pelo olhar do garoto. O Outro Lado do Paraíso é certamente um filme bem-feito, cuidado, mas se ressente, em comparação aos anteriores do diretor, da ausência de genuína emoção. Consciente de que o pai da história não é o dele, Ristum colocou no filme sua técnica – a expertise –, mas não muito mais que isso. O diretor arrisca – “Revê o filme. Talvez tirando parte do off, que tinha muito a marca do Emediato, eu tenha conseguido agora imprimir um pouco mais do meu DNA.” O diretor conversou com o repórter na manhã de quinta, 2, pouco antes de ele sair de casa para visitar prováveis locações do próximo filme, que espera começar a rodar em julho.

Voz do Silêncio é sobre as histórias cruzadas de oito personagens na cidade grande. “Esse vai ter bem a minha cara, porque escrevo, dirijo e até coproduzo”, conta Ristum. Emediato colocou dinheiro de sua editora (a Objetiva) em O Outro Lado do Paraíso. Mordido pelo bichinho do cinema, tem um acordo para fazer até cinco filmes com a produtora dos irmãos Gullane. E está de volta à literatura. Escreve um romance sobre os bastidores do poder e do dinheiro que conheceu como jornalista. Sexo, drogas e rock’n’roll em Brasília.

 

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