O ótimo <i>Serras da Desordem</i>, no Festival É Tudo Verdade

Há um grande filme em exibição nesta quinta-feira, 29, no Festival É Tudo Verdade. E há outro que se tornou objeto de culto, desde que dividiu (com Anjos do Sol, de Rudi Lageman) o Kikito de melhor filme em Gramado, no ano passado. O grande filme é Cortina de Açúcar (El Telón de Azucar), que integrou umas das seções paralelas do Festival de Berlim, em fevereiro. O cultuado é Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, que ainda nem estreou, formalmente, e já ganhou o prêmio de melhor filme brasileiro do ano passado, outorgado pela crítica que se auto-intitula ?independente?. Serras da Desordem comporta uma curiosa comparação com Santiago, de João Moreira Salles (quinta, CineSesc, às 23 horas). Santiago é um documentário construído nas bordas da ficção. Serras da Desordem é uma ficção nas bordas do documentário, mas pode ser o contrário, pois ambos trafegam entre os dois limites. Mas possuem um elo muito forte. João Moreira Salles usa o mordomo da casa de seu pai para falar dele e de suas concepções de cinema - do que seja, ou como seja, construir um documentário. Andrea Tonacci usa seu índio para também falar de si e de sua concepção de mundo (e cinema). O filme de Andrea Tonacci começa como Avaeté, a Semente da Violência, de Zelito Viana, de 1985. Ambos partem de um massacre de índios. O de Zelito fica obcecado pela vingança. O de Tonacci, interpretado pelo próprio Carapiru, que reconstitui sua odisséia diante da câmera, vaga por este Brasil imenso, tentando voltar às origens. Não entendemos o que ele fala e muitos espectadores provavelmente gostariam de saber especialmente o que ele diz na última cena, a do avião. O próprio Tonacci afirma desconhecer o que disse Carapiru. Não importa, de qualquer maneira. O tema de Serras da Desordem é o estranhamento (e o sentimento de estar isolado) do autor. Seu filme não carrega ?desordem? impunemente no título. Tonacci quer falar da desordem do mundo e do próprio cinema. A rigor, Serras da Desordem seria (ou é) um filme irregular, que se constrói por meio de diferentes técnicas e estilos, até conflitantes. Tonacci surgiu no cinema marginal com um filme, este sim maravilhoso, além de cultuado, Bang-Bang. Seu ideal não é o cinema narrativo, mas, se ele é ousado e radical, não se furta a usar o óbvio e até a recorrer à linguagem da TV e do clipe. Seriam recursos irônicos, se houvesse humor, o que não é o caso. O sujeito que finge disparar quando entra na terra dos índios é uma obviedade para que até os iletrados captem a ?mensagem?. Usar o Jornal Nacional para contar a história do protagonista pode ser outra - ou um modo inteligente de introduzir narração clássica numa estrutura que se pretende um tanto caótica, para expressar a desordem do País e do mundo. A montagem que resume a história do Brasil parece clipe, ou extra num DVD. Contextualiza, mas poderia ser retirada sem prejuízo da ?história?. Desordem e testemunho Serras da Desordem é desequilibrado, mas é esse desequilíbrio que parece interessante, pois Tonacci o usa para refletir a desordem que o incomoda. O índio está ali, o tempo todo, mas é um pouco uma marionete do diretor, que não se interessa tanto pelo que ele diz, já que não se preocupa em explicitar a fala para o público - e nisto está, de novo, próximo de João Moreira Salles, que também corta a palavra de Santiago em seu documentário. Carapiru, no filme como deve ter sido na vida, é tutelado por todo mundo, incluindo o diretor. Até que ponto é tudo verdade?. Vejamos Cortina de Açúcar, um grande exemplo de documentário de testemunho. Camila Guzmán Urzúa é filha do diretor chileno Patricio Guzmán. Quando houve o golpe no Chile, a família se asilou em Cuba. Camila agora vai ao lugar de sua infância, à escola que freqüentou em Havana, reencontra colegas - alguns, apenas, porque muitos, por causa da situação cubana, estão espalhados pelo mundo. Seu filme comporta uma boa dose de crítica ao regime de Fidel Castro. Estão lá as faltas de oportunidades, as famílias divididas, as restrições à liberdade individual, o empobrecimento progressivo decorrente do boicote liderado pelos EUA. Seria possível ver em Cortina de Açúcar a confissão de um fracasso. A geração de Camila está dispersa, como a de seu pai, que teve de deixar o Chile. E, no entanto, o que ela diz é emocionante. Na revolução, na escola, na família, o que Camila aprendeu em Cuba independe agora de fronteiras. É caráter, como ter caráter neste mundo que, já vimos antes, está em desordem. Muitos cubanos odeiam Fidel e fogem para Miami. Outros o idolatram e, malgrado as dificuldades, querem ficar. E existem a força e a vitalidade de uma juventude cubana que usa a música para se expressar, exatamente como os jovens na periferia das grandes cidades brasileiras. Cortina de Açúcar desafia as teses simplistas sobre Cuba. E tem a beleza da forma, a sinceridade de uma narrativa confessional, na primeira pessoa. É um grande e comovente filme político. Serras da Desordem. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149. Amanhã, 20 h Cortina de Açúcar. CCSP. Rua Vergueiro, 1.000. Sexta-feira, 20 h, e sáb., 14 h. Grátis

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