"O Mensageiro do Diabo" em cópia restaurada

Em 1954, ao preparar a adaptação do clássico O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter), único filme que veio a dirigir, o ator inglês Charles Laughton (1899-1962) procurou o arquivo de cinema do Museu de Arte Moderna de Nova York (o MoMA) para rever filmes de D.W. Griffith, além de títulos russos e franceses da décadas de 30 e 40. "Não fosse pelo nosso esforço em preservar esses filmes, Laughton talvez não tivesse sido exposto - e influenciado - por esses trabalhos e seu filme, com grandes soluções cinematográficas, poderia ter tido resultado um pouco diferente", explicou Mary Lea Bandy, curadora-chefe do Departamento de Cinema e Vídeo do MoMA.Ironicamente, uma cópia recém-restaurada de O Mensageiro do Diabo, produção estrelada por Robert Mitchum, Shelley Winters e Lillian Gish, seria a atração de ontem à noite dentro do 39.º Festival de Cinema de Nova York. Além da exibição do filme, que agora vai realçar ainda mais a suntuosa fotografia de Stanley Cortez (que trabalhou com Orson Welles, em Soberba) e mostrar de onde David Lynch deve ter tirado idéias para suas esquisitices cinematográficas, a Fiaf (Federação Internacional de Arquivos de Cinema, com sede em Bruxelas), entregaria o primeiro prêmio da entidade, que visa à preservação de filmes, para Martin Scorsese."Foi a escolha de nossos 176 membros", explicou Bandy. "Os esforços pessoais de Martin e seu trabalho à frente da fundação que criou (Centro Nacional para Preservação de Filme e Vídeo) vem levantando substancial soma de dinheiro, revertida aos arquivos cinematográficos espalhados pelo mundo." Entre os filmes para os quais Scorsese ajudou a levantar fundos para a restauração e preservação estão Lawrence da Arábia, de David Lean; Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock; e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha.Fundada em Paris, em 1938, numa iniciativa conjunta entre a Cinemateca Francesa, o MoMA, o Instituto Britânico do Filme (BFI) e o Arquivo Cinematográfico de Berlim, a Fiaf é uma associação sem fins lucrativos que descobre, preserva e cataloga filmes. Com 72 países afiliados, a Fiaf dispõe de aproximadamente 4,7 milhões de cópias originais de filmes. O cinema asiático agora é prioridade para os preservacionistas de celulóide. Segundo Mary Lea, um dos projetos atuais de restauração que chama a atenção da comunidade internacional vem de Portugal: o Arquivo Nacional do país está cuidando de um dos títulos de Manoel de Oliveira, Amor de Perdição, de 78.A cópia restaurada de O Mensageiro do Diabo apresenta outtakes (cenas que ficaram de fora da montagem final) selecionados de um total de oito horas de filme conservado. Um deles, por exemplo, mostra Shelley Winters parada atrás da porta do banheiro e insegura em relação à sua entrada em cena, na qual contracenaria com Mitchum. Laughton é ouvido gritando: "Vamos, Shelley!" Há também cenas não usadas dos atores mirins (Billy Chapin e Sally Jane Bruce) e a persistência de Laughton em manter a garotinha focada em seus close-ups. Mitchum teria confidenciado a colegas que Laughton detestava dirigir os atores mirins. A duplinha de O Mensageiro do Diabo é filha de Ben Harper (Peter Graves), um caipiria de Ohio na época da Depressão de 30 que comete um assassinato e foge com US$ 10 mil. Antes de ser preso, esconde a quantia dentro da boneca da filha e faz ambos prometerem guardar segredo, não revelando nem mesmo para a mãe deles, Willa (Shelley). Na prisão, aguardando ser enforcado, Ben divide cela com Preacher (Mitchum), um tipo assustador que se diz pastor e brinca com as tatuagens que tem nos dedos: love (amor) e hate (ódio). Preacher acaba sabendo do paradeiro do dinheiro e, ao ser solto, seduz Willa e ambos se casam. Quando Willa descobre suas reais intenções, é assassinada por Preacher.As crianças fogem num bote pelo Rio Ohio. A cena é fabulosa, com animais como coelhos e sapos em primeiro plano - numa noite de céu estrelado - dando um caráter bucólico ao drama pelo qual a dupla de irmãos passa. Apesar de mal recebido quando lançado em 55, O Mensageiro, segundo seleção do BFI, é considerado um dos cem melhores da história do cinema e críticos ressaltam a combinação que Laughton conseguiu com imagens estilizades, contos folclóricos, violência sexual e momentos de ternura. "O departamento de preservação da Universidade de Los Angeles (a Ucla) recebeu os originais há alguns anos", explica Mary Lea. "Embora tivessem danificados, havia como restaurá-los e foi feita uma nova cópia em filme de poliéster com os negativos da câmera original", prossegue. "Já a trilha sonora havia sido destruída por algo que chamamos de síndrome do vinagre, ácido que se aloja no negativo e destrói o acetato do filme." E acrescenta: "Depois de acharmos fitas magnéticas com a trilha original, conseguimos resmasterizá-la digitalmente e fazer o casamento perfeito de imagem e som." No começo do ano, a MGM lançou O Mensageiro do Diabo em DVD. Mas não se trata dessa nova cópia restaurada.

Agencia Estado,

04 de outubro de 2001 | 10h57

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