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Análise: O melhor do longa é a imersão de Pablo Neruda no Chile

Tom solene no retrato político do mestre das palavras

O Estado de S. Paulo

08 Julho 2015 | 01h00

Neruda, de Miguel Basoalto, já diz, em seu título, trabalhar com uma limitação autoimposta. Em vez de tentar uma biografia abrangente de Pablo Neruda, tenta esboçar seu perfil através de um único episódio, delimitado no tempo e no espaço. Trata-se da fuga de Neruda, perseguido pelo presidente Gabriel González Videla, que colocou o Partido Comunista na ilegalidade e mandou prender seus militantes. Entre eles, Neruda, que se elegera senador pelo PC em 1946. O ano da história contada é 1948 e o que vemos é o poeta empreendendo sua retirada pelo interior do país para escapar aos sicários de Videla. 

Neruda (vivido por José Secall) tenta sair do país por mar, disfarçado de inofensivo burguês. Quando esta via não dá certo, vê-se obrigado a apelar a um plano B complicado - atravessar a Cordilheira dos Andes, num trajeto difícil feito a pé por trilhas ou em lombo de mula. 

Essa alternativa complicou demais a vida do Neruda real, mas proporcionou ao filme seus melhores momentos dramatúrgicos. Primeiro porque transformou o filme em thriller prolongado, com passagens de emoção quando os perseguidores se aproximam da sua presa. 

O melhor, no entanto, é que, entrando pelo interior do país, Neruda retoma contato com o Chile profundo, bem diferente da capital, Santiago. É o Chile das montanhas, da neve, dos homens e mulheres simples, temperados pelo clima adverso e a dificuldade da vida sem recursos. Enfim, são essas as pessoas que levaram o jovem Neruda a uma opção política voltada para os desfavorecidos. 

O registro fotográfico é interessante, em tons escuros, que conduz o espectador à atmosfera da época. Possui momentos intensos, como os de Neruda à volta da fogueira onde trabalhadores do campo se reúnem para contar histórias e espantar o frio. Esse Chile rural, agreste e belo, marca presença na história de Neruda, àquela altura poeta consagrado, além de político. É pena que Basoalto tenha escolhido tom um tanto solene para contar esse fragmento da trajetória do poeta. Começa com a cerimônia da entrega do Prêmio Nobel em 1971, e o discurso de Neruda na Academia Sueca, relembrando essa passagem de sua biografia. O flashback é interessante, mas o tom grandiloquente tira um tanto de coloquialidade que faria o filme respirar, e tornaria o poeta mais humano e próximo de nós. 

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