O olhar de Altman sobre o mundo da dança

O gingado e o senso de ritmo de Robert Altman estão lá. Mas cadê o sentido crítico? Onde o faro aguçado da ironia, que faz o encanto de Nashville, O Jogador e Prêt-à-Porter? Certo, De Corpo e Alma, esse novo "filme de bastidores profissionais" de Altman é mais uma homenagem à dança que outra coisa qualquer. Mesmo assim, os fãs do diretor, acostumados a seu tom sardônico, terão motivo para uma ponta de decepção. Dito isso, acrescente-se que De Corpo e Alma é um filme muito acima da média. E entra no universo da dança sem o ranço folclorizante que tem caracterizado outro habitué do gênero, o espanhol Carlos Saura. Altman é mais contido, filma com mais elegância, não abusa tanto dos efeitos de luz nem busca aquele tipo manjado de metalinguagem em que a história que se passa no palco se confunde com a vida, etc. Em suma, Altman é mais documental, ou quase isso. Para registrar os bastidores de uma companhia de dança, escolheu a Joffrey Ballet de Chicago, considerada de ponta e pouco presa a padrões tradicionais de dança. A abertura já mostra a vocação desse corpo de baile. Vê-se na tela uma coreografia ousada e a música que a acompanha parece levemente atonal. Enfim, temos aqui quase a antítese do bailado vigoroso e redondo que Saura costuma apresentar. Mesclados aos profissionais de dança da Joffrey, alguns atores. Entre eles, Malcolm MacDowell (lembra-se dele como o violento Alex de A Laranja Mecânica?), que interpreta o diretor da companhia, o ítalo-americano Alberto Antonelli, inspirado no verdadeiro coreógrafo, Gerald Arpino. Outra é Neve Campbell, no papel da bailarina em ascensão, Ry. Há uma historinha no meio de tanta dança: ela narra a luta de Ry para se tornar bailarina de sucesso, enquanto se envolve amorosamente com um garçom, Josh (James Franco). Esse pequeno fio narrativo está lá para alinhavar o que interessa a Altman, a reprodução do cotidiano da companhia. Há também as rivalidades latentes entre os bailarinos, problemas administrativos causados pela carência de financiadores, atritos provocados pela chegada de um novo e também egóico coreógrafo, e por aí vai. O espectador, que nada conhece dos bastidores de uma companhia de balé, constata que se trata de um grupo humano sujeito a paixões e rivalidades como outro qualquer. Mas o olhar de Altman, convém repetir, pende mais para a camaradagem que para a acidez.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.