Todd Wawrychuk/A.M.P.A.S./Handout via REUTERS
Todd Wawrychuk/A.M.P.A.S./Handout via REUTERS

O Oscar está quebrado. Veja como consertá-lo

Depois que a última cerimônia abalou a reputação e as avaliações do Oscar, aqui vão quatro coisas que a academia deve fazer para consertar as coisas antes do espetáculo do ano que vem

Kyle Buchanan, The New York Times

10 de dezembro de 2021 | 15h00

Seu cliente estava vivendo uma ótima noite. E por isso ele deveria estar emocionado. Mas, na noite do último domingo de abril, enquanto a terrível cerimônia do Oscar deste ano continuava murchando a olhos vistos, um importante empresário de Hollywood me mandou uma mensagem de texto sobre o espetáculo “para lá de terrível”. Ele estava bem preocupado: “O país inteiro desligou a TV”.

Mais tarde, quando a cerimônia entrou num ato final ainda pior, que trouxe uma comédia sem graça e uma revelação de melhor ator malfeita, recebi outra mensagem dele: “Isso pode matar o Oscar. Está ruim demais”.

As resenhas do programa foram quase tão contundentes quanto esses comentários e os números divulgados no dia seguinte soaram sombrios: o Oscar caíra mais de 50% em relação ao ano anterior, atraindo pouco menos de 10 milhões de pessoas, o menor índice já registrado desde que começaram as medições.



Fiquei pensando bastante nessa queda nas avaliações (e naquelas mensagens de mau agouro) nos meses que se seguiram, enquanto se iniciava uma nova temporada de premiações. Agora se vê muita empolgação em Hollywood, já que estreias e premiações podem voltar a se realizar presencialmente e os filmes que disputam os prêmios parecem muito maiores. Mas, por trás dos sorrisos sem máscaras, detecto uma certa ansiedade, como se houvesse uma pergunta que todo mundo ainda está muito nervoso para responder: e se tudo isso levar a um Oscar que ninguém vai assistir?

Depois que a última cerimônia abalou a reputação e as avaliações do Oscar, aqui vão quatro coisas que a academia deve fazer para consertar as coisas antes do espetáculo do ano que vem.


 

Contrate um anfitrião

As últimas três cerimônias do Oscar aconteceram sem mestre de cerimônias, o que continua parecendo uma oportunidade perdida. O apresentador certo pode ajudar a guiar os espectadores e proporcionar momentos memoráveis e viralizáveis: parte do motivo pelo qual o Globo de Ouro costumava ganhar do Oscar é que sua cerimônia promove apresentadores animados como Ricky Gervais e a dupla de craques Tina Fey e Amy Poehler.

Apresentar o Oscar costumava ser um dos trabalhos mais prestigiosos de Hollywood, mas, na última década, a cerimônia muitas vezes se atrapalhou com esse privilégio: houve o desastre de James Franco e Anne Hathaway (que poderia ter funcionado com um roteiro mais aguçado e um parceiro mais engajado para Hathaway), performances bajuladoras de Seth MacFarlane e Neil Patrick Harris e duas passagens consecutivas de um desinteressado Jimmy Kimmel. Desde 2018, quando Kevin Hart saiu depois de se recusar a pedir desculpas por piadas anti-gays, a cerimônia decidiu dispensar totalmente o apresentador.

Mas, se o Oscar está tão ansioso para botar conteúdo blockbuster num programa que muitas vezes celebra pequenos filmes independentes, por que não convidar alguns apresentadores desse reino? Prefiro assistir a Dwayne Johnson e Emily Blunt apresentando o Oscar do que estrelando algo como Jungle Cruise: A Maldição nos Confins da Selva. E é divertido imaginar o que uma dupla afiada da Marvel como Paul Rudd e Simu Liu poderia fazer. Mas temo que o Oscar nunca restaurará o cargo de anfitrião, agora que a cerimônia fica mais curta sem ele. E por falar nisso…


 

Entenda que mais curto não significa melhor

Em sua interminável busca para reduzir o Oscar a uma duração administrável, a ABC e a academia fariam bem em se lembrar de uma coisa: o problema não é quanto tempo tem a cerimônia, mas como usa esse tempo. Por que não confiar na reputação de gigantismo do Oscar e preencher cada canto e recanto com algo emocionante? Ainda não entendo por que não fazem uma lista de trailers de filmes no mesmo nível do Super Bowl: imagine quantas pessoas assistiriam se os intervalos comerciais prometessem uma primeira olhada na sequência de Pantera Negra, só para dar um exemplo.

