O mito Paul Newman em vídeo e DVD

Ele já foi considerado um dos homens mais bonitos do mundo, mas aqueles olhos azuis, que catapultaram sua carreira no cinema, também foram entraves nos primeiros tempos. Os produtores achavam que Paul Newman não cabia nos papéis viris e tentavam colocá-lo em comédias românticas inócuas ou dramas religiosos. Ele sobreviveu. Criou a fama de ser um dos maiores rebeldes da tela e chegou, em janeiro aos 76 anos, consagrado como mito. Diferentes épocas de sua carreira podem ser conferidas nas locadoras, por meio de lançamentos de DVD e vídeo.O primeiro a chegar, há alguns meses, foi o DVD de Gata em Teto de Zinco Quente, que Richard Brooks adaptou de Tennessee Williams, de certa forma edulcorando a densidade mais trágica do texto do dramaturgo - a história de um machão emasculado e a mulher insatisfeita que não desiste dele -, sem deixar de ter feito, por isso, um filme com aura de clássico, no qual Newman e a jovem Elizabeth Taylor são esplendorosos. Há mais dois DVDs que chegaram às lojas: o de Rebeldia Indomável, de Stuart Rosenberg, e o de Ausência de Malícia de Sydney Pollack. E há também, em vídeo, a comédia Cadê a Grana?, de Marek Kanievsk. Um filme dos anos 50, outro dos 60, o terceiro dos 80 e o mais recente já dos anos 2000. O tempo passa e a fera permanece indomável.Newman é o último de uma série de rebeldes que irrompeu nas telas nos anos 50. Os críticos gostam de dizer que James Dean e ele, e não o rock, foram as primeiras encarnações de rebeldia na era da cultura industrializada. Dean roubou de Newman o papel de Vidas Amargas, que Elia Kazan realizou, mas ele se vingou quando substituiu o astro de Juventude Transviada (o cult de Nicholas Ray) no papel de Rocky Graziano em Marcado pela Sarjeta, que Robert Wise havia planejado especialmente para o outro. Newman e Dean compartilhavam o gosto pela velocidade e esse atingiu outro rebelde que veio depois deles, Steve McQueen. A sombra de Marlon Brando, o ícone supremo que talvez fosse quem mais o incomodasse, não preocupa mais: Brando engordou e sumiu, fazendo raros filmes que ultimamente são sempre dispensáveis.Dean morreu nas ferragens do seu Porsche envenenado, McQueen, sempre associado a motos e carros, morreu aos 50 anos, em 1980, de câncer. Newman continuou correndo (e até participou das 24 Horas de Le Mans). Virou empresário. Possui uma equipe na fórmula Indy e uma fábrica de molhos que já rendeu US$ 100 milhões, integralmente doados por ele a instituições de caridade. Só um cara muito macho abriria mão de tanto dinheiro sem pestanejar. Até por isso, ele chega quase aos 80 anos como eterno rebelde.Recorde - Foi indicado oito vezes para o Oscar. A primeira, por Gata em Teto de Zinco Quente, a mais recente, por O Indomável, em 1995, quando completava 70 anos. Tem gente que jura que até hoje uma das grandes injustiças da Academia de Hollywood foi não ter dado a Newman o Oscar de melhor ator por Desafio à Corrupção, de Robert Rossen, em 1961. A academia pelo menos se redimiu: quando Newman voltou à pele do personagem Eddie Felson (em A Cor do Dinheiro, de Martin Scorsese, em 1986), ganhou finalmente sua estatueta dourada. Um ano antes, havia recebido outra, especial, por sua carreira, mas a de A Cor do Dinheiro é a que vale em seu currículo.Outsiders, perdedores, carreiristas. Foram personagens assim que forjaram seu mito. Foi escravo, boxeador, caubói, lutador, corredor, detetive, tira, espião, presidiário, músico. E criou imagens muitas vezes definitivas de personagens históricos: o citado Rocky Graziano, Billy the Kid (em Um de Nós Morrerá, de Arthur Penn), Butch Cassidy (no cult de George Roy Hill), Roy Bean (em Roy Bean, o Homem da Lei, de John Huston), Búfalo Bill (em West Selvagem, de Robert Altman). Tinha 