O olhar perverso de Claude Chabrol sobre a burguesia

Há um crime no começo de La Fleur duMal, o novo filme de Claude Chabrol, que participa dacompetição no 53.º Festival de Berlim. E há outro crime queocorre muito tempo antes e é apenas referido por meio dosdiálogos. No fim, há uma transferência de culpa entre os autoresdesses crimes, ou uma autora. O suspense, a culpa, tudo pareceaproximar A Flor do Mal do universo de Alfred Hitchcock.Apesar disso, Chabrol não acha que o filme seja hitchcockiano.Também se apropriou do título de Beaudelaire, mas não é um filmebeaudelairiano. A Flor do Mal não é nem mesmo um grandefilme de Chabrol, mas é a obra de um grande diretor, comcerteza.Acaba de sair na França um livro sobre Chabrol. Chama-seLa Traversée des Apparences. A travessia das aparências.Nada é o que parece ser no cinema do diretor. O mundo que elefilma é feito de aparências e o seu trabalho é tirar a máscarados personagens para que o espectador perceba o que ele querdizer sobre os homens e o mundo. Logo no começo de A Flor doMal, Benoit Magimel volta dos EUA, o que permite a Chabrol umasérie de piadas sobre os modos de vida americano e francês. Devolta à casa, ele reencontra a família. A madrasta está tentandofazer carreira na política, ele odeia seu pai, ama a prima etodo mundo venera a velha tante Line, interpretada pela veteranaSuzanne Flon, uma das glórias do cinema francês. Tia Line éacusada de haver assassinado o próprio pai no fim da 2.ª GuerraMundial. Parricídio, incesto, assassinato, transferência deculpa. Não comece a achar que você já sabe do que se trata ouquem matou quem. As coisas, vale repetir, nunca são o queparecem no cinema de Chabrol.Se você é cinéfilo, se lembra, por certo, da cena de ODiscreto Charme da Burguesia em que Luis Buñuel mostra seusburgueses às mesa, abre-se uma cortina e é como se elesestivessem no palco. A burguesia como representação é uma idéiade Buñuel que Chabrol há anos vem retomando ou desenvolvendo. Eos momentos mais importantes dessa representação ocorrem à mesa,quando a família está reunida e explodem os conflitos ou, então,justamente o contrário, as pessoas fingem para dar a impressãode que está tudo bem. Isso, de certa forma, faz a ponte entreA Flor do Mal e vários filmes brasileiros recentes, comoAbril Despedaçado, Central do Brasil e As TrêsMarias, para citar apenas três exemplos. Em todos, a narrativadesenvolve-se a partir de uma mesa de refeições, na qual, afamília reunida, expõe a extensão de seus conflitos.Chabrol tem a fama de gourmet. Discutem-se bons vinhos,a culinária francesa. Magimel come ostras e diz que é um prazerestar de volta à França só para desfrutá-las. Acrescenta: osamericanos lavam as ostras com água fresca e isso tira todo ogosto. Chabrol acha graça dessas coisas. Também acha divertido oque ele próprio define como seu nepotismo. Um filho, Thomas, éator do filme, outro, Mathieu, é o autor da música. A filha éscriptgirl e a mulher é assistente. "Parece-me justo que umfilme sobre a família seja feito em família", diz. Só esperaque a ficção não imite a realidade e seja necessário matar o pai, o símbolo dessa hipocrisia burguesa contra a qual se insurge ocineasta. Havia a expectativa de um grande Chabrol, para fazerfrente, talvez, ao grande filme de Stephen Daldry, As Horas,que é, até agora, o ponto alto deste festival. A expectativapassa a ser agora pelo outro filme francês da competição, SonFrère, de Patrice Chéreau, que já ganhou aqui em Berlim, hádois anos, com Intimacy. Mas Chabrol se subestima (ou seráironia?) ao dizer que A Flor não é hitchcockiano nembeaudelairiano, "ce sacré pauvre film". Também não é um pobrefilme. Chabrol é grande demais para cometer pequenos filmes. Seuolho perverso (L´Oeil du Malin) conduz o nosso em A Flordo Mal.

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2003 | 18h25

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