Quando se reduz a cerimônia desse jeito assim tão implacável, sobra menos espaço para os momentos humanos com que mais nos identificamos. Esses momentos não precisam vir apenas dos discursos de aceitação: muitas vezes penso com carinho na edição de 2009, apresentada por Hugh Jackman, a qual abriu espaço para cinco ex-vencedores apresentarem cada uma das categorias de atuação. Foi uma maneira adorável de homenagear a história do Oscar, e todos os indicados ficaram memoravelmente comovidos com o tributo. Essa cerimônia durou cerca de 11 minutos a mais do que a que foi ao ar em abril do ano passado, mas prefiro esses 11 minutos a quase tudo o que o show mais curto tinha a oferecer.


 

Retome os clipes e as atuações

Uma das razões pelas quais a cerimônia do Oscar deste ano foi tão mortalmente enfadonha é que quase todos os clipes de filme foram retirados da transmissão. Para espectadores casuais que assistem ao Oscar sem ver a maioria dos indicados, esses clipes criam interesse: com base em vislumbres das performances e da cinematografia, você pode ficar na sua poltrona adivinhando quem vai ganhar. Quando eu assistia à cerimônia quando criança, os clipes dos filmes ofereciam uma prévia de mundos, vidas e pessoas até então desconhecidas para mim. Eles são essenciais.

A cerimônia deste ano também tirou as apresentações de indicados a Melhor Canção, o que privou o evento principal de vários momentos de alta energia. (Você consegue imaginar aquele escaldante dueto de Shallow de Lady Gaga e Bradley Cooper chutado para o pré-show dois anos atrás?). Este ano, com canções originais de Beyoncé e Billie Eilish na mistura, seria uma tolice o Oscar não aproveitar essas performances. E se todos esses clipes e performances deixarem a cerimônia mais longa, basta cortar os curtas, já!


 

Faça as pazes com a nova realidade do Oscar

Além de tudo isso, há muito o que o Oscar pode fazer para interromper sua queda nas avaliações. Hoje em dia as pessoas simplesmente consomem mídia de um jeito diferente, e muitas famílias e o público mais jovem cortaram totalmente a TV a cabo, consumindo todos os seus programas em serviços de streaming.

Mas a atração essencial do Oscar ainda permanece. É a única cerimônia de premiação que gera tanta conversa, e as narrativas que se desenrolam por causa do show continuam a se espalhar por nossa cultura – de vitórias arrasadoras, como a de Parasita, vencedor de Melhor Filme, até um movimento cultural como #OscarsSoWhite. Vimos isso acontecer no ano passado, quando Steven Yeun, a estrela de Minari, se tornou o primeiro asiático-americano indicado a melhor ator e quando Chloé Zhao, a diretora de Nomadland, virou a primeira mulher não branca a vencer a categoria. Mesmo que seus filmes não fossem exatamente sucessos de bilheteria, suas conquistas viralizaram muito nas redes sociais.

Esse tipo de engajamento prova que ainda há um grande público lá fora – embora seja um público que sintonize com cada vez mais frequência via Twitter, YouTube e TikTok. Se a academia quer atrair todos esses olhos para a transmissão em tempo real, ela deve fazer um jogo mais atraente para chamar sua atenção. Apesar dos erros recentes, as pessoas não perderam interesse pela ideia do Oscar. É a própria cerimônia que precisa de um ajuste.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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