"O Muro" põe lenha na fogueira belga

Enquanto a Europa busca dissolver as fronteiras, o cineasta Alain Berliner lança uma provocação ao construir um muro de aço para dividir a Bélgica. O resultado é uma divertida fábula, O Muro, concebida para escancarar o calcanhar-de-aquiles do país: a eterna guerra lingüística entre o francês e o flamengo. Quem guia o espectador por essa trama assumidamente surreal é o dono de uma barraquinha de batatas fritas - uma paixão nacional. Montada exatamente sobre a fronteira entre as duas comunidades, a barraca permite que o dono (Daniel Hanssens) circule pelos dois mundos. Quando mergulha as batatas no óleo está do lado francófono. Mas, ao entregar a porção ao cliente, ele fala flamengo. A partir de hoje em cartaz, o filme de Berliner (do elogiado Minha Vida em Cor-de-Rosa) é repleto de momentos deliciosamente absurdos. Principalmente depois que um grupo radical levanta um muro - em alusão ao extinto muro de Berlim - e divide a barraquinha ao meio. O serviço é executado na passagem de 1999 para o ano 2000. O Muro é resultado de uma encomenda feita por um canal de televisão francês, projeto do qual também participaram Walter Salles e Daniela Thomas, com O Primeiro Dia. Todos os cineastas convidados tiveram de seguir uma única instrução: que o filme retratasse a noite de 31 de dezembro de 1999. Assim como a dupla brasileira, Berliner dá conta do recado e aproveita para salientar um problema de seu país. O conflito de identidade cultural na Bélgica não tem implicações tão alarmantes quanto as da violência no Brasil, mas o assunto não deixa de ser curioso. Principalmente quando alguém pergunta algo em francês e ouve a resposta em flamengo (ou vice-versa). Cena que se repete todos os dias na capital, Bruxelas.

Agencia Estado,

08 de dezembro de 2000 | 13h15

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