O montador do Cinema Novo ganha o segundo Candango

Seu nome ocupa um capítulo importante do cinema brasileiro. Além de diretor de filmes como Lição de Amor e Ato de Violência, Eduardo Escorel foi montador e roteirista associado aos grandes nomes do Cinema Novo. Para Gláuber, montou Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Para Joaquim Pedro de Andrade, montou O Padre e a Moça, Macunaíma e Guerra Conjugal e escreveu Os Inconfidentes. Guerra Conjugal lhe valeu o primeiro Candango de montagem, no Festival de Brasília de 1974. Quase 30 anos depois (26, exatamente), Escorel recebeu o segundo Candango de montagem. Foi em novembro, pelo filme O Chamado de Deus, de José Joffily. Escorel havia abandonado a montagem para seguir a própria carreira de diretor. Ocasionalmente, algum amigo o cooptava para participar de algum projeto importante e lá ia ele para a moviola. Isso é passado, não a montagem ? a moviola. Escorel está adorando retomar a atividade de montador. Foram três filmes seguidos ? Fé, de Ricardo Dias, Villa-Lobos, de Zelito Viana, e o de Joffily. Antes, a montagem era um exercício desgastante, no sentido físico mesmo. Uma atividade manual. Aquela história de ir para a moviola, cortar, colar esgotava. Com a nova tecnologia digital ficou tudo mais fácil. Escorel considera que sua atividade nesses três filmes foi prazerosa. ?A montagem em vídeo permite ousar mais; a gente pode jogar com as imagens e ver, imediatamente, o resultado; aprovado, vai em frente; se não agrada é só tentar outra coisa ? tudo rápido e eficiente.? Joffily começou a captar as imagens do seu filme em 1998. Usou uma câmera digital. Gravou muito, horas de depoimentos. Ainda não tinha muito clara a idéia do filme que queria fazer. Imaginava apenas um documentário sobre os rumos da Igreja Católica no País. Fez horas de entrevistas com os bispos da CNBB, gravou com o teólogo Leonardo Boff. Escorel e ele se debruçaram sobre esse material. Discutiram-no minuciosamente. Ocorreu então que, numa romaria em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, Joffily encontrou ?os meninos?, como Escorel se refere aos jovens seminaristas ligados à corrente da Teologia da Libertação. Logo ele gravou as cenas no seminário de Correias, com os defensores da Renovação Carismática. O documentário achou seu rumo. Deixou de ser aquele projeto amplo, inicial, para virar uma discussão sobre essas duas correntes da Igreja Católica brasileira, hoje. O montador ri quando o repórter observa que, embora a intenção de Joffily fosse fazer uma abordagem jornalística, imparcial, o documentário deixa claro que seu coração bate mais forte pelos meninos. Ele se identifica mais com a Teologia da Libertação. Escorel não contesta, mas diz que a intenção nunca foi transformar o entrechoque dessas duas correntes numa oposição de mocinhos e vilões. Acha que Joffily e ele conseguiram isso ? olhar com respeito os contendores. Diz que é um desafio maior, mas também mais estimulante, montar um documentário que uma ficção. A ficção já vem mais ou menos definida pelo roteiro, embora possa mudar ? e ele diz que Villa-Lobos mudou bastante na edição, mesmo mantendo aquele jogo de tempo que já estava proposto no roteiro inicial. A montagem de um documentário, em geral, permite múltiplas escolhas. O desafio é descobrir a forma que serve ao filme. Está adorando brincar de montagem. Não tem nenhum projeto pessoal de ficção. Tinha projetos de documentários, mas precisou abandonar o dedicado à Revolução de 35, a chamada Intentona Comunista, por falta de verba. Ninguém se interessou pelo assunto. É pena, porque ele acha que daria um trabalho bem interessante.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.