O momento privilegiado de cineastas mexicanos

O momento privilegiado de cineastas mexicanos

Após 'Roma', de Alfonso Cuarón, ganhar três Oscars este ano, diretor Alejandro González Iñárritu é convidado para presidir Cannes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 21h21

Faltou apenas o Oscar principal para Roma se consagrar de forma absoluta no Oscar 2019. A Academia de Hollywood optou por solução mais conservadora, e pior para ela, que poderia ter feito história e não fez. Essa timidez em nada empana a vitória de Alfonso Cuarón, que levou dois Oscars particulares para casa, os de direção e fotografia. A outra estatueta de Roma foi a de filme estrangeiro. 

Cuarón não é um novato em vitórias em Hollywood. Dirigindo Gravidade, filme made in USA, levou a estatueta de diretor e seu compatriota, Emmanuel Lubezki, o de fotografia. É o bicho, esse “Chivo” Lubezki. Tem três Oscars na estante: além de Gravidade, venceu por Birdman e O Regresso.

Birdman, melhor filme em 2015, deu o Oscar ao seu diretor, Alejandro González Iñárritu. Feito repetido no ano seguinte com O Regresso, extraordinária saga estrelada por Leonardo DiCaprio, dirigida por Iñárritu e fotografada por Lubezki. Resta juntar ao grupo Guillermo del Toro, cujo longa A Forma da Água foi vencedor de Veneza e lhe deu o Oscar de melhor filme e direção. 

Este é o trio de diretores – Cuarón, Iñárritu e Del Toro – que os mexicanos chamam de “Los Tres Amigos”. Estão ganhando tudo por aí e projetando seu país com carreiras internacionais sólidas. Não se trata apenas de Hollywood: Roma venceu o prestigioso Festival de Veneza antes de triunfar nos Estados Unidos. Os três estão em toda parte. Ganhando prêmios ou, ao menos, disputando troféus nos principais festivais de cinema do mundo. Iñárritu agora vai presidir o júri de Cannes

“Los Tres Amigos” se aproximaram de Hollywood e têm realizado seus filmes em parceria direta ou indireta com os Estados Unidos. A vizinhança geográfica e cultural ajuda, ainda mais que do outro lado da fronteira encontra-se a Meca do cinema comercial, com seu poderio econômico. Cabe lembrar que Roma, dirigido, filmado e interpretado por mexicanos, é uma produção da gigante do streaming, a Netflix. 

Esse relacionamento cinematográfico México-Estados Unidos é antigo, e via de mão dupla. Grandes diretores, como Orson Welles e John Huston, filmaram no México. Welles ambienta no país vizinho seu magnífico thriller A Marca da Maldade, cuja abertura, um longo plano-sequência na fronteira entre os dois países, é até hoje estudado em escolas de cinema como um modelo inatingível desse recurso. Welles também iniciou no México It’s All True, com o episódio My Friend Bonito. A parte seguinte foi feita no Brasil, em 1942, focando o carnaval e a saga dos jangadeiros cearenses. 

Huston era fã do México e duas de suas obras-primas são lá ambientadas – O Tesouro de Sierra Madre, adaptado do romance de B. Traven, e À Sombra do Vulcão, da obra de Malcolm Lowry. O protagonista de À Sombra do Vulcão, interpretando um cônsul inglês devorado pelo alcoolismo, é o grande ator Albert Finney, há pouco falecido. 

Um diretor de melodramas de manual como Enamorada e Maria Candelária, Emilio “Índio” Fernández também era ator. Trabalhou, entre muitos filmes, em À Sombra do Vulcão e também no antológico Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah. 

Há muito o intercâmbio entre México e Estados Unidos se dá também na área técnica. Um exemplo basta: um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, Gabriel Figueroa fotografou O Fugitivo para John Ford. Habitué dos sets de melodramas, Figueroa foi também o fotógrafo de Luis Buñuel no período mexicano do bruxo espanhol do surrealismo. Assina, com Buñuel, obras-primas como Nazarín e O Anjo Exterminador

A relação entre os dois países é forte e fecunda, e também conflituosa. Na guerra de 1846-1848, os Estados Unidos ampliaram seu território em um quarto, enquanto os mexicanos perderam metade do seu. Esse foco de tensão e ressentimento pode ter passado de geração em geração e até hoje encontra-se presente na memória histórica das pessoas. 

No século 20, o México foi capaz de criar uma indústria muito forte. A empresa Pelmex (Peliculas Mexicanas) criou um modelo semelhante ao de Hollywood, com estúdios, star system, etc. Fazia sucesso no mercado interno e exportava para muitos países, Brasil inclusive. No rastro dessa indústria, criaram-se os grandes diretores comerciais, mas também um importante cinema de autor em gerações diferentes como Arturo Ripstein (Vermelho Sangue), Paul Leduc (Frida, Natureza Viva), Carlos Reygadas (Nosso Tempo) e Alonso Ruizpalacios (Museu).

Há consistência no cinema mexicano e ela talvez se deva tanto à consciência cultural forte quanto à internacionalização sem medo de perder as raízes. Intercâmbio é tudo, e não há muro que o impeça. 

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