O "monstro" Claude Chabrol em Berlim

Há uma cena de La Fleur du Malque parece sintetizar tudo o que Claude Chabrol quer dizer emseu novo filme. Ela remete a outra cena famosa, de AlfredHitchcock. Você se lembra de Cortina Rasgada. Paul Newman ea fazendeira querem matar o agente que o persegue em BerlimOriental, mas não querem fazer barulho para não chamar a atençãodo taxista que levou o cientista americano a esse lugar ermo. Asolução é matar Gromek usando o gás do forno. Há uma profundaironia nisso tudo: o forno, Alemanha. Lembra alguma coisa? OHolocausto, talvez? No filme de Chabrol, Suzanne Flon, como avelha Line, ajuda a sobrinha que matou o próprio padrasto.Elas tentam arrastar o cadáver por uma escada, mas ele pesamuito. Cada degrau é um sacrifício e então o corpo escorrega edesliza escada abaixo. Elas conseguem segurá-lo e rompem numarisada nervosa. Chabrol, como Hitchcock, acha que não é fácil matar umhomem e, menos ainda, esconder o crime. Há algo de Hitchcock nacena, mas Chabrol acha que La Fleur du Mal não é um filmehitchcockiano, e também não é baudelairiano, embora o títuloremeta a Les Fleurs du Mal. Chabrol cancelou bruscamente seus compromissos aqui em Berlim e voltou para Paris naquarta-feira. Ainda deu uma outra entrevista final, mas estavavisivelmente desanimado. Foi durante um evento em sua homenagemque Daniel Toscan du Plantier, diretor da Unifrance, a AgênciaNacional de Cinema da França, que fomenta o cinema de lá,sentiu-se mal e morreu, em seguida. Chabrol acha que não épossível ser um cinéfilo, amar o cinema sem agradecer pelosnumerosos bons filmes que Toscan du Plantier produziu. "Seusfilmes de ópera são os melhores já feitos", ele diz. La Fleur du Mal não é um filme hitchcockiano nembaudelairiano, mas tem certamente a marca de Chabrol. Eleincorporou definitivamente o olhar perverso, "l´oeil du malin", transformando o título de seu filme dos anos 1960 no emblema detoda a sua obra. E Chabrol faz questão manter sua fama degourmet. Nathalie Baye, atriz do filme, diz que Chabrol fazfilmes para comer bem. Há sempre boas refeições em seus filmes.Ele esclarece o porquê dessa atração por tantos almoços ejantares: "O teatro da burguesia revela-se principalmente àmesa." Há anos que ele investiga o universo burguês. Seuinteresse pela burguesia tem uma explicação que parece singela:"Foi a única classe que sobrou", ele diz. Com o fim docomunismo, foi-se também a consciência de classe doproletariado. Hoje em dia, quem trabalha sonha com a acumulaçãoconsumista. "É a globalização", assinala o diretor. Na verdade, seu interesse pela burguesia é muitoanterior à globalização. Nos seus grandes clássicos, A MulherInfiel, O Açougueiro e Que la Bête Meure, Chabroldirige sua câmera para o meio burguês para revelar personagensmuitas vezes obsessivos e cruéis. Já se falou muito no ´monstro´chabroliano, quase sempre um burguês que oprime as família, amulher, os filhos, os empregados, se tiver algum negócio. O paiassassinado em La Fleur du Mal pertence a essa raça demonstros. Pareceu-lhe um bom título. "Tínhamos outro títuloprovisório, durante a rodagem, mas acho que esse é melhor: aflor do mal remete a uma certa idéia de beleza nociva, me pareceadequado para desvendar esses segredos que se escondem no seioda família." O filme tem incesto, parricídio, corrupçãofinanceira e política, o que talvez queira dizer a mesma coisa.A personagem de Nathalie é mãe da garota assassina e madrasta deBenoit Magimel - ele é o condutor da narrativa, como um francêsque volta para casa depois de passar três anos nos EUA. Tudoisso é muito pesado, mas Chabrol dá ao filme um tratamento leve,quase de comédia. É uma lição que ele aprendeu de Hitchcock, quese deve temperar o drama com humor, mas não um humor de comédia,para morrer de rir. Algo irônico: o cadáver que escorrega escadaabaixo, por exemplo. Não é só divertido: é insólito, talvezmórbido. Para Chabrol, é o melhor tratamento que poderia dar aostemas de La Fleur du Mal: "Se tratasse tudo isso a sério,com o peso que esses temas comportam, o filme seriainsuportável." Alegra-se de saber que A Teia de Chocolate agradou aum público de cinéfilos, no Brasil. Reconhece que é um filme deoutra ambição, mais sólida. Define La Fleur du Mal como "césacré petit film". Um filminho. Talvez queira um afago, ouvirdos entrevistadores que esse pobre filme, afinal, tem sua marcae não o desonra, em absoluto. Gostou de vir a Berlim, participando da competição, mesmo sabendo (ou achando) que nãotem muita chance, mas aí houve todo esse transtorno. A morte doamigo abalou-o, não há como negar. Revela um de seus segredos: émuito difícil que um ator ou atriz apresente uma máinterpretação num filme de Chabrol. O curioso é que todos dizemque ele não é do tipo que vai fundo nas instruções, que ensinaaos atores como devem representar. "O segredo", Chabrolesclarece, "é fazer com que os atores executem aquilo que vocêquer deixando-os crer que estão fazendo por vontade própria." Admite que, para isso, a escolha dos atores éfundamental. Cobre de elogios a veterana Suzanne Flon, que jáhavia trabalhado com ele nos anos 1960. Elogia também Nathalie(Baye) e Benoit (Magimel), que foi melhor ator em Cannes, em2001, por A Pianista, de Michael Haneke. Foram vários filmescom Stephane Audran, quando eram casados, vários com IsabelleHuppert. Ele gosta de trabalhar com gente conhecida. Gosta detrabalhar em família. Há muitos Chabróis na ficha técnica deLa Fleur du Mal; o filho Thomas é ator, outro filho, Mathieu, é compositor, a filha e a mulher participam da equipe. "Assumoo meu nepotismo", ele diz. Mas talvez exista algo mais. Elepercebe o que o repórter quer dizer. "Ah sim, dessa formamantenho-os todos sob os meus olhos." É uma forma de exercer oautoritarismo. Chabrol, um monstro de si mesmo? Ele ri e o olharperverso tempera-se. Esse homem pode ser irônico, cínico, mas também é um humanista. Quando filma a burguesia é paracriticá-la. Para Chabrol, o que interessa é a idéia, difícil deconcretizar, de um homem livre. Por que difícil? Por causa domundo em que vivemos, porque, em seus filmes, as coisas nuncasão o que parecem ser. "O Cinema é uma arte de aparências",ele sentencia.

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