FOX 2000 PICTURES
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'O Ódio Que Você Semeia' é outro acréscimo importante ao debate antirracista

Neste ano de afirmação dos negros em Hollywood – Corra! venceu o Oscar de roteiro, Pantera Negra arrebentou na bilheteria

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2018 | 03h39

É muito interessante ver como o belo As Viúvas, de Steve McQueen, dialoga com outro longa realizado por diretor negro de Hollywood, em cartaz nos cinemas brasileiros – O Ódio Que Você Semeia, de George Tillman Jr. Logo na abertura do segundo, um pai reúne os três filhos – de 9, 8 anos e o terceiro ainda bebê – para uma explicação importante. Na verdade, é quase uma aula. Como reagir, ou não reagir, a uma abordagem policial. A família é toda negra, de classe média. O pai possui um pequeno negócio, a mãe é enfermeira. Interpretado por Russell Hornsby, Maverick explica que os filhos devem permanecer calmos, não discutir com a autoridade – policiais se enervam com facilidade – e, principalmente, devem manter as mãos visíveis, sem movimentos bruscos.

Papai reza pela cartilha dos Black Panthers e ensina os filhos a recitarem seus direitos. A família habita uma comunidade (negra) em que todo o mundo se conhece, mas, para garantir a integridade dos filhos, eles estudam numa cara escola num bairro de brancos. A menina – Starr, com dois Rs – cresce para se tornar Amanda Stenberg, da franquia Jogos Vorazes. Ela vai a uma festa, reencontra um antigo amigo de infância. Não se veem há tempos. Ele entrou para o tráfico, mas nesse momento é apenas o primeiro namorado, com quem Starr vai trocar novo beijo. Chega o policial. Khalil não segue o ensinamento da primeira cena. Faz um movimento brusco – para pegar sua escova de cabelo! É crivado de balas diante de Starr. O caso repercute na comunidade. Gera protestos e movimentos de rua. Starr é convocada a testemunhar perante o grande júri, que decidirá se o policial vai a julgamento.

O jovem negro vítima da violência policial também está em As Viúvas. O filho de Viola Davis está indo para a escola em seu carrão. É abordado por um policial. Também faz um movimento brusco, e morre crivado de balas. Para a polícia, jovens negros são estatísticas policiais. Na direção de carro, a tendência é que sejam criminosos. O filho de Viola, não é. Khalil pode até ser, mas não naquele momento. O filme narra a história da transformação de Starr em ativista de direitos dos negros. Ela arrasta a família – a mãe, que preferiria ver a filha distante de tudo isso, o pai, que tem um passado, e entra em choque com o traficante que domina a região e não fica contente com o desabafo de Starr na região, quando ela tenta limpar a reputação do amigo morto, explicando porque ele foi parar no tráfico.

George Tillman Jr. não é exatamente um diretor prestigiado por sua atividade no cinema. Fez Homens de Honra, com Robert De Niro e Cuba Gooding Jr., cujo tema já era o racismo – a diferença como a sociedade trata brancos e negros –, mas seu sucesso (e prestígio) vem da TV. Fez as séries Soul Food, inspirado em sua infância e juventude no Wisconsin, e Barbershop, sobre uma barbearia num bairro negro de Chicago. A cena-chave citada no começo do texto é uma mera sugestão no livro de Angie Thomas em que se baseia o filme. Foi expandida pelo diretor e pela roteirista Aubrey Wells, que é branca e dirigiu Sob o Sol da Toscana, com Diane Lane. O título, The Hate U Give, vem de 2Pac – o ódio que você semeia é produto da violência que você planta. Neste ano de afirmação dos negros em Hollywood – Corra! venceu o Oscar de roteiro, Pantera Negra arrebentou na bilheteria –, o filme de Tillman Jr. só vem somar. É muito bom.

 

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