42 anos quando fez o Luke de Rebeldia Indomável, que, no filme, tem 30 e poucos anos. Luke é o típico rebelde sem causa de Newman. Rebenta parquímetros num estacionamento. Vai parar na cadeia e enfrenta tudo e todos. Por que mesmo? Porque nos conteadores anos 60 Hollywood adorava celebrar personagens à margem, desde que fossem tão sedutores quanto Newman. O DVD de Rebeldia Indomável não tem muitos extras. Tem trailer de cinema e as tradicionais seleções de cenas e escolha de idiomas. Só. Mas quem redigiu o texto da capa revela um conhecimento apreciável da obra do ator. Luke é definido como Eddie Felson (The Hustler) sem sabor de vitória, Harper sem uma missão moral e Hud sem seu pai para desafiá-lo. Harper e Hud são personagens famosos de Newman e o primeiro não é outro senão o detetive Lew Archer, criado pelo escritor Ross McDonald.Rebeldia Indomável tem direção de Stuart Rosenberg, que formatou vários filmes para o carisma e o estilo de Newman, neste aqui e também em Brubaker investindo contra o sistema penitenciário americano, tão ou mais sórdido que o brasileiro. No segundo, coube a Robert Redford retomar o personagem newmaniano, sendo bom lembrar que Redford foi parceiro de Newman nas rebeldias consagradas de Butch Cassidy e Golpe de Mestre, dois belos filmes de George Roy Hill. Ausência de Malícia é de 1967, Ausência de Malícia surgiu 14 anos depois. É um filme de Sydney Pollack, que usa a fórmula do thriller para tecer uma consistente reflexão sobre a ética profissional e o confronto entre os limites dos direitos da sociedade e os do indivíduo.É a história de um homem honesto, cujo pai esteve envolvido com o submundo. Um dia, ele acorda e descobre que virou manchete de primeira página, suspeito no desaparecimento de um líder sindical. Quem lhe garantiu a indesejada projeção foi a ambiciosa repórter Sally Field, que se deixou manipular por um policial que também age movido por seu interesse no caso. E agora o honesto Newman vai ter de jogar sujo para reverter a trama montada contra ele. Apesar de alguns personagens que parecem demasiado providenciais - o alto funcionário da Justiça que intervém no desfecho -, é um dos bons trabalhos do diretor, que vai além do mero suspense para dizer duas ou três coisas válidas sobre um homem em luta contra uma instituição poderosa, para provar sua dignidade.Um personagem sob medida para Newman, como o de Cadê a Grana?, no qual ele faz presidiário que tem um ataque do coração e vai parar no hospital, onde a enfermeira Linda Fiorentino desconfia que se trata de um golpe do criminoso veterano (e simpático) para fugir. Cadê a Grana? tem direção de Marek Kanievsk e, embora um tanto previsível, não deixa de ser divertido. Só cabe ressaltar que o brilho do astro às vezes ofusca outra faceta do seu talento, a de realizador, que ofereceu à sua mulher, Joanne Woodward, grandes papéis em Rachel Rachel, O Preço da Solidão e À Margem da Vida. São filmes intimistas, pessimistas e centrados em personagens femininas cujo drama (ou neurose) o rebelde se esforça para tornar convincente.Gata em Teto de Zinco Quente (Cat in a Hot Tin Roof). EUA, 1958. Direção de Richard Brooks, com Paul Newman e Elizabeth Taylor. DVD da Warner, R$ 39,90. Rebeldia Indomável (Cool Hand Luke). EUA, 1967. Direção de Stuart Rosenberg, com Newman e George Kennedy. DVD da Warner, R$ 39,90. Ausência de Malícia (Absence of Malice). EUA, 1981. Direção de Sydney Pollack, com Newman e Sally Field. DVD da Columbia, R$ 39,90. Todos nas locadoras e lojas especializadas. Cadê a Grana? (Where´s the Money?). EUA, 2000. Direção de Marek Kanievsk, com Newman e Linda Fiorentino. Vídeo da Buena Vista. Já nas locadoras

Agencia Estado,

27 de setembro de 2001 | 15h57

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