O novo '300' é uma HQ em movimento, o que é uma virtude

Murro traz para a série um interessante desenho de personagens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2014 | 03h00

Rodrigo Santoro conta na entrevista acima como encarou o desafio de humanizar o poderoso imperador persa. E ele diz mais uma coisa importante – seria o protagonista da história, mas como a graphic novel de Frank Miller não ficou pronta para servir de base para o roteiro, o foco está em Artemísia, a personagem de Eva Green. A menina que responsabiliza os gregos pela chacina de sua família vira a mais cruel das guerreiras persas. Ela coloca Xerxes no trono e o prepara para as guerras. Ela tenta enredar o novo herói grego, Temístocles, na sua teia de sedução. Quando falha – é guerra!

No primeiro filme da série 300, o diretor Zack Snyder conseguiu o prodígio de transformar a graphic novel original numa espécie de história em quadrinhos em movimento. Por meio de tecnologia de ponta – o chamado cutting-edge virtual –, ele não apenas movimentou a estrutura plana dos comics como imprimiu ao visual uma textura peculiar, como se velhos relevos adquirissem vida. Tudo isso foi muito impressionante, mas não foram poucos os críticos que inventaram que a saga dos 300 gregos que derrotaram o império de Xerxes seria "fascista".

O israelense Noam Murro, que agora dirige 300 – A Ascensão do Império, quis, acima de tudo, evitar que essa acusação lhe fosse feita. Na abertura do filme, Leônidas (Gerard Butler) já está morto e seu substituto, à frente dos gregos, Temístocles, passa o tempo todo fazendo discursos sobre a importância da resistência da democracia grega ao império dos persas, esse sim, totalitário (e fascista). Xerxes é esculpido como um deus por Artemísia e, quando ela tenta seduzir Temístocles, o espectador fica meio em dúvida se ela queria sujeitá-lo a seus encantos ou simplesmente confirmar, como proclama, que ele é humano e, portanto, não é um deus (como Xerxes).

Na saída da sessão de imprensa de 300 – A Ascensão do Império, mais de um crítico saiu torcendo o nariz. "É um comic", diziam. Lógico que é um comic, uma HQ em movimento. Esse é o conceito, e posto que se trata da base de tudo, talvez seja uma virtude, não um defeito. Para encurtar a discussão, o que Murro traz para a série é um interessante desenho de personagens. Xerxes fica maior – e Rodrigo, como já se disse, penou para mantê-lo humano. Artemísia, consumida pela vingança, é uma diaba no seu desejo de destruir a armada grega. Mas ela é bela, perigosamente bela, o que aumenta o perigo dos homens. E Temístocles...

Sullivan Stapleton, que faz o papel, pode ser considerado um avanço em relação a Gerard Butler. O astro de Leônidas pode ser objeto de desejo para um contingente muito amplo de público, mas ele tem a língua presa, o que o vulnerabiliza como herói. O australiano Stapleton projeta uma figura mais poderosa, especialmente quando solta o verbo, conclamando os gregos à resistência. E ele tem ‘aquela’ cena com Eva Green. A cena de sexo dos dois é épica como o filme, uma batalha. Coreografada para ser um embate físico (e brutal), vai fazer o deleite dos voyeurs. Embora tudo fique mais insinuado do que seja mostrado, elevou a censura do filme para 18 anos. É raro, neste tipo de blockbuster.

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