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O novo julgamento do diretor Woody Allen

Filha adotiva do cineasta descreve, em carta, abuso que teria sofrido aos 7 anos

Lúcia Guimarães, Nova York - O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2014 | 16h02

A filha adotiva do diretor Woody Allen e da atriz Mia Farrow, Dylan Farrow, de 28 anos, decidiu, pela primeira vez, narrar sua versão de um incidente de 1992 em que acusa Allen de abuso sexual.

“Qual dos filmes de Woody Allen é o seu favorito? Antes de responder, você precisa saber: quando eu tinha sete anos de idade, Woody Allen levou-me pela mão para o sótão no segundo andar da nossa casa. Ali, ele me mandou ficar de bruços e brincar com o trenzinho elétrico do meu irmão. Então abusava de mim sexualmente.” Assim começa a dolorosa “carta aberta” de Dylan, hoje casada, com filhos, que vive na Flórida sob outro nome.

A carta foi enviada ao colunista Nicholas Kristof, do New York Times, e publicada na íntegra, no sábado, no site do jornal. Ontem, a edição impressa trouxe apenas trechos inseridos na coluna de opinião de Kristof, conhecido por cruzadas humanitárias, denúncias de tráfico humano e exploração sexual.

O incidente de 4 de agosto de 1992 está no centro da tumultuada separação de Woody Allen e Mia Farrow, ao fim de 12 anos de uma união incomum – os dois não se casaram e Allen, embora tenha adotado Dylan e Moses, dois dos então sete filhos adotivos de Mia Farrow, nunca morou com a companheira.

A crise do casal começou quando Mia Farrow descobriu, em janeiro 1992, no apartamento de Allen, fotos de Soon-Yi, sua filha adotiva com o ex-marido, o maestro e compositor André Previn. Nas fotos, a coreana, então com 19 ou 21 anos, posava nua para o diretor. Os dois se casaram e hoje vivem juntos em Manhattan.

A carta de Dylan Farrow provocou enorme reação na mídia social e os comentários são predominantemente negativos. Ao tomar seu lugar habitual na companhia de Bechet, de 15 anos, uma de suas duas filhas adotivas com Soon-Yi, no Madison Square Garden, no sábado, Woody Allen não sabia que veria seu time de basquete, o New York Knicks, perder para o Miami Heat. Mas o diretor, que concorre ao Oscar de melhor roteiro por Blue Jasmine, já entrou no ginásio sob uma nuvem de condenação pela divulgação da carta.

Consultado com antecedência pelo New York Times, ele se recusou a comentar a acusação. No início da noite de domingo, o site Hollywood Reporter publicou uma nota que recebeu de um porta-voz do diretor. Ela diz: “Allen leu o artigo e o considerou falso e infame. Ele vai responder a tudo muito em breve.”

Woody Allen nunca foi processado criminalmente pelo alegado abuso. Dylan foi examinada por médicos que não conseguiram recolher dela depoimentos que incriminassem de maneira convincente o pai adotivo. Allen foi entrevistado por psiquiatras e se submeteu a um teste de detector de mentiras. Quando foi acusado de abuso sexual, ele processou Mia Farrow pela custódia de Dylan e Moses, além do filho natural do casal, registrado como Satchel, e perdeu. Satchel foi rebatizado Ronan pela mãe.

Ronan Farrow, hoje com 25 anos, foi um menino prodígio que começou a cursar faculdade aos 11 anos, fez pós-graduação em Direito na Universidade de Yale aos 16, trabalhou no Departamento de Estado sob Hillary Clinton e seguiu os passos de militância humanitária da mãe.

A polêmica sobre o abuso sexual de Dylan foi reacendida quando Mia Farrow deu uma entrevista à Vanity Fair em outubro, numa reportagem em que alguns dos filhos da atriz atacaram Woody Allen. Na mesma entrevista, Mia Farrow declarou que Ronan seria “possivelmente” filho de Frank Sinatra, e não de Woody Allen. Ela se casou com o cantor aos 19 anos e ele pediu divórcio quando ela insistiu em atuar em O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski.

No Globo de Ouro, em 12 de janeiro, pouco antes de um tributo a Woody Allen, Mia Farrow foi ao Twitter sugerir sarcasticamente que era hora de trocar de canal. Mas Ronan provocou a maior controvérsia ao escrever, também no microblog: “Não vi a homenagem. Eles falaram da parte em que uma mulher confirmou publicamente que foi abusada por ele na infância? Antes ou depois de Annie Hall?”

Só duas pessoas conhecem a verdade. Mas não há dúvida de que, 20 anos depois de perder na justiça americana, a família Farrow escolheu outra instância para julgar Woody Allen.

TRECHO DA CARTA DE DYLAN FARROW

“Qual dos filmes de Woody, ....

Allen é o seu favorito? Antes de responder,... ...você precisa saber: quando eu tinha 7 anos, Woody Allen levou-me pela mão para o sótão no segundo andar da nossa casa. Ali, ele me mandou ficar de bruços e brincar com o trenzinho elétrico do meu irmão. Então abusava de mim sexualmente. (...)”

“(...) Na semana passada Woody Allen foi indicado ao Oscar. (...) Por muito tempo a aceitação de Woody Allen me fez silenciar. Como se fosse uma reprovação pessoal, como se os prêmios e galardões fossem uma maneira de me dizer para calar a boca. Mas os sobreviventes de abusos que vieram até mim (...) deram-me razões para não mais silenciar, para que outros saibam que também não devem silenciar.” 